Edição 1846 . 24 de março de 2004

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Governo
Do que eles tanto riem?

Passadas cinco semanas do caso
Waldomiro Diniz, o governo está
cada vez mais afundado na paralisia


Malu Gaspar

 
Radiobras
O TAMANHO DA MORDIDA
Lula, cercado por auxiliares, numa solenidade sobre saúde bucal: a crise mordeu o músculo do governo petista

Notícias diárias sobre o governo Lula

O papel de grande animador, que lhe caiu como uma luva no primeiro ano de governo, não está sendo de nenhuma valia para o presidente Lula nessa fase de paralisia de sua administração. Suas metáforas e improvisos, cada vez mais raros, diga-se, já não causam o mesmo impacto. Nem positivo nem negativo. O presidente dos primeiros meses, que transpirava emoção e carisma eletrizando as multidões por onde passava, deu lugar a um Lula acabrunhado, previsível, sem graça. Ele não é o único líder a limar sua aura de salvador pelo duro exercício do poder. Longe disso. Essa é a regra da política. Mas Lula pode estar sendo o primeiro a ver escapar essa energia vital justamente pelo fenômeno contrário, o de não exercer o poder. Seus auxiliares mais próximos abominam essa idéia. Descrevem o presidente como um chefe inteirado dos detalhes de todos os assuntos do governo e até mandão demais. Não é essa a imagem que Lula projeta. Como escreveu Karl Marx, pessoas, partidos e governos não são aquilo que pensam ser. Eles são exatamente da maneira como são enxergados pelos outros. Aos olhos de aliados e oposição, na semana passada, o governo Lula era uma entidade fraca, dividida, povoada por integrantes que tentam minimizar os próprios escândalos levantando os dos outros.

 
Celso Junior/AE
Wilton Junior/AE
"Tem de trocar o ministro Palocci por alguém que tenha competência para o cargo."
Valdemar Costa Neto, presidente do PL e governista
"A desestabilização do ministro Palocci acarretaria o mais absoluto caos neste momento."
Oposicionista Tasso Jereissati, senador pelo PSDB do Ceará

Passaram-se apenas quinze meses da apoteótica posse do primeiro presidente de origem popular no Brasil. Faltam outros 33 meses, pelo menos, para Lula descer a rampa ou conquistar um segundo mandato nas urnas. Mas os ares em torno do Palácio do Planalto tinham na semana passada algo de fim de governo. A eclosão há pouco mais de um mês do escândalo de Waldomiro Diniz afastou do cenário político o antes todo-poderoso ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. Waldomiro, auxiliar de Dirceu havia doze anos, foi pilhado achacando um bicheiro. Desde então, o governo Lula perdeu não apenas seu ministro mais poderoso. Perdeu sua alma. O próprio presidente não mais encontrou seu eixo. A oposição vive dias de glória, dá lições de ética ao PT – justamente o fundamento em que o partido de Lula se julgava mais forte – e se atreve até a defender o governo de estocadas desastrosas de petistas e aliados. Um episódio da semana passada vai ficar como símbolo desta fase de nau sem rumo do governo. A tibieza do governo, incapaz de controlar os petistas e seus aliados, criou uma das situações mais bizarras da política brasileira em todos os tempos. A oposição teve de assumir o microfone no Congresso para defender o elo mais forte – para muitos, o único – que o governo Lula ainda mantém com a racionalidade: sua política econômica. Coube ao senador Tasso Jereissati, tucano do Ceará, sair em defesa do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, usando de uma clareza que raramente os aliados conseguem produzir. "Se a atual política econômica merece reparos e críticas por sua falta de ousadia e criatividade, tem o mérito de ter controlado o processo inflacionário e recuperado a confiança externa", disse o senador. "Afirmo e advirto que a desestabilização do ministro Palocci acarretaria o mais absoluto caos neste momento", completou o senador, angariando o apoio explícito dos líderes do oposicionista PFL.

Até porque não existem muitos exemplos na história de situações tão esdrúxulas, é difícil prever o desenrolar de um modelo de governo cujos sustentáculos e aliados desconfiam do condutor da política econômica, tendo este de se amparar na oposição. Em um mundo de transparência total das finanças públicas, escrutinadas com freqüência por organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), a posição do ministro da Fazenda é naturalmente frágil. Pela própria natureza do cargo, ele tem problemas demais para ficar sendo obrigado a discutir a relação com seus correligionários a cada vez que o Banco Central (BC) decide sobre a taxa de juros. No governo passado, coube ao presidente Fernando Henrique Cardoso fazer a blindagem de seu ministro da Fazenda, posto que em um país endividado até as barbas como o Brasil se confunde com o de ministro das más notícias, do contingenciamento de gastos e dos cortes nos investimentos. Por estar em frangalhos, a cúpula do PT e seus aliados andam fazendo ouvidos moucos às ordens de Lula para que deixem Palocci em paz. Na segunda-feira, o deputado Valdemar Costa Neto, presidente do PL e aliado de primeira hora do governo petista, sentiu-se à vontade para pedir a guilhotina sobre o pescoço do ministro Palocci numa solenidade em pleno Palácio do Planalto, quando Alfredo Nascimento, também do PL, tomava posse no Ministério dos Transportes. A reação do Palácio do Planalto deve ter sido um pito sem muita convicção, pois gerou apenas uma nota envergonhada de desculpas do PL.

 
Joedson Alves/AE
AMIGOS E INIMIGOS
A festa do PMDB reelege Michel Temer e mantém o partido dividido

Dado o potencial desestabilizador do agravo feito pelo deputado Valdemar ao atacar a política econômica, a resposta do presidente não poderia ter sido outra senão a demissão do recém-empossado ministro do PL. Se isso ocorresse apenas minutos ou horas depois da posse, mais clara ficaria a sinalização de Lula de que a blindagem de Palocci é mesmo para valer. Lula deixou barato. Nos bastidores, mostrou descontentamento com a leveza da punição dada pelo PL ao deputado Valdemar. Mas ficou tudo por isso mesmo. Assim, o governo vai vivendo uma dia após o outro como se participasse de uma corrida de salto de obstáculos e não de uma maratona, uma carreira de longo curso, atitude mais apropriada para quem tem o dever de manter o país no curso correto e a economia estável. Da reação inicial ao escândalo Waldomiro – evasiva, vacilante, dissimulada – brotou a suspeita de que o caso pode ser mais complicado do que se sabe até agora. É apenas uma nuvem de suspeita, não há nenhum indício sólido de que exista algo mais, mas é uma desconfiança produzida pelo comportamento titubeante das autoridades. A desconfiança, por mais difusa que seja, acaba ganhando ares de alguma solidez toda vez que se revelam uma nova conexão, um novo personagem, um novo documento qualquer.

Em estado de suspense a cada nova revelação, por mais insignificante que venha a ser, o governo reforça a impressão de sofrer de uma grave paralisia – política e burocrática. Ironicamente, parece que o menos aparvalhado com a crise é o presidente do Senado, o aliado José Sarney. O ministro José Dirceu, da Casa Civil, que antes parecia carregar o governo nas costas, voltou a aparecer em público como que numa tentativa de superar a sensação de letargia em Brasília. Na semana passada, o ministro participou de três solenidades públicas e discursou em duas delas, quase como se o clima tivesse voltado à normalidade. Num encontro com prefeitos petistas, realizado num hotel em Brasília, porém, José Dirceu emitiu o sinal de que não conseguiu reaprumar-se do baque da crise. Disse que a oposição estava "namorando com o perigo" ao tentar "desestabilizar o governo" e prometeu o troco em breve – uma ameaça que, naturalmente, fere a elegância e a compostura de qualquer autoridade pública em sua posição. A volta de José Dirceu aos holofotes, em vez de recolocar o governo nos trilhos, só produziu mais alarido.

Mesmo os ministros mais discretos, como Roberto Rodrigues, da Agricultura, cansaram-se de esperar o governo recuperar-se da crise. Na quarta-feira passada, Rodrigues reuniu-se com o ministro José Dirceu para reclamar da demora do Palácio do Planalto em atender a algumas de suas prioridades, apresentadas ao presidente Lula logo depois da reforma ministerial, no fim de janeiro passado. Na conversa com Dirceu, o ministro da Agricultura fez questão de informar que ficava "difícil" tocar seu ministério sem que houvesse mais presteza do Planalto. Desde o ano passado, o ministro da Agricultura aguarda uma definição sobre a concessão de subsídios aos usineiros do Nordeste e a reestruturação da carreira dos fiscais da Agricultura – que, aliás, na semana passada, chegaram a cruzar os braços. O temor do ministro é que a confusão toda com os fiscais acabe atrapalhando a exportação de carne brasileira, já que os países consumidores podem ficar temerosos quanto à qualidade do produto.


Ana Araújo
O presidente do Senado, José Sarney: ele é o aliado do governo menos perturbado até agora


O encalacramento da crise do governo Lula é claramente um dano autoproduzido. Não foram os tucanos nem o PFL que instalaram o assessor Waldomiro Diniz no coração do Palácio do Planalto. Acusar a oposição de se aproveitar da crise para tirar proveito político, como vem fazendo o governo, é uma atitude tão pueril que não tem efeito sequer sobre a porção do eleitorado mais fiel a Lula e ao PT. A crise atual não significa automaticamente derrocada do governo Lula. Ela, sem dúvida, marca de forma definitiva o fim de uma primeira – e até certo ponto bem-sucedida – fase do governo. Nessa primeira fase, o governo tinha um presidente idolatrado no Brasil e admirado no exterior. À sua direita, um ministro da Fazenda conduzindo com correção a política econômica. E, à esquerda, um chefe da Casa Civil agindo como um primeiro-ministro onipresente e capaz. Na fase atual sobrou intacto apenas o condutor da política econômica, mesmo que sob fogo amigo. Os outros pilares estão abalados.

Em apenas quinze meses no poder, o governo Lula frustrou as esperanças de quem aguardava a implantação no país de uma vigorosa, inovadora e pragmática política social. Fica também para as calendas gregas a promessa de que o PT, uma vez no poder, livraria o Brasil dos pecados éticos que sangram a administração pública desde o tempo das caravelas. O PT no governo pode estar criando um modelo patético de fracasso ao se deixar dividir em duas metades antagônicas, pró e contra a política econômica de austeridade, o que condena qualquer organização ao imobilismo. "Se o governo Lula não resolver essa questão e não recuperar sua capacidade de coordenação, corre o risco de produzir um desempenho econômico medíocre", diz o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, da consultoria Tendências. É sempre bom ter em mente que quando o chefe de governo em um regime presidencial chama a si a tarefa de reinventar o governo, em geral, ele é bem-sucedido. Os erros fatais nesses casos são esperar que as crises se dissipem naturalmente – quando o mais provável é que elas se tornem mais densas a cada dia – e tentar seguir em frente mesmo com a estrutura do governo rachada ao meio.

 

Operação Apareceu o Zé Dirceu

 
Joedson Alves/AE
Dida Sampaio/AE
COM GUSHIKEN – Estréia depois do escândalo SOZINHO – Em solenidade sobre a Amazônia

Sérgio Dutti/AE
Dida Sampaio/AE
COM LULA – Na posse do ministro dos Transportes COM POLÍTICOS – Em encontro com prefeitos do PT

 

 
 
 
 
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