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Edição 1992 . 24 de janeiro de 2007

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Fotografia
Jean Manzon

Livro mostra a grandiosa obra do fotógrafo
francês que testemunhou e registrou, em
cenas muito bem posadas, as transformações
do Brasil nas décadas de 1940 e 1950


Bel Moherdaui

 
Meu casaco, por favor: na posse de JK, o presidente brasileiro tem a expressão relaxada; o vice americano, Richard Nixon, mesma testa franzida de sempre, ajuda-o com o sobretudo

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O Brasil que se vê nas páginas desta reportagem não existia antes de Jean Manzon. Ao desembarcar no Rio de Janeiro em agosto de 1940, fugindo da ocupação nazista, já com trabalhos publicados em revistas como Vu e Match, o fotógrafo francês de apenas 25 anos encontrou por acaso uma situação perfeita: um país em processo de modernização, em busca de uma nova imagem de si mesmo. Através de sua Rolleiflex e dos fundamentos do fotojornalismo, que na época era inovador – o da foto que conduz sua própria narrativa –, Manzon foi um dos grandes criadores dessa imagem. Às vezes oficial, às vezes fruto apenas da curiosidade do olho treinado de fotógrafo, mas sempre altamente elaborada, quase estilizada. Seu primeiro emprego foi no Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão de censura e divulgação da política do Estado Novo de Getúlio Vargas. De lá, três anos depois, passou para a revista O Cruzeiro, pérola do império de Assis Chateaubriand, onde por quase uma década (de 1943 a 1952) reinventou o jornalismnacional em dupla com o repórter David Nasser e ao lado de nomes que seriam grandes, como o de Millôr Fernandes, colaborador de VEJA que relembra, nas páginas a seguir, seus tempos de Manzon e companhia.

 
Café Filho faz café, Getúlio Vargas faz pose familiar e Adhemar de Barros abre o quarto para Manzon, de pijama e telefone. "Eu me aproximava de todos os grandes do regime", contou o fotógrafo sobre a época de trabalho no DIP

Íntimo de poderosos, criativo, teimoso e dotado de enorme capacidade de persuasão, Manzon produziu um notável acervo de fotos e documentários (esses últimos, já no fim da carreira, laudatórios do Brasil grande do regime militar). Dentre quase 20 000 negativos, contatos e ampliações em poder da família, 199 fotografias foram selecionadas para compor o livro Jean Manzon ­ Retrato Vivo da Grande Aventura (150 reais), que a Aprazível Edições lança em parceria com a Cepar Consultoria. Divididas em quatro eixos (Anonimato e Personalidade, Rústico e Industrial, Sagrado e Profano e Tradição e Modernidade), as imagens são, literalmente, retratos da formação do Brasil moderno. "As fotos de Jean Manzon transmitem mais do que o registro de uma cena, de um rosto. Elas refletem a atmosfera de uma época. São tratados com advérbios de intensidade", define o editor Leonel Kaz. "Existia uma grande identificação do trabalho de Manzon para O Cruzeiro com a afirmação da identidade nacional ligada à política do Estado Novo. Ele convivia com as idéias que circulavam entre os intelectuais do regime e as materializava em fotos", analisa Helouise Costa, vice-diretora do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, especialista no trabalho do fotógrafo. São fotografias cuidadosas e grandiloqüentes de trabalhadores na labuta, de transformações sociais (mulheres no mercado de trabalho, a evolução da moda, a migração do campo para as cidades) e da intimidade de artistas e poderosos – Getúlio, de quem Manzon se aproximou na época do DIP, foi um de seus personagens mais constantes.

Independentemente de quem estivesse em foco, era imprescindível, no trabalho de Manzon, a minúcia na preparação da cena e da pose antes do clique. "Esse fotojornalismo encenado é a grande força do trabalho dele. Hoje, beira a idéia de fraude. Mas na época o objetivo era concentrar o maior número de idéias da melhor forma possível. Encenava-se para chegar à essência do que se queria passar com a imagem", explica Helouise. Não que Manzon tivesse algum problema com a invenção pura e simples: ele e o parceiro Nasser produziram, na concepção literal do termo, diversas reportagens de veracidade discutível. Desde que o resultado fosse grandioso (e seu nome aparecesse em destaque), fazia parte do jogo.


 
 
 
 
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