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Saúde
Comer pouco, viver muito
É essa a obsessão dos magérrimos seguidores da dieta
de drástica restrição de calorias
 Bel
Moherdaui  | | Os
publicitários Meredith (1,64 metro, 48 quilos) e Paul McGlothin (1,82 metro, 61
quilos), o casal-modelo da RC: no primeiro dia de 2007, almoço especial, com menos
de 700 calorias |
Entre comer
e viver muito e bem, eles não têm dúvida: não comem.
Ou melhor, comem pouquíssimo. Refeições minimalistas ou simplesmente
abolidas fazem parte da rotina dos praticantes da dieta de restrição
calórica, também conhecida como dieta da longevidade, que não
tem nada a ver com briga com balança nem com distúrbios alimentares
incontroláveis como a anorexia. Os adeptos da restrição calórica
(RC para os íntimos) comem pouco porque acreditam que, assim, viverão
mais de 100 anos, com saúde. Em busca desse prêmio, apenas teoricamente
factível, ingerem o mínimo necessário para suprir a quantidade
essencial diária de nutrientes o que os diferencia das populações
submetidas à fome forçada e nem 1 grama a mais. O mínimo
necessário varia: o escritor americano Brian Delaney estabelece o seu em
1.950 calorias (sendo 2.500 a quantidade média considerada adequada para
um homem adulto); a publicitária Meredith Averill, radical, ingere por
dia 700 calorias (o normal das mulheres são 2.000), e olhe lá. Todos
se dizem felizes e realizados com a dieta, que surgiu na década de 1930
mas ganhou, digamos, peso há menos de quinze anos, por irônica conseqüência
de um retumbante fracasso. O guru
da redução calórica, tal como é seguida hoje, é
o gerontologista americano Roy Walford, um dos participantes do projeto Biosfera
2, em que um grupo de cientistas passaria dois anos, de 1991 a 1993, em um ambiente
totalmente controlado e isolado, comendo apenas o que era produzido lá
dentro. Quando tudo deu errado e começou a faltar comida, Walford sugeriu
aos colegas uma experiência fora do programa: submeter-se a um drástico
corte de calorias e acompanhar os efeitos sobre a saúde de cada um. Os
resultados foram tão benéficos que, ao sair enfim da infausta redoma,
Walford dedicou a vida a divulgar os benefícios da baixíssima ingestão
calórica. Não teve muito tempo morreu em 2004, com 79 anos,
de uma doença genética que provoca a degeneração do
sistema neurológico. Mas sua pregação não foi pura
alucinação provocada pela falta de comida a dieta da redução
calórica tem sido testada em animais há mais de setenta anos. "Em
todos os casos, o animal que come em abundância vive menos", confirma o
biólogo gaúcho Emilio Jeckel, especialista em envelhecimento e estudioso
da RC. "Já os que comem menos apresentam menor incidência das doenças
crônicas típicas da idade. Tendo menos doenças, eles vivem
mais tempo", explica. Atenção, porém: como a vida controlada
em laboratório, com refeições garantidas todo dia, em nada
se parece com a dura batalha pela sobrevivência, a conclusão lógica
desses estudos não é que comer pouco faz viver mais, mas sim que
quem come demais fica doente e morre mais cedo, ressalta Jeckel. Divulgação
 | | Entre
o gordo e o magro: Weindruch, tendo à esquerda o esbelto e saudável
macaco Canto, que vive com pouca comida, e o gordo e envelhecido Owen, para quem
não falta ração |
Ainda assim, há resultados espantosos. A prova viva, e nada similar, são
Canto e Owen, dois dos macacos que participam de uma experiência de restrição
calórica conduzida pelo gerontólogo Richard Weindruch no Centro
Nacional de Pesquisas com Primatas do estado de Wisconsin, nos Estados Unidos.
Ambos têm idade avançada, considerando-se que a expectativa de vida
em cativeiro para a espécie é de 27 anos, mas as diferenças
saltam à vista. Canto, 25 anos, 445 calorias por dia, está inteiraço,
com pêlo reluzente, olhar alerta, postura correta e muita disposição;
Owen, 26 anos, 885 calorias por dia, parece pai dele, encurvado pela artrite,
calvo aqui e ali, barrigudo, enrugado. No grupo dos macacos magros (que, diga-se,
jamais se acostumaram com o regime forçado e, se tivessem liberdade de
escolha, certamente se fartariam com o que lhes aparecesse pela frente), três
morreram de câncer, nenhum tem diabetes nem pressão arterial alta
e os níveis de gordura e glicose são baixos. No de Owen e seus pares
glutões, quatro desenvolveram diabetes, um morreu da doença e cinco
de câncer. Não há estudos consistentes sobre o efeito da restrição
calórica no aumento da longevidade humana, até porque uma pesquisa
desse tipo leva pelo menos um século para apresentar conclusões
efetivas. "Acho, inclusive, condenável. Não se pode manter uma pessoa
por um tempo tão longo com uma restrição tão severa
de calorias", diz Myrian Najas, professora de geriatria e gerontologia da Unifesp,
em São Paulo. Os adeptos do regime radical, porém, agem com a paixão
dos iniciados numa seita fechada. "Embora não se possa afirmar que quem
faz a dieta vá viver 150 anos, ela é a única alternativa
conhecida para retardar o envelhecimento. E traz, com certeza, benefícios
para a saúde", defendeu em entrevista a VEJA o escritor Delaney, co-autor
de A Dieta da Longevidade. Rene
Macura
 | | Delaney,
presidente da Sociedade de Restrição Calórica: 65 quilos sustentados por café-da-manhã
e jantar – almoço, nunca, mas um tiquinho de chocolate de vez em quando |
Delaney preside a Sociedade de Restrição Calórica, que, segundo
ele, conta com mais de 2.000 membros no mundo sendo cinco no Brasil, que
não quiseram se identificar. Aos 43 anos, 1,80 metro e 65 quilos, Delaney
começou a cortar calorias há catorze anos. Há dez segue uma
dieta de 1.950 calorias diárias, sempre pulando o almoço. "Adoro
chocolate e como um pouquinho algumas vezes por semana. Também tomo algumas
taças de vinho. Não é preciso comer comida saudável
o tempo todo. Se exagero, compenso no dia seguinte", afirma, desmentido pela aparência
de magreza descarnada típica de sua tribo sem nada a ver com o visual
saudável de quem se mantém em forma sem exageros. E exageros não
faltam. A publicitária Meredith, 60 anos, e o marido, Paul McGlothin, 58,
há doze adeptos da dieta, não põem comida alguma na boca
depois do almoço e dispõem de um programa de computador para calcular
calorias e nutrientes de cada uma de suas refeições, inclusive o
"banquete" especial de Ano-Novo que aparece junto à foto deles. Meredith,
1,64 metro, pesa 48 quilos e consome 700 calorias por dia. McGlothin, 1,82 metro,
ingere 900 calorias diárias e luta para não ficar abaixo dos 61
quilos. "Não seguimos essa dieta só pensando em ter vida longa,
mas também pela alegria e eficácia dos resultados: pressão
arterial baixa, gordura corporal equivalente à de um atleta, visão
perfeita e muita energia", exalta McGlothin. Embora os praticantes abram enormes
sorrisos no rosto encovado quando falam de sua dieta, segui-la não é,
com perdão da expressão, bolinho. Submetido à restrição
calórica por oito semanas para escrever sobre o assunto na revista New
York, o jornalista americano Julian Dibbell, que morou seis meses no Rio de
Janeiro e fala um pouco de português, resumiu para VEJA sua experiência:
"Quando saí do transe, vi que só consegue persistir numa opção
tão radical alguém que realmente acredita que a recompensa vale
a pena". Só o tempo vai provar se quem come pouquíssimo vive mais,
mesmo. Mas, se vale a pena fazê-lo, qualquer um pode decidir desde já.
Cardápio de Ano-Novo Fotos
Alcir N. da Silva
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1
- Bruschetta Integral (tomate pelado sobre fatia de pão embebida
em suco de tomate, temperado com orégano, alho, limão, linhaça
e um fio de azeite) 220 calorias 2
- Nossa Amada Cevada (cevada amolecida de véspera, cozida com
cebola, alho e louro) coberta com Pimentão e Cebola Festivos
(cozidos e cortados) 280 calorias 3
- Sobremesa (mirtilo misturado com nozes) 78 calorias 4
- Batata-Doce ao Gengibre (cozida, salpicada de gengibre em pó,
com um filete de azeite) 95 calorias | |
Saudável, mas tão pouquinho...
Um magro dia na vida de quem faz dieta de redução
calórica Café-da-manhã:
um copo de suco de laranja, um ovo poché, uma fatia de pão integral,
uma xícara de café ou chá Almoço:
meio copo de queijo cottage, meio copo de iogurte desnatado, uma colher de sopa
de germe de trigo, uma maçã, um muffin (bolinho doce) de trigo integral
Jantar: 90 gramas de peito
de frango sem pele assado, uma batata assada, um copo de espinafre cozido, cinco
tâmaras, um muffin de aveia, um copo de leite desnatado
Consumo total: 1 472 calorias, 92 gramas de proteína,
24 gramas de gorduras, 234 gramas de carboidratos, 27 gramas de fibras e 310 miligramas
de colesterol | | |