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Cinema Apocalíptico
e desintegrado Com seu épico maia
Apocalypto, Mel Gibson mostra que sabe filmar mas não
controlar as suas obsessões  Isabela
Boscov Fotos
divulgação
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sacerdote maia incita a multidão: perícia técnica, fontes respeitáveis e a fixação
de sempre com o martírio do corpo |
Em Apocalypto (Estados
Unidos, 2006), o primeiro e provavelmente o último épico
maia da história do cinema, um vilarejo de inocentes é arrasado
por uma tribo mais avançada. Mulheres são violentadas, velhos são
assassinados, crianças são largadas à própria sorte.
Os homens são conduzidos sob tortura até um centro de devassidão:
um conjunto de pirâmides, no meio da selva, onde um sacerdote arranca o
coração de escravo atrás de escravo, jogando as cabeças
cortadas escadaria abaixo e alimentando o êxtase da multidão. Por
uma casualidade, ou por intervenção divina, um dos homens marcados
para o sacrifício, o jovem Jaguar Paw (ou "Pata de Jaguar"), é poupado
no último instante. Durante sua fuga, ele cumprirá, sem saber, os
vários passos de uma profecia que anuncia a derrota de seus algozes para
outra civilização. Mais, até: Jaguar Paw é que os
levará ao encontro desse novo elemento. Apocalypto é parte
reconstituição da Mesoamérica do século XV, apoiada
em fontes até respeitáveis, e parte fruto da imaginação
desabrida de Mel Gibson, seu autor e realizador. Uma salada, enfim. Entretanto,
visto pelo prisma das obsessões cada vez mais notórias de Gibson,
o filme é de uma coerência inabalável. Da mesma forma que
Coração Valente e A Paixão de Cristo, a aventura
que estréia nesta sexta-feira no país se ocupa acima de tudo das
infinitas possibilidades de mutilação, dor e penitência contidas
no corpo humano. Por extensão, ela trata também dos significados
que o martírio tem para o catolicismo ultra-ortodoxo de Gibson: o terror
do pecado (aqui, lato sensu) e a ânsia pela expiação.
 | | Gibson
no México: dois terços do elenco recrutados entre os locais |
Em julho passado, num acesso muito público de anti-semitismo, Mel Gibson
foi parado em Malibu sob suspeita de dirigir embriagado. "Malditos judeus. Vocês
são responsáveis por todas as guerras no mundo", berrou ele para
o policial, segundo testemunhos os quais imediatamente começaram
a ricochetear na internet. Gibson, que tem dificuldades conhecidas com o álcool,
a homofobia e o relacionamento em pé de igualdade entre homens e mulheres,
não é um novato em crises de imagem. Mas o episódio de Malibu
superou qualquer outro de sua experiência, colocando-o no topo da lista
de indesejáveis de Hollywood, da qual nem suas profusas desculpas e pedidos
de "ajuda" têm se mostrado capazes de removê-lo. De certa forma, porém,
a débâcle anti-semita de Gibson é o seguimento lógico
para a polêmica de A Paixão de Cristo e a publicidade adequada
para Apocalypto. Pelo que se pode depreender do novo filme, o estado de
graça, para o diretor, é algo ainda mais frágil do que para
a maioria das pessoas e a queda em desgraça, não só
mais completa como também mais prazerosa. Na abertura, que mostra o éden
em que vivem Jaguar Paw (interpretado pelo índio americano Rudy Youngblood)
e seu clã, o filme titubeia e não engrena; assim que se inicia a
via-crúcis do protagonista, Apocalypto cresce e se desenvolve, como
narrativa e como demonstração de apuro técnico. É
de dar medo pensar que a mente de Gibson possa conter pesadelos tão ornamentados
como o da cidade dos sacrifícios, em que até o figurino provoca
mal-estar. E, ao mesmo tempo, causa certa admiração que o diretor
não tenha pudor em conjurar assim suas visões supersticiosas do
paganismo. É provável
que Gibson preferisse ter chamado atenção não para suas obsessões,
mas para os cuidados que dispensou a Apocalypto as locações
no sul do México, os atores e figurantes recrutados entre a população
indígena local, os diálogos em maia yucatec (idioma ainda usado
por cerca de 700.000 habitantes da América Central e parente próximo
do maia que, acredita-se, era falado no período pré-colombiano),
os detalhes pesquisados em estudos como o 1491, de Charles C. Mann, e em
relatos de missionários espanhóis que desembarcaram na região
junto com os primeiros descobridores. Numa tentativa canhestra de atrair para
seu filme o favor dos liberais de Hollywood, que desde A Paixão de Cristo
lhe deram as costas, Gibson chegou a declarar que a política de incitamento
ao pânico praticada pela tribo dominante de Apocalypto "faz lembrar
a de George W. Bush e seu pessoal". Ainda que o paralelo fosse capaz de se sustentar,
não é esse o ponto. A única coisa que está em jogo
no filme, e que dá liga a ele, é a natureza patológica da
criatividade de Gibson. Assistindo a Apocalypto, freqüentemente se
tem vontade de desviar os olhos da tela não apenas em razão
da violência extrema, mas por causa da sensação de que o diretor
está expondo algo íntimo demais para ser dividido com completos
estranhos. Gibson talvez não seja um sádico, como se julgava, mas
um autêntico masoquista. |