|
|
Cinema
Aroma de sucesso Perfume
é uma adaptação fiel, e engenhosa,
do best-seller do alemão Patrick Süskind 
Isabel Boscov
Divulgação  |
| Whishaw, como o protagonista, com Karoline Herfurth:
em busca de uma fragrância sublime |
Um dos maiores
sucessos editoriais dos anos 80, o romance Perfume, do alemão Patrick
Süskind, vendeu 15 milhões de exemplares em todo o mundo e foi tão
comentado que, a certa altura, nem era mais preciso ler o livro para saber do
que ele tratava: do fictício Jean-Baptiste Grenouille, nascido no reduto
mais fétido da imunda Paris do século XVIII; largado pela mãe
num monturo; criado como pária; e destinado a ser o mais assombroso de
todos os perfumistas. Segundo descreve o autor, o olfato incomum de Grenouille
lhe permitia distinguir, e memorizar, cheiros tão elusivos quanto os de
pedra e vidro. Mas ele próprio nascera privado de qualquer odor pessoal
e, portanto, segundo seus critérios, desprovido de identidade. Logo,
a busca do protagonista por uma essência que mimetize a dos seres humanos
comuns se confunde com a obsessão por capturar o mais sublime de todos
os aromas, que calha de ser, num lance não exatamente criativo, o de uma
virgem. Ou melhor, de certas virgens, que Grenouille passa a assassinar para roubar-lhes
as emanações. À parte suas limitações literárias,
o fato é que Süskind topou com uma dessas fórmulas irresistíveis:
um personagem singular, uma intriga com desdobramentos surpreendentes e, como
apoio, as descrições minuciosas de uma França repleta de
eflúvios e dos processos com que se fixam e combinam as fragrâncias
da natureza. O curioso é que um best-seller como esse tenha demorado duas
décadas até ganhar uma versão cinematográfica. Para
os admiradores do livro, porém, a espera há de compensar. Perfume
A História de um Assassino (Perfume The Story
of a Murderer, Alemanha/França/Espanha, 2006), que estréia nesta
sexta-feira no país, é uma adaptação fiel e
também engenhosa, na maneira como supre um sentido, o olfato, que o cinema
não é capaz de estimular.
Süskind segurou os direitos sobre seu livro durante anos porque queria que
eles fossem para Stanley Kubrick ou para Milos Forman. Nenhum dos dois se interessou,
o autor se cansou de esperar e, afinal, vendeu o material ao também alemão
Bernd Eichinger (produtor de A Queda Os Últimos Dias de Hitler)
que, por sua vez, o entregou ao diretor Tom Tykwer. Trata-se de uma escolha
excelente. Não obstante o jeito modernoso demonstrado em Corra, Lola,
Corra, Tykwer é um cineasta de inclinação clássica.
Ele organiza numa narrativa clara uma história que atravessa diversos anos
e locais, reservando seus floreios para vencer o desafio particular de Perfume.
Tykwer evoca os aromas, bons e ruins, do enredo da forma mais simples possível:
com imagens detalhadas e exuberantes dos objetos que os emitem. A imaginação
do espectador faz o resto. Outros truques do diretor demoram mais para se fazer
compreender como a escolha do calouro inglês Ben Whishaw para o papel
principal. Grenouille mal se comunica e não faz muito mais do que decantar,
destilar e imaginar. É um personagem inerte, e Whishaw leva bem uma hora
de filme até superar esse obstáculo. Quando o faz, porém,
é com uma atuação brilhante e criteriosa, que impede que
a seqüência climática, de uma imensa orgia em praça pública,
resvale para o ridículo. Perfume, enfim, é a tradução
justa do livro que lhe deu origem: não chega a ser grande, mas tem originalidade
suficiente para sobreviver e bem como entretenimento. |