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Comportamento
Os novos códigos da separação Descasados
que brigam na Justiça são coisa de outro tempo. Hoje, a regra é
manter relações cordiais com o ex para ficar próximo dos
filhos  Rosana
Zakabi
Fotos
Lailson dos Santos
 | AMIGOS
DE NOVO Após uma separação turbulenta, a funcionária
pública paulista Rosana Sol e o ex-marido, Luiz Carlos, mal podiam se ver. Hoje,
são amigos e conversam sobre as filhas, Caroline, 17 anos, e Estela, 12, embora
evitem a convivência muito próxima. "Quero que as meninas tenham certeza de que
somos felizes separados", afirma Rosana |
A separação
conjugal já foi um drama para os brasileiros. Até vinte anos atrás,
descasados eram vítimas de preconceito e seus filhos, hostilizados pelos
colegas e até recusados em escolas. Hoje, as separações tornaram-se
corriqueiras. Ninguém mais fica malfalado por romper uma união.
Uma pesquisa do IBGE divulgada há dois meses mostra que o número
de divórcios no Brasil aumentou 52% nos últimos dez anos, contra
um crescimento de 14% da população. Divorciar-se também ficou
mais fácil. Há duas semanas, entrou em vigor uma lei permitindo
a oficialização do divórcio em cartórios, sem a intervenção
da Justiça, para casais sem filhos menores ou incapazes. À medida
que a sociedade se tornou complacente com as separações, surgiu
um novo código de conduta entre os casais separados. Hoje, em vez de eternizar
a briga, boa parte dos descasados procura estabelecer a chamada separação
bem-sucedida em nome, principalmente, dos filhos. Separação
bem-sucedida significa continuar a participar do dia-a-dia das crianças.
Se o pai, por exemplo, tinha o hábito de pegá-las na escola duas
vezes por semana, continua a fazê-lo. Dessa forma, evita-se despertar nos
filhos o temor que às vezes se transforma em terror de que
um dos pais os abandone para sempre.
Vários estudos mostram que as crianças cujos pais se divorciaram
mas se mantêm próximos a elas, aparentando tranqüilidade, superam
melhor e com mais rapidez o choque causado pela separação. Uma pesquisa
da socióloga americana Constance Ahrons, professora da Universidade da
Califórnia do Sul e autora do livro We're Still Family (Nós
Ainda Somos Família), concluiu que, quando os pais continuam presentes
na vida das crianças mesmo após o divórcio, elas não
apenas se sentem mais seguras como acabam por compreender a situação
e apoiar a decisão do casal. Separação bem-sucedida, portanto,
também significa manter uma relação cordial e sensata com
o ex-cônjuge em tudo o que diz respeito aos filhos e não expô-los
a discussões e brigas que lhes causem aflição ou os façam
sentir-se culpados pela situação. Gina Alvarenga, engenheira no
Rio Grande do Norte, casou e descasou duas vezes com o mesmo homem e viu de perto
essa situação. "Na primeira vez em que me separei, meu ex-marido
se afastou da família e meus filhos ficaram muito abalados. Na segunda
vez conseguimos ficar amigos e o desgaste foi muito menor", relata ela.  | PARQUE
E SHOPPING CENTER A recepcionista Luciana Orsatte
e o agente de segurança Claudio Bortolotto romperam há um ano, mas ainda fazem
programas juntos, como ir ao parque, ao teatro e ao shopping center, por causa
do filho, Daniel, de 2 anos. "Decidimos guardar apenas o que ficou de bom da relação,
pois teremos de conviver para sempre", diz ela |
Embora os novos códigos da separação sejam hoje um fenômeno
mundial, no caso do Brasil a demografia também ajuda a explicar seu surgimento.
O divórcio foi estabelecido no país em 1977 e foi se tornando comum
na década seguinte. Muitos pais que hoje têm filhos em idade escolar
sentiram na carne a dor pela separação litigiosa de seus pais e
foram testemunhas e às vezes também pivôs de
brigas ferozes entre eles. Esses pais não querem que seus filhos passem
pelas mesmas situações. A própria Justiça hoje colabora
com a separação bem-sucedida. Até poucos anos atrás,
nos processos judiciais que decidem a quem cabe a guarda das crianças ou
como será dividido o patrimônio, a prioridade dos juízes consistia
em definir quem era o culpado pelo fim do casamento para submetê-lo às
exigências do parceiro. "A tendência hoje não é apontar
culpados, mas incentivar o casal a chegar a um consenso sobre a partilha dos bens
e a guarda dos filhos", diz o advogado Rodrigo da Cunha Pereira, presidente do
Instituto Brasileiro de Direito de Família. Nos últimos cinco anos,
alguns tribunais brasileiros adotaram o chamado sistema de mediação,
em que o juiz define um mediador, geralmente um advogado, para ajudar o casal
a entrar em acordo e manter uma separação amistosa.
Os especialistas fazem um único alerta acerca das separações
em que os descasados continuam a manter relações freqüentes
em nome dos filhos: é preciso não confundir cordialidade com intimidade.
"Se os pais se encontram quase diariamente e se relacionam como na época
em que estavam juntos, as crianças ficam confusas e passam a acreditar
na reconciliação do casal", afirma a psicóloga Magdalena
Ramos, coordenadora do Núcleo de Casal e Família da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo. "Em conseqüência
disso, elas rejeitam os novos namorados dos pais", ela completa. O professor de
educação física mineiro Eder Lima é separado e tem
dois filhos, de 13 e 8 anos. Ele conta que está sempre em contato com a
ex-mulher, mas evita sair com ela e as crianças. "Isso poderia criar expectativas
de que um dia podemos retomar a relação", justifica. Estipular limites
para a convivência com o ex-parceiro é uma maneira de os filhos,
os familiares e o próprio casal se acostumarem com a idéia da separação.
Outro conselho dos especialistas é nunca excluir o novo parceiro dos eventos
familiares. "Nessas situações, é o namorado que deve ser
percebido como companhia, e não o ex", alerta a psicóloga americana
Lauren Solotar, chefe do Instituto May, em Massachusetts, e especialista no assunto.
A escalada vertiginosa dos divórcios
e das separações, assim como a nova forma de lidar com as crianças
das uniões desfeitas, é resultado das profundas transformações
que o casamento sofreu nas últimas décadas. Até há
pouco tempo, casar-se significava assumir uma responsabilidade social e familiar
para o resto da vida. Hoje o casamento é visto como uma forma de busca
da felicidade individual. "As pessoas só se casam ou continuam casadas
se houver alguma compensação pessoal", diz a socióloga Lourdes
Bandeira, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher
da Universidade de Brasília (UnB). Além disso, segundo ela, as relações
estão cada vez mais rápidas e, conseqüentemente, descartáveis.
"Não existe mais o conceito de que casamento precisa durar para sempre",
afirma Lourdes. A psicóloga americana Judith Wallerstein, autora do best-seller
The Good Marriage (O Bom Casamento), explica essa nova percepção
do casamento à luz dos valores da sociedade. "No passado, instituições
como a lei, a tradição, a religião e a ascendência
paterna eram muito mais fortes do que as ameaças ao casamento, como a infidelidade,
a violência doméstica, as dificuldades financeiras ou a reversão
de expectativas. Hoje, a balança mudou de lado", ela escreve. "Pela primeira
vez na história, a decisão de permanecer casado ou se separar é
puramente voluntária."  | AJUDA
DA TERAPIA A publicitária paulista Rita Almeida,
46 anos, separou-se duas vezes e tem dois filhos, um de cada marido – Paulo, 23
anos (na foto, com a namorada), e Gabriela, 12. Na segunda separação, ela
e o parceiro buscaram a ajuda de uma terapeuta. "Foi fundamental para saber como
manter a amizade em nome de nossa filha", diz Rita |
A ascensão das mulheres ao mercado de trabalho, em condições
iguais às dos homens, também é apontada como uma das causas
do maior número de divórcios. Antes, a maioria absoluta das esposas
dependia financeiramente do marido. Hoje, as mulheres conquistaram sua independência
e, conseqüentemente, o direito a escolher o próprio destino. Uma pesquisa
do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas,
coordenada pelo economista Marcelo Neri, conclui que, no Brasil, quanto maior
o poder aquisitivo das mulheres, mais elas tomam a iniciativa de se separar se
o casamento não vai bem. "Como não dependem financeiramente do marido,
as mulheres não continuam casadas se a relação não
for prazerosa", afirma Neri. A análise feita pelo IBGE sobre os números
de sua pesquisa recente conclui que existe uma relação estatística
direta entre o aumento no número de divórcios e o crescente ingresso
das mulheres no mercado de trabalho. A independência financeira feminina,
segundo o instituto, tem contribuído para a dissolução das
uniões. De acordo com os especialistas em demografia, a tendência
é que o número de divórcios e separações continue
a crescer no Brasil nos próximos dez anos. Cada vez mais descasados terão
de se empenhar em separações bem-sucedidas em nome do bem-estar
dos filhos. Com reportagem de Érica
Chaves |