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Governo
Do que eles tanto riem?
Passadas
cinco semanas
do caso
Waldomiro
Diniz, o
governo está
cada vez mais afundado na paralisia

Malu
Gaspar
Radiobras
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O
TAMANHO DA MORDIDA
Lula, cercado por auxiliares, numa solenidade sobre saúde bucal:
a crise mordeu o músculo do governo petista |
O
papel de grande animador, que lhe caiu como uma luva no primeiro
ano de governo, não está sendo de nenhuma valia para
o presidente Lula nessa fase de paralisia de sua administração.
Suas metáforas e improvisos, cada vez mais raros, diga-se,
já não causam o mesmo impacto. Nem positivo nem negativo.
O presidente dos primeiros meses, que transpirava emoção
e carisma eletrizando as multidões por onde passava, deu
lugar a um Lula acabrunhado, previsível, sem graça.
Ele não é o único líder a limar sua
aura de salvador pelo duro exercício do poder. Longe disso.
Essa é a regra da política. Mas Lula pode estar sendo
o primeiro a ver escapar essa energia vital justamente pelo fenômeno
contrário, o de não exercer o poder. Seus auxiliares
mais próximos abominam essa idéia. Descrevem o presidente
como um chefe inteirado dos detalhes de todos os assuntos do governo
e até mandão demais. Não é essa a imagem
que Lula projeta. Como escreveu Karl Marx, pessoas, partidos e governos
não são aquilo que pensam ser. Eles são exatamente
da maneira como são enxergados pelos outros. Aos olhos de
aliados e oposição, na semana passada, o governo Lula
era uma entidade fraca, dividida, povoada por integrantes que tentam
minimizar os próprios escândalos levantando os dos
outros.
Celso Junior/AE
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Wilton Junior/AE
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"Tem
de trocar o ministro Palocci por alguém que tenha competência
para o cargo."
Valdemar Costa Neto, presidente do PL
e governista |
"A
desestabilização do ministro Palocci acarretaria o mais absoluto
caos neste momento."
Oposicionista Tasso Jereissati, senador pelo PSDB do
Ceará |
Passaram-se
apenas quinze meses da apoteótica posse do primeiro presidente
de origem popular no Brasil. Faltam outros 33 meses, pelo menos,
para Lula descer a rampa ou conquistar um segundo mandato nas urnas.
Mas os ares em torno do Palácio do Planalto tinham na semana
passada algo de fim de governo. A eclosão há pouco
mais de um mês do escândalo de Waldomiro Diniz afastou
do cenário político o antes todo-poderoso ministro-chefe
da Casa Civil, José Dirceu. Waldomiro, auxiliar de Dirceu
havia doze anos, foi pilhado achacando um bicheiro. Desde então,
o governo Lula perdeu não apenas seu ministro mais poderoso.
Perdeu sua alma. O próprio presidente não mais encontrou
seu eixo. A oposição vive dias de glória, dá
lições de ética ao PT justamente o fundamento
em que o partido de Lula se julgava mais forte e se atreve
até a defender o governo de estocadas desastrosas de petistas
e aliados. Um episódio da semana passada vai ficar como símbolo
desta fase de nau sem rumo do governo. A tibieza do governo, incapaz
de controlar os petistas e seus aliados, criou uma das situações
mais bizarras da política brasileira em todos os tempos.
A oposição teve de assumir o microfone no Congresso
para defender o elo mais forte para muitos, o único
que o governo Lula ainda mantém com a racionalidade:
sua política econômica. Coube ao senador Tasso Jereissati,
tucano do Ceará, sair em defesa do ministro da Fazenda, Antonio
Palocci, usando de uma clareza que raramente os aliados conseguem
produzir. "Se a atual política econômica merece reparos
e críticas por sua falta de ousadia e criatividade, tem o
mérito de ter controlado o processo inflacionário
e recuperado a confiança externa", disse o senador. "Afirmo
e advirto que a desestabilização do ministro Palocci
acarretaria o mais absoluto caos neste momento", completou o senador,
angariando o apoio explícito dos líderes do oposicionista
PFL.
Até
porque não existem muitos exemplos na história de
situações tão esdrúxulas, é difícil
prever o desenrolar de um modelo de governo cujos sustentáculos
e aliados desconfiam do condutor da política econômica,
tendo este de se amparar na oposição. Em um mundo
de transparência total das finanças públicas,
escrutinadas com freqüência por organismos internacionais
como o Fundo Monetário Internacional (FMI), a posição
do ministro da Fazenda é naturalmente frágil. Pela
própria natureza do cargo, ele tem problemas demais para
ficar sendo obrigado a discutir a relação com seus
correligionários a cada vez que o Banco Central (BC) decide
sobre a taxa de juros. No governo passado, coube ao presidente Fernando
Henrique Cardoso fazer a blindagem de seu ministro da Fazenda, posto
que em um país endividado até as barbas como o Brasil
se confunde com o de ministro das más notícias, do
contingenciamento de gastos e dos cortes nos investimentos. Por
estar em frangalhos, a cúpula do PT e seus aliados andam
fazendo ouvidos moucos às ordens de Lula para que deixem
Palocci em paz. Na segunda-feira, o deputado Valdemar Costa Neto,
presidente do PL e aliado de primeira hora do governo petista, sentiu-se
à vontade para pedir a guilhotina sobre o pescoço
do ministro Palocci numa solenidade em pleno Palácio do Planalto,
quando Alfredo Nascimento, também do PL, tomava posse no
Ministério dos Transportes. A reação do Palácio
do Planalto deve ter sido um pito sem muita convicção,
pois gerou apenas uma nota envergonhada de desculpas do PL.
Joedson Alves/AE
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AMIGOS
E INIMIGOS
A festa do PMDB reelege Michel Temer e mantém o partido
dividido |
Dado
o potencial desestabilizador do agravo feito pelo deputado Valdemar
ao atacar a política econômica, a resposta do presidente
não poderia ter sido outra senão a demissão
do recém-empossado ministro do PL. Se isso ocorresse apenas
minutos ou horas depois da posse, mais clara ficaria a sinalização
de Lula de que a blindagem de Palocci é mesmo para valer.
Lula deixou barato. Nos bastidores, mostrou descontentamento com
a leveza da punição dada pelo PL ao deputado Valdemar.
Mas ficou tudo por isso mesmo. Assim, o governo vai vivendo uma
dia após o outro como se participasse de uma corrida de salto
de obstáculos e não de uma maratona, uma carreira
de longo curso, atitude mais apropriada para quem tem o dever de
manter o país no curso correto e a economia estável.
Da reação inicial ao escândalo Waldomiro
evasiva, vacilante, dissimulada brotou a suspeita de que
o caso pode ser mais complicado do que se sabe até agora.
É apenas uma nuvem de suspeita, não há nenhum
indício sólido de que exista algo mais, mas é
uma desconfiança produzida pelo comportamento titubeante
das autoridades. A desconfiança, por mais difusa que seja,
acaba ganhando ares de alguma solidez toda vez que se revelam uma
nova conexão, um novo personagem, um novo documento qualquer.
Em
estado de suspense a cada nova revelação, por mais
insignificante que venha a ser, o governo reforça a impressão
de sofrer de uma grave paralisia política e burocrática.
Ironicamente, parece que o menos aparvalhado com a crise é
o presidente do Senado, o aliado José Sarney. O ministro
José Dirceu, da Casa Civil, que antes parecia carregar o
governo nas costas, voltou a aparecer em público como que
numa tentativa de superar a sensação de letargia em
Brasília. Na semana passada, o ministro participou de três
solenidades públicas e discursou em duas delas, quase como
se o clima tivesse voltado à normalidade. Num encontro com
prefeitos petistas, realizado num hotel em Brasília, porém,
José Dirceu emitiu o sinal de que não conseguiu reaprumar-se
do baque da crise. Disse que a oposição estava "namorando
com o perigo" ao tentar "desestabilizar o governo" e prometeu o
troco em breve uma ameaça que, naturalmente, fere
a elegância e a compostura de qualquer autoridade pública
em sua posição. A volta de José Dirceu aos
holofotes, em vez de recolocar o governo nos trilhos, só
produziu mais alarido.
Mesmo
os ministros mais discretos, como Roberto Rodrigues, da Agricultura,
cansaram-se de esperar o governo recuperar-se da crise. Na quarta-feira
passada, Rodrigues reuniu-se com o ministro José Dirceu para
reclamar da demora do Palácio do Planalto em atender a algumas
de suas prioridades, apresentadas ao presidente Lula logo depois
da reforma ministerial, no fim de janeiro passado. Na conversa com
Dirceu, o ministro da Agricultura fez questão de informar
que ficava "difícil" tocar seu ministério sem que
houvesse mais presteza do Planalto. Desde o ano passado, o ministro
da Agricultura aguarda uma definição sobre a concessão
de subsídios aos usineiros do Nordeste e a reestruturação
da carreira dos fiscais da Agricultura que, aliás,
na semana passada, chegaram a cruzar os braços. O temor do
ministro é que a confusão toda com os fiscais acabe
atrapalhando a exportação de carne brasileira, já
que os países consumidores podem ficar temerosos quanto à
qualidade do produto.
Ana Araújo
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| O
presidente do Senado, José Sarney: ele é o aliado do governo
menos perturbado até agora |
O encalacramento da crise do governo Lula é claramente um
dano autoproduzido. Não foram os tucanos nem o PFL que instalaram
o assessor Waldomiro Diniz no coração do Palácio
do Planalto. Acusar a oposição de se aproveitar da
crise para tirar proveito político, como vem fazendo o governo,
é uma atitude tão pueril que não tem efeito
sequer sobre a porção do eleitorado mais fiel a Lula
e ao PT. A crise atual não significa automaticamente derrocada
do governo Lula. Ela, sem dúvida, marca de forma definitiva
o fim de uma primeira e até certo ponto bem-sucedida
fase do governo. Nessa primeira fase, o governo tinha um
presidente idolatrado no Brasil e admirado no exterior. À
sua direita, um ministro da Fazenda conduzindo com correção
a política econômica. E, à esquerda, um chefe
da Casa Civil agindo como um primeiro-ministro onipresente e capaz.
Na fase atual sobrou intacto apenas o condutor da política
econômica, mesmo que sob fogo amigo. Os outros pilares estão
abalados.
Em
apenas quinze meses no poder, o governo Lula frustrou as esperanças
de quem aguardava a implantação no país de
uma vigorosa, inovadora e pragmática política social.
Fica também para as calendas gregas a promessa de que o PT,
uma vez no poder, livraria o Brasil dos pecados éticos que
sangram a administração pública desde o tempo
das caravelas. O PT no governo pode estar criando um modelo patético
de fracasso ao se deixar dividir em duas metades antagônicas,
pró e contra a política econômica de austeridade,
o que condena qualquer organização ao imobilismo.
"Se o governo Lula não resolver essa questão e não
recuperar sua capacidade de coordenação, corre o risco
de produzir um desempenho econômico medíocre", diz
o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, da consultoria
Tendências. É sempre bom ter em mente que quando o
chefe de governo em um regime presidencial chama a si a tarefa de
reinventar o governo, em geral, ele é bem-sucedido. Os erros
fatais nesses casos são esperar que as crises se dissipem
naturalmente quando o mais provável é que elas
se tornem mais densas a cada dia e tentar seguir em frente
mesmo com a estrutura do governo rachada ao meio.
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