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Entrevista:
Zeca
Pagodinho
O
pagodão do Pagodinho
O
cantor tenta explicar por
que rompeu com
a Schincariol e virou garoto-propaganda da
Brahma. Morô?

Sérgio
Martins
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Ricardo Fasanello/Strana

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"Para
mim, o que existe é a ética de Xerém.
Lá, o que eu falo vale mais do que qualquer papel
escrito" |
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O cantor
Zeca Pagodinho tornou-se protagonista de uma das brigas mais pitorescas
que o mercado publicitário brasileiro já viu. Contratado
em setembro de 2003 para ser garoto-propaganda da cerveja Nova Schin,
da Schincariol, ele rompeu o contrato antes de seu vencimento, para
estrelar o anúncio de uma marca concorrente, a Brahma
cerveja que ele afirma ser a sua preferida de verdade. Para aumentar
a confusão, a Nova Schin, no comercial da Brahma, é
citada indiretamente como "um amor de verão" passageiro.
Furiosa com a atitude de Zeca, a Schincariol revidou. Criou um novo
comercial em que o cantor é chamado de "traíra" (traidor)
e prometeu dar entrada numa ação judicial de perdas
e danos com pedido de indenização milionária.
Aos 44 anos, Zeca Pagodinho é o mais bem-sucedido sambista
do país, com vendagens que superam os 12 milhões de
cópias de discos. O CD Acústico MTV, lançado
no fim do ano passado, vendeu 400 000 unidades, o que o torna um
dos grandes sucessos do mercado fonográfico nacional na atualidade.
Zeca Pagodinho tem raízes em Xerém, na Baixada Fluminense,
onde mantém um sítio e projetos sociais. Mas hoje
ele mora numa cobertura localizada na Barra da Tijuca, que comprou
toda decorada, acrescentando-lhe apenas certos toques pessoais
como uma grande estátua de São Jorge, o seu santo
protetor. Nesta entrevista a VEJA, Zeca Pagodinho afirma que assinou
sem ler o contrato com a Schincariol contrato que conteria
obrigações que ele nunca quis assumir.
Veja
Por que, depois de assinar um contrato publicitário
com a Schincariol, o senhor mudou para a Brahma?
Zeca Pagodinho Você fuma? Bem, eu fumo um tipo
de cigarro. Se acabar o maço de cigarros e só tiver
outra marca para comprar, eu não compro. É a mesma
coisa com cerveja. O que aconteceu é que me pediram para
experimentar uma nova marca. E eu experimentei, às custas
de um trem de gente me convencendo e um garçom me dando bronca
na gravação do comercial. Mas foi só isso.
Eu não mudei. Em nenhum momento eu disse que passaria a beber
Schin ou que era a minha cerveja favorita. E quer saber? Até
naquele comercial eu bebi Brahma.
Veja
O senhor não considera errado romper um contrato
dessa maneira?
Zeca Pagodinho Olha, também me prometeram
bocalmente um monte de coisas que não cumpriram. Desde o
início da negociação as pessoas sabiam que
eu não bebo outra cerveja que não seja Brahma. Esse
menino, o (Eduardo) Fischer, o publicitário da Schin,
foi na minha casa e viu que eu só bebo Brahma. Então
disse, na frente da minha mulher, dos meus filhos e dos meus amigos:
"É só você experimentar". Palavras dele. É
claro que isso não está no contrato. Mas, de onde
eu venho, a palavra de um homem vale muito mais do que um papel
assinado, morô? É por causa disso que eu não
saio do subúrbio e do Xerém. Porque, de onde eu venho,
se você disser "amanhã eu vou", então amanhã
você vai mesmo. Só depois vi que estava completamente
amarrado com a Schin. Não era esse o combinado. Aquele menino,
o Fischer, me garantiu que eu iria levar a minha vida normal depois
de filmar o comercial da Schin. Mas quando eu fui ler o contrato
estava escrito que eu não poderia participar de festas da
Brahma ou de outra concorrente.
Veja
O senhor quer dizer que assinou o contrato sem ler?
Zeca Pagodinho Assinei. Assinei como se você chegasse
agora para mim e dissesse: "Zeca, vamos fazer uma parada amanhã?
Só que você terá de assinar um contrato assim
e assado". Eu faria sem titubear. Porque eu venho de um lugar de
homem, lugar de gente que tem palavra.
Veja
Quando o senhor começou a reparar nas restrições
impostas pelo contrato?
Zeca Pagodinho Em fevereiro eu me apresentei no Credicard
Hall, em São Paulo. Eu estava rouco e doido para tomar uma
Brahma. Me controlei e tomei apenas um copo de vinho. Quando vi
que o show estava fluindo legal, eu disse: "Daqui a pouco eu vou
tomar uma Brahma". Eu queria dizer que ia tomar uma cerveja. Porque,
em Xerém, Brahma é sinônimo de cerveja. Poxa,
eu tinha até um tio que mandava comprar umas Brahmas da Skol,
morô? Foi então que uma pessoa ligada à Schin
foi ao camarim e disse que havia uma cláusula no contrato
me proibindo de mencionar outras marcas de cerveja. No Carnaval
eu também fui muito pressionado para ir ao camarote da Schin.
Diziam que eu tinha de ir, porque estava no contrato. Aí
tem a seguinte história: no documento lá, estava escrito
que em qualquer aparição pública que eu fosse
fazer teria um cara ao meu lado para me servir Schin. Esse cara
nunca apareceu. Durante o Carnaval, eu procurei esse rapaz da meia-noite
às 3 da manhã. Fiquei rodando pelo Porcão,
pelos camarotes do Sambódromo atrás do cara e atravessei
até o desfile de uma escola de samba e olha que eu
acho o maior desrespeito passar no meio da escola. O cara me deu
a maior canseira. Eles tinham uma ratoeira armada para mim. Eu estava
algemado. Não podia nem urinar outra coisa. Me senti traído.
Veja
O senhor está ciente de que quebrar um contrato
acarreta conseqüências legais?
Zeca Pagodinho Posso perder na Justiça, mas
não perco na palavra.
Veja
E se o senhor tiver de pagar uma multa pesada pelo seu
ato?
Zeca Pagodinho Se tiver de pagar, a gente paga. O pessoal
da Brahma garantiu que irá arcar com todas as despesas que
eu tiver nesse processo.
Veja
Essa promessa da Brahma está no contrato ou foi
feita apenas verbalmente?
Zeca Pagodinho Está no contrato. E esse eu fiz
questão de ler direitinho.
Veja
O senhor afirma que entrou nessa confusão toda
ingenuamente?
Zeca Pagodinho O complicado foi ter sido honesto
e decente. Por isso eu me dei mal. Os caras me infernizaram dia
e noite. Ligavam para a minha casa, pediam para os meus amigos para
eu topar fazer o anúncio. Diziam que bastava experimentar.
Os caras me encheram tanto que eu topei. Nem verifiquei preço
de mercado, cobrei pouco.
Veja
A Nova Schin pagou 1 milhão de reais ao senhor.
Isso é pouco?
Zeca Pagodinho Um milhão? Então eu
tenho de buscar mais uns 700 contos. Me deram uma graninha e ainda
tive de pagar comissão do empresário, imposto de renda...
Fiquei só com 300 000 reais.
Veja
Circula a notícia de que o senhor vai embolsar
um total de 9 milhões de reais pela campanha da Brahma? É
isso mesmo?
Zeca Pagodinho Essa quantia não tem nada a ver,
morô? Vou receber menos do que estão falando. Olha,
dinheiro é uma praga. Eu era mais feliz quando era pobre.
Acho bom pelos meus filhos, que têm oportunidade de aproveitar
melhor a vida graças ao que eu ganho. Eles têm o Danoninho
deles, uma escola melhor. Mas não faço as coisas por
dinheiro. Quer um exemplo? Anos atrás eu fiz show para uma
marca de refrigerante que também vende cerveja. Eles me pediram
para eu aparecer na foto com uma cerveja deles na mão. Neguei
na hora. Disse que o meu cachê era para fazer show, não
propaganda de cerveja. Eles nunca mais me chamaram.
Veja
Se o senhor gosta tanto da Brahma, por que nunca havia
feito comercial para essa marca?
Zeca Pagodinho Esse rapaz, o (Eduardo) Fischer,
era da Brahma. A minha gravadora vivia sugerindo que ele fizesse
um comercial comigo e ele dizia que a Brahma tinha de ter uma certa
postura. Como se eu fosse um vagabundo e um bebum. Aí ele
foi para a Schin e está fazendo essas coisas para me atormentar.
Veja
Pediram que o senhor experimentasse a Nova Schin. O senhor
experimentou e fez o sinal de positivo num comercial. Isso indica
que a cerveja foi aprovada, certo? Ou isso também foi fingimento?
Zeca Pagodinho A cerveja é até boazinha.
Veja
É verdade que a Schincariol lhe perguntou se o
senhor estava negociando um contrato com a Brahma e o senhor negou?
Zeca Pagodinho Fechei com a Brahma apenas quando eu me
senti traído. Ao traidor, a traição. Por mim,
eu não teria feito comercial para nenhuma das duas. Estava
cheio de parar no sinal e ouvir das pessoas: "E aí, Zeca,
mudou mesmo para a Schin?" Dava vontade de dizer: "Mudei. Por quê,
vai me dar o que eu ganhei para eu voltar atrás?" Quando
estou duro ninguém vem me perguntar se o IPTU está
atrasado.
Veja
O que é ética para o senhor?
Zeca Pagodinho Para mim, o que existe é a
ética de Xerém. Em Xerém, eu deixo o cheque
em branco com o dono do boteco e ele nunca me rouba. Em Xerém,
o que eu falo vale mais do que qualquer papel escrito. Agora, a
lógica do pessoal da Schin é a seguinte: eles vêm
na minha casa, falam na minha cara que eu tenho apenas de experimentar
a cerveja deles e depois me aparecem com um monte de coisas escritas
no contrato. E, para responder ao comercial que fiz para a Brahma,
eles fazem um comercial me chamando de traíra. Se for optar
por essa ética e a de Xerém, eu fico com a de Xerém,
que nunca me deu problema, morô?
Veja
O senhor concorda com a letra do samba da Brahma, que
diz que sua experiência com a Schincariol foi um "amor de
verão"?
Zeca Pagodinho Sim. A letra do Nizan Guanaes era muito
mais agressiva do que a que eu cantei. Pedi para mudar umas partes
da letra porque não queria ofender o pessoal da Nova Schin.
Quer saber? Se eu soubesse que eles iriam me chamar de traíra,
como fizeram depois que a propaganda foi ao ar, deixava todos os
xingamentos e ainda colocava outros da minha parte. Botava para
quebrar.
Veja
O senhor nunca traiu ninguém?
Zeca Pagodinho Fui traíra apenas comigo mesmo.
Toda vez que digo que não vou mais beber cerveja ou quando
prometo que não irei sair e saio estou traindo
e prejudicando a minha pessoa.
Veja
Desde quando o senhor bebe cerveja?
Zeca Pagodinho Desde os 16 anos. Quando eu era pequeno,
meu tio pedia para comprar cerveja no boteco e deixava eu beber
a espuma.
Veja
Seus filhos bebem como o senhor?
Zeca Pagodinho Não bebem e muito menos fumam.
Às vezes eu brinco como o meu menor, falo para ele dar um
tapa na cerveja. Sem chance. O mais velho é a mesma coisa.
Quando eu vou para Campos do Jordão, tenho de implorar para
ele tomar um cálice de vinho comigo. Eles são muito
estudiosos. Tiram de 8,5 para cima. E eu estou sempre cobrando um
bom desempenho deles.
Veja
O senhor pretende estrelar outra campanha publicitária?
Zeca Pagodinho Por mim, não faria. Mas eu carrego
uma legião de pessoas que dependem de mim. Se ganho um, dez
ou vinte, uma parte vai para as entidades que eu mantenho. Tenho
uma escola de música, ajudo as pessoas, sustento a minha
família. Por mim, se eu tivesse a minha cerveja gelada não
ligaria para mais nada. Não sei andar de lancha nem de carrão.
Para que eu correria atrás de mais dinheiro?
Veja
O senhor não acha que perdeu a credibilidade com
esse episódio?
Zeca Pagodinho Claro que não. Aquele que só
lê jornal e não me conhece pode até achar que
eu sou traíra. Mas eu ando no mundo. Eu não vivo de
notinha de jornal e de revista. Eu sou um homem de palavra.
Veja
O senhor se encontrou recentemente com o presidente Lula.
Sobre o que conversaram?
Zeca Pagodinho Lula me convidou para ir a Brasília
para vermos juntos o meu último DVD, Acústico MTV.
Eu não entrei em papo de política porque não
entendo nada disso. Bebemos cerveja e conversamos sobre samba e
cachaça.
Veja
O senhor se encontra regularmente com o presidente?
Zeca Pagodinho A gente não tem tempo para isso.
No máximo, trocamos algumas idéias pelo telefone.
Eu tenho minha vida, meus shows e meus projetos sociais para tocar.
O Lula tem de governar. Ele não costuma ir aos meus shows,
e acho bom para ele. Porque se virem o presidente no show vão
dizer que ele deixou de governar o país para se esbaldar
no pagode.
Veja
O seu voto em Lula foi convicto ou foi na base do "experimenta"?
Zeca Pagodinho Sempre votei no Lula. Na minha opinião,
estava mais do que na hora de o povo tomar conta do país.
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