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Livros O
inferno é onde estamos Fausto é
uma amostra do ceticismo radical de Marlowe que, segundo uma teoria
maluca, seria o verdadeiro Shakespeare  Jerônimo
Teixeira
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William Shakespeare, como se
sabe, não escreveu a magnífica obra que a tradição
lhe atribui. Era, afinal, o simples filho de um fabricante de luvas, que não
teve educação além da escola básica. O verdadeiro
autor foi Christopher Marlowe, dramaturgo, herege e espião a serviço
do reinado de Elizabeth I. Nascido em Canterbury, em 1564 dois meses antes
de Shakespeare vir ao mundo, em Stratford , Kit Marlowe, como os amigos
o chamavam, também vinha de origem modesta seu pai era sapateiro
, mas teve educação universitária. Escreveu e assinou
com o próprio nome alguns belos poemas e cinco peças, incluindo
a primeira versão literária do mito de Fausto (tradução
de A. de Oliveira Cabral; Hedra; 120 páginas; 18 reais), agora editada
no Brasil numa coleção de bolso. No serviço secreto, Marlowe
adquiriu a intimidade com o poder necessária para criar as intrigas palacianas
de peças como Hamlet e Macbeth. Essas tragédias, claro,
são posteriores à suposta morte de Marlowe numa briga de taverna,
em 1593. Mas essa foi a grande jogada do escritor: perseguido por suas idéias
pouco ortodoxas sobre religião, ele encenou a própria morte, para
depois se exilar na Europa continental, de onde mandava suas obras-primas para
que o ator William Shakespeare as assinasse, como um mero e servil testa-de-ferro. De
todas as hoje desacreditadas teorias que colocavam em dúvida a autoria
das obras de Shakespeare, a mais extravagante é a que está resumida
no parágrafo acima. Foi divulgada num livro dos anos 1950, O Assassinato
do Homem que Era Shakespeare, de um tal Calvin Hoffman, um empresário
da Broadway. É uma peça fictícia digna das mais amalucadas
teorias conspiratórias, e se há algo de minimamente crível
nela é apenas porque Marlowe, com sua vida dupla de poeta e espião
e sua morte violenta, permanece uma figura misteriosa. Sua obra, como o leitor
brasileiro poderá conferir em Fausto, também traz perturbadoras
zonas de sombra. Fausto, o sábio alemão
que vende sua alma ao demônio Mefistófeles em troca de conhecimento
e poder, não foi criação de Marlowe. É uma lenda popular
cuja autoria se perde no tempo. No século XVI, a história se tornou
conhecida por meio do Faustbuch (O Livro de Fausto), obra anônima
alemã que foi traduzida na Inglaterra. Era um texto moralista, provavelmente
escrito por algum luterano furioso. Marlowe deu lustro estético à
obra e resgatou a dignidade do personagem que, no entanto, ainda desce
ao inferno na cena final, de muito impacto junto ao público da época.
Caberia a outro alemão, Wolfgang von Goethe, salvar o atormentado Fausto,
que em seu poema dramático é resgatado pelos anjos no ato final.
A História Trágica do Doutor
Fausto conserva alguns arcaísmos do teatro religioso medieval. Há
personagens alegóricos, como os Pecados Capitais, que desfilam no palco
fazendo discursos retóricos. Mas Fausto não é apenas um miserável
pecador punido num drama cristão. Ele é também um pensador
radical em seu ceticismo, como se vê no seu monólogo inicial, em
que rejeita como inúteis todas as disciplinas tradicionais nas universidades
de então teologia, lógica, medicina para abraçar
a magia e o ocultismo. O crítico inglês Ian Watt observou uma circunstância
histórica no fundo desse drama: o desemprego acadêmico. Na virada
do século XVI para o XVII, a Inglaterra conheceu uma expansão universitária,
da qual o próprio Marlowe se beneficiou teve uma bolsa de estudos
em Cambridge. Os acadêmicos, porém, não encontravam lugar
na sociedade e acabavam formando um grupo marginal. O
próprio Marlowe era uma expressão dessa desilusão
embora tivesse resolvido o problema do desemprego ainda na universidade, alistando-se
no serviço secreto. A natureza de suas atividades é ainda obscura.
Provavelmente, teria de se infiltrar entre os católicos, recolhendo informações
sobre qualquer conspiração "papista" contra a Inglaterra
anglicana. Figura herética (reza a lenda que ele gostava de pôr em
dúvida a reputação da Virgem Maria), Marlowe também
foi um dramaturgo de sucesso, que despertou a inveja caluniosa de competidores.
A morte do poeta tem um componente patético: ele envolveu-se numa briga
de taverna, tentou acertar o contendor com um punhal, mas errou o golpe e acabou
furando a própria cabeça. O golpe de azar que encerrou a carreira
de Marlowe foi um prato cheio para os seus adversários puritanos. Esses
piedosos panfletistas celebraram a vingança divina: a mão que escrevia
abominações contra a religião acertou com o punhal o cérebro
que concebia essas heresias. A tradução
de A História Trágica do Doutor Fausto que chega agora às
livrarias é portuguesa. O verso branco (sem rima) que Marlowe consolidou
na dramaturgia inglesa e que Shakespeare expandiria em sua obra monumental
é vertido em decassílabos, nem sempre com a fluidez do original.
Há alguns versos um tanto canhestros, como "Fausto, hás de
agora / Ser condenado, e salvo ser não podes". Mas o livro vem em
boa hora. As criações de Shakespeare parecem elevá-lo acima
de sua época, como se o bardo houvesse escrito isolado numa bolha de genialidade,
e não em uma época de rara efervescência literária.
Shakespeare conviveu e competiu com vários dramaturgos talentosos que infelizmente
ainda não contam com boas traduções Ben Jonson, o
rival mais jovem, é uma dessas ausências escandalosas nas livrarias
brasileiras. O ceticismo de Fausto ainda cala fundo entre os leitores de
hoje. Lembra a banalidade existencialista do Sartre de Entre Quatro Paredes
"O inferno são os outros"? O Mefistófeles de Marlowe
vai bem mais longe: "O Inferno é sem limites. Circunscrito / Não
está a um lugar, pois, onde estamos, / Inferno é, e sempre aí
estaremos".
Um mito do individualismo A
lenda de Fausto em suas várias versões literárias  | A
História Trágica do Doutor Fausto (1588), de Christopher
Marlowe É a primeira versão literária da história
do sábio que vende sua alma ao demônio Mefistófeles. Marlowe
conservou a punição final no inferno, mas deu dignidade trágica
a Fausto |
Fausto
(1808), de Wolfgang von Goethe A versão mais conhecida do mito
é obra do alemão. Em seu poema dramático, Fausto acaba redimido
na última hora, os anjos logram Mefistófeles e levam a alma
do sábio para o céu |  |
 | Doutor
Fausto (1943), de Thomas Mann O personagem acadêmico se transforma
num músico moderno, Adrian Leverkühn. É uma versão laica
do mito: o pacto dispensa demônios, e o inferno vem na forma da sífilis
que mata o protagonista |
Primeiro
Fausto, de Fernando Pessoa O poeta português deixou inconclusa
sua versão do mito, à qual se dedicou durante boa parte da vida.
A obra fala, segundo o próprio Pessoa, do embate entre a inteligência
representada por Fausto e a vida |  |
Fotos
Corpus Christi College Cambridge , AFP, Biblioteca acional Lisboa |
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