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Brasil
Aonde
chegamos: bons
empregos só no Estado
Com
a economia asfixiada pelo peso
do governo, o funcionalismo público
volta a atrair a classe média

Gabriela
Carelli
Cristiano Mariz
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Com
mestrado e doutorado no currículo, o potiguar Antenor Madruga,
de 34 anos, desistiu do escritório próprio para ser advogado
da União. Ganha 9 000 reais por mês e se dedica a sua área preferida,
o direito internacional.
A paulistana Thaís Madruga, de 31 anos, mulher de Antenor, trocou
um emprego estressante de 1 000 reais pela Advocacia da União.
Ganha 6 500 reais e diz que uma vantagem de trabalhar para o
Estado é a segurança de que não será demitida |
Três
categorias importantes do funcionalismo público federal estavam
em greve na semana passada. Os escrivães, agentes e papiloscopistas
da Polícia Federal reivindicavam 85% de aumento salarial.
Se atendidos, a remuneração mensal do escalão
inferior da categoria saltaria de 4.200 reais para 7.800. Já
os advogados da União querem 100% de reajuste, o que elevaria
o salário final para 15.000 reais. Os auditores fiscais da
Receita Federal pleiteiam o aumento do piso da carreira dos atuais
5.300 reais para 8.000. O que chama a atenção nessas
paralisações não é tanto o transtorno
que causam aos cidadãos que necessitam dos serviços
do Estado, e, sim, os valores pagos aos grevistas. Trata-se de salários
muito bons se comparados ao que recebem em média os trabalhadores
em atividades que exigem qualificação similar na iniciativa
privada. De acordo com o IBGE, só 1,3% dos brasileiros recebem
acima de 4.800 reais mensais. A desproporção salarial
entre o mundo oficial e os contracheques da maioria da população
ajuda a explicar outro fenômeno em curso: fazer carreira no
serviço público voltou a ser uma forte aspiração
da classe média brasileira, como não ocorria há
décadas.
Com
as incertezas na economia e as taxas de desemprego nas alturas,
a combinação de bom salário com estabilidade
no emprego oferecida pela máquina estatal chega a ser irresistível.
Um estudo realizado pelo cientista político José Matias
Pereira, da Universidade de Brasília (UnB), concluiu que
o conceito das carreiras públicas entre os brasileiros de
melhor renda e maior grau de instrução é o
mais alto desde os anos 70. Naquela década e na de 60, a
multiplicação de autarquias e empresas estatais absorvia
parte importante dos cérebros do país. O processo
inverteu-se nos anos 80, quando o funcionalismo perdeu prestígio
de forma vertiginosa. A inflação crônica resultou
no aviltamento dos salários e das verbas que poderiam modernizar
órgãos e instituições públicas.
Havia então fartura de oportunidades na iniciativa privada
para pessoas talentosas e bem preparadas. "Tudo isso provocou uma
grande fuga de talentos e acentuou a idéia de que concurso
público era para os fracassados", diz o professor Pereira.
O cenário atual é parecido, só que com os sinais
invertidos.
Pagar
bons salários para a elite do funcionalismo é a parte
mais visível do esforço feito pelo governo, nos últimos
oito anos, para valorizar a máquina do Estado e atrair para
seus quadros servidores competentes. Nesse período, os vencimentos
de duas dezenas de carreiras aumentaram acima de 50% e, em alguns
casos, ultrapassaram 400%. Nos anos 90, um servidor com nível
universitário recebia 5% menos que a média do setor
privado. Atualmente, ganha 16% mais. Investir nas carreiras de nível
superior é uma iniciativa positiva, que pode ser decisiva
para melhorar o péssimo serviço prestado pelo Estado
aos brasileiros. O aspecto que preocupa é que o desemprego
e a retração da iniciativa privada sejam os maiores
estimuladores do ingresso do setor público da fatia da população
brasileira com maior escolaridade. Em média, há uma
vaga no setor privado para 500 formados pelas universidades. Nos
últimos cinco anos, o número de empregados graduados
nas maiores empresas caiu 15%. A asfixia pela qual passa a iniciativa
privada decorre do peso de um Estado superdimensionado, que absorve
40% de toda a riqueza brasileira em forma de impostos e retém
80% do crédito disponível e que, por isso,
tem dinheiro para disputar talentos no mercado de trabalho.
Oscar Cabral
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| Miguel
Fernandes, no BNDES: concurso público aos 40 anos
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A
nova política de recursos humanos tenta corrigir distorções
da máquina do Estado, que, de maneira geral, emprega gente
demais e tende a ser mais generosa com os funcionários menos
qualificados. Os servidores com até quatro anos de estudo
ganham salários mensais até 135% maiores que os dos
empregados do setor privado nas mesmas condições.
São os motoristas, ascensoristas e contínuos. "Erros
como esses tornam mais difícil promover uma melhoria geral
na administração", diz Nelson Marconi, professor de
economia da Fundação Getúlio Vargas, em São
Paulo. A reforma do Estado atuou em duas frentes. Além de
elevar a remuneração nas carreiras consideradas fundamentais,
promoveu mudanças nas atribuições de muitos
cargos para aumentar a motivação no trabalho e acabar
com o estigma de que não há chances de crescimento
profissional no funcionalismo. As gratificações por
tempo de serviço, que não estimulavam a melhoria da
qualidade do serviço, foram extintas e substituídas
por sistemas de aumentos baseados em avaliações do
desempenho individual. Quem faz mestrado e doutorado pode ter os
vencimentos elevados em até 40%. "Tentamos levar a eficiência
e o desafio do setor privado para corrigir as distorções
do setor público", diz Cláudia Costin, que esteve
à frente da reforma do Estado como ministra da Administração
no governo Fernando Henrique Cardoso e atualmente é secretária
da Cultura do Estado de São Paulo.
O
funcionalismo passou a ser no Brasil uma das poucas vias de ascensão
social nos anos 30, com a criação de órgãos
e empresas públicas para apoiar o processo de industrialização
no governo Vargas. Um emprego no Banco do Brasil ou um cargo em
ministério eram sinônimo de estabilidade, uma garantia
de salário regular, e concediam ao cidadão a sólida
respeitabilidade social então reservada aos que trabalhavam
em escritório em oposição à maioria
da população brasileira, que tinha seu sustento no
cabo da enxada. O emprego público é também,
na tradição brasileira, uma benesse concedida aos
intelectuais nacionais. Vista apenas por esse ângulo, a verdadeira
carreira profissional do escritor Graciliano Ramos, do folclorista
Augusto Meyer e do poeta Carlos Drummond de Andrade transcorreu
na mesa que ocuparam por décadas na repartição.
Agora, o funcionário de nível superior que o governo
tenta atrair é mais parecido com um executivo da iniciativa
privada: deve ter boa formação acadêmica, ambições
profissionais e estar disposto a enfrentar grandes desafios, como
o de melhorar os setores da máquina pública para o
qual foram contratados.
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| O
paulistano Marco Carboni prepara-se para prestar concurso federal:
diploma de economia e fluência em três idiomas |
Um
levantamento feito por Regina Pacheco, professora de administração
pública da Fundação Getúlio Vargas de
São Paulo, mostra que a reforma já começou
a mudar o padrão médio do funcionalismo. Em 2000,
pela primeira vez na história da administração
federal, mais da metade dos servidores tinham nível superior.
Na década anterior, esse índice não ultrapassava
a casa dos 30%. O cargo emblemático da transformação
é o de gestor de políticas públicas. Sua tarefa
é assessorar os altos escalões do governo e gerenciar
projetos nos ministérios. O governo oferece salário
inicial acima de 4.000 reais. Um administrador de empresas em começo
de carreira não ganha um quarto desse valor no setor privado.
O processo de admissão é rigoroso. Depois de aprovado
em concurso, o candidato passa por um curso de formação
de 480 horas. Se não tiver bom aproveitamento nesse período,
é dispensado. De acordo com dados da Escola Nacional de Administração
Pública (Enap), a maioria esmagadora dos aprovados nos cursos
de gestão tem pós-graduação e fala duas
línguas. Dono de um diploma de economia e fluente em três
idiomas, o paulistano Marco Antônio Carboni, de 25 anos, há
sete meses estuda oito horas por dia, preparando-se para tentar
uma vaga de auditor da Receita Federal. Sua motivação
para tanto esforço: "Desde que saí da universidade,
há dois anos, só consegui um estágio com salário
simbólico", diz Carboni.
A
carreira de advogado da União, cuja missão é
defender o Estado em processos judiciais, alguns deles bilionários,
estava em vias de desaparecer no começo dos anos 90. O salário
inicial era de apenas 700 reais e não havia quem quisesse
o cargo. Agora, começa-se com 5.000 reais. A redefinição
das responsabilidades desses advogados também tornou a função
mais interessante do ponto de vista profissional. "Ser advogado
da União é o único modo de atuar na área
que sempre almejei, a advocacia internacional", diz o potiguar Antenor
Madruga, 34 anos. Advogado de Natal com mestrado e doutorado, ele
prestou concurso público em 1996 e hoje ganha 9.000 reais
mensais. Sua mulher, a paulistana Thaís, 31 anos, tornou-se
advogada da União dois anos depois. "No serviço público
é possível fazer um bom trabalho sem o medo da demissão
e a concorrência excessiva", afirma ela. Acrescente-se aí
que o funcionalismo usufrui do privilégio de fazer greve
sem correr o risco de perder o emprego, como ocorre com os trabalhadores
da iniciativa privada. Ou, pelo menos, continuará assim até
que o Congresso decida sobre um projeto de lei do Executivo que
limita o direito de greve do funcionalismo.
A
iniciativa privada ainda premia melhor o talento individual, e as
carreiras costumam ser mais rápidas. Mas a competição
é feroz e se anda na corda bamba sem a rede de proteção
da estabilidade no emprego. "No setor privado, a partir dos 40 anos
corre-se o risco de perder o emprego. Nessa idade a troca de emprego
quase sempre representa salário menor", observa Sônia
Rocha, professora de administração pública
da FGV do Rio de Janeiro. Não há limite de idade para
ingressar no serviço público. O carioca Antônio
Miguel Fernandes, de 47 anos, é funcionário do BNDES.
Foi promovido no mês passado a superintendente da área
de tecnologia, um dos cargos mais altos da instituição.
É a segunda vez que tem o Estado como patrão. Na década
de 80, ele trocou o emprego público pela iniciativa privada,
que lhe oferecia melhor salário. Depois de dez anos, voltou
atrás. Prestou novo concurso e teve uma ascensão meteórica.
Conclui Fernandes: "Hoje estou realizado e, melhor de tudo, tranqüilo
para acabar de criar meus três filhos. Se eu tivesse 40 anos
e continuasse no setor privado, estaria fora do mercado".
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