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Especial Amigos
até que a morte nos separe A humanidade
mantém laços afetivos mais fortes com os cães do que com qualquer outro
bicho. A ciência vem desvendando as razões dessa história de amor
que já dura 12 000 anos  Jerônimo
Teixeira AP
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Em
um dos trechos mais tocantes do livro Marley & Eu, o jornalista americano
John Grogan narra como o cão de estimação do título
reagiu quando sua mulher, Jenny, sofreu um aborto espontâneo. Marley aproximou-se
cabisbaixo da dona e deixou-se abraçar por ela era como se tivesse
sido contagiado por sua tristeza. A relação entre o labrador e a
família de Grogan é a matéria-prima do livro e o imenso
interesse despertado pelo mesmo constitui um ótimo indício de como
os seres humanos compartilham esse apego pela cachorrada. Mais de 3 milhões
de exemplares de Marley & Eu foram vendidos no mundo desde seu lançamento,
em outubro de 2005. No Brasil, foram 140.000 exemplares o suficiente para
fazer dele o primeiro colocado na lista de VEJA dos mais vendidos de 2006 na categoria
de não-ficção. Seu sucesso dá uma medida da
importância que um cão pode assumir na vida afetiva de seus donos.
Nos lares, sempre houve espaço para uma gama variada de animais, dos peixes
aos gatos e aves. Com nenhuma dessas espécies, contudo, o homem estabeleceu
uma relação tão íntima quanto com os cães.
Animais de natureza social, eles são capazes de manter uma comunicação
muito efetiva com seus donos. Para além
da fidelidade e de outros atributos que costumam ser associados aos cachorros,
é aí que reside o diferencial dessa afeição: ela dispensa
as palavras. "É uma relação muito básica. Não
há complicações, discussões ou melindres", diz Grogan
(veja entrevista com o autor).
A especialista Patricia McConnell, autora de Cães São de Marte
Donos São de Vênus, atesta essa impressão: "A chave
da amizade entre homens e cães é que se trata de uma ligação
puramente emocional". O cão tem uma competência ímpar para
comunicar seus desejos comida, água, carinho, necessidade de um
passeio. Também é capaz de ler as emoções de seus
donos e responder apropriadamente a elas, num fenômeno que os especialistas
chamam de ressonância afetiva. Ana
Araújo
 | UM
POLÍTICO "CACHORREIRO" O senador Arthur Virgílio
tem um poodle e um yorkshire, além de duas pit bulls. Orgulha-se da disciplina
deles: "É só eu dizer 'feio' que eles obedecem". Nos cães, encontra uma lealdade
rara na política: "Nunca vi um cachorro traidor" |
De acordo com um levantamento da Associação Nacional dos Fabricantes
de Alimentos para Animais de Estimação (Anfal Pet), há hoje
no Brasil quase 29 milhões de cães de estimação. A
concorrência dos gatos é forte eles já são "maioria"
nos lares americanos, e sua população cresce a taxas maiores que
as dos cachorros também por aqui (embora ainda não cheguem a representar
metade deles). Mas, apesar disso, é difícil imaginar que os bichanos
com o perdão de seus fãs incondicionais possam oferecer
o mesmo consolo afetivo proporcionado por um cão. O próprio John
Grogan, aliás, admite que não conseguiria escrever um livro como
Marley & Eu se o animal em questão fosse um gato, pela diferença
de natureza nessas relações. Esse
entendimento tácito entre as espécies levou milhares de anos para
se aprimorar. "O cachorro passou por um processo de domesticação
intenso. Podemos dizer que o cão que conhecemos hoje é uma obra
humana", diz o zootécnico Alexandre Rossi. A evidência arqueológica
mais antiga dessa amizade, uma mulher enterrada junto de seu cão encontrada
em Israel, data de 12 000 anos atrás. Mas sabe-se que essa domesticação
se iniciou bem antes, há mais de 100.000 anos, quando os ancestrais do
homem começaram a dar abrigo aos filhotes de lobos que rondavam seus acampamentos.
A relação, a princípio, era de caráter utilitário:
o cão ajudava na caça e na proteção, em troca de comida.
Presume-se que aqueles animais que se adaptaram melhor ao convívio humano
ganharam o que os biólogos chamam de vantagem adaptativa: tinham mais chance
de sobreviver e gerar descendência que os demais. Num processo que o naturalista
inglês Charles Darwin chamava de "seleção artificial", o homem
foi criando cães cada vez mais apropriados a suas necessidades. Pelo mesmo
processo, foi se desenhando a incrível variedade de raças caninas,
do minúsculo chihuahua ao enorme dinamarquês. Otavio
Dias de Oliveira
 | AMOR
QUE RESISTE AO XIXI O vídeo que flagra Ana Maria
Braga levando um esguicho de xixi de um poodle faz sucesso no YouTube. Dona de
nove cães, ela está acostumada com travessuras. "Gostar de cachorro tem a ver
com carência. Preciso do carinho deles", diz a apresentadora, que gasta 500 reais
por mês com suas mascotes |
Os
laços afetivos entre as espécies também foram depurados ao
longo da evolução. A comunicação foi facilitada, de
saída, pelas semelhanças entre a estrutura social do homem e a dos
caninos. Tal e qual ocorre nas sociedades humanas, a matilha é um grupo
regido pela hierarquia e no interior do qual os indivíduos têm de
saber decodificar as emoções de seus pares. "Assim como o homem,
o cão tem necessidade de se ligar a outro ser e adotá-lo como referência",
diz a veterinária e psicóloga Hannelore Fuchs. É razoável
supor que, sempre que uma nova cria surgia, os homens davam preferência
não só aos animais que atendiam a suas necessidades práticas,
mas também àqueles que tinham traços comportamentais que
facilitavam a compreensão mútua. E assim se refinou a capacidade
de ambas as espécies de interpretar o humor e as reações
do outro. Estudos recentes ajudam a entender a
natureza dessa ligação. Boa parte deles toma como ponto de partida
a comparação entre o comportamento do cão e o do lobo, seu
parente selvagem. As duas espécies são muito semelhantes geneticamente
a ponto de a reprodução entre elas ser factível. Mas
há um abismo comportamental e tanto: o cão hoje dificilmente sobreviveria
nas florestas onde os lobos caçam. Seu meio ambiente é o do homem.
"Mesmo os cães de rua não vivem sem alguma forma de interação
com o ser humano", observa o psicólogo e estudioso do comportamento canino
César Ades, da Universidade de São Paulo. Pesquisas realizadas nos
Estados Unidos com animais que vivem em abrigos mostraram que, mesmo não
sendo acostumados à presença regular de um dono, eles preferiam
a companhia humana à de outro cachorro. "Diferentemente do lobo, o cachorro
desenvolveu uma capacidade de interação com o ser humano muito apurada.
Mas ele também sabe que o seu dono não é outro cachorro",
esclarece Ades. Lionel
Falcon
 | TAMANHO-FAMÍLIA
Na infância, Adriane Galisteu queria um cão, mas a mãe não permitia. Hoje, a apresentadora
divide seu apartamento com George, um golden retriever. Nos passeios, leva pá
e saquinho. "Cachorro grande faz cocô grande", diz. O bicho passa seis horas diárias
numa "escolinha". Custo: 800 reais por mês |
Uma das maiores autoridades mundiais em comportamento canino, o húngaro
Ádám Miklósi coordenou uma pesquisa na qual filhotes de cachorro
e de lobo foram criados por pessoas, em condições idênticas.
Testadas numa série de situações que exigiam comunicação
com seus criadores, as duas espécies mostraram resultados diversos. A competência
de lobos e cães é semelhante quando se trata de interpretar pistas
visuais dos humanos por exemplo, uma mão apontada na direção
de um prato de comida. Mas só os cães fazem "pedidos" ao homem.
Em situações nas quais a comida estava escondida numa caixa fechada
ou pendurada numa corda que não cedia, os lobos limitavam-se a roer a caixa
ou puxar a corda com insistência, enquanto os cachorros tentavam chamar
a atenção dos tratadores com latidos e olhares. Sim, olhares: outra
conclusão do estudo é que o cão faz mais contato olho a olho
com o homem que o lobo. Os lobos também não eram capazes de fazer
um sinal conhecido por todo dono de cachorro eles não sacodem a
cauda. Miklósi e sua equipe realizaram ainda pesquisas comparativas de
cães e gatos, com resultados similares: os bichanos entendem sinais dos
donos, mas não buscam ajuda humana quando enfrentam dificuldades na obtenção
de comida. O gato ainda mantém um certo comportamento de caçador.
O cachorro é um animal doméstico, que espera a comida do dono.
Para os humanos, o convívio com os cães gera benefícios hoje
mais que comprovados à saúde e à mente. Nos últimos
anos, os cientistas trouxeram à tona fartas evidências disso. Já
se mostrou que as crianças que interagem com eles desenvolvem a coordenação
motora e as habilidades socioemocionais mais rapidamente. Os idosos também
tiram proveito desse relacionamento. Uma pesquisa americana revelou que, para
as pessoas entre 65 e 78 anos, a companhia de um cão contribui decisivamente
para evitar a depressão e o isolamento. E, por fim, essa amizade pode ser
útil para os doentes. Um exemplo: a pesquisadora Karen Allen, da Universidade
do Estado de Nova York em Buffalo, verificou que pessoas com hipertensão
que têm cachorros sofrem menos crises em situações de stress.
Nélio
Rodrigues/1º Plano
 | A
EDUCAÇÃO PELO CÃO A cantora Fernanda Takai, da
banda mineira Pato Fu, aprendeu noções de responsabilidade com os cães que teve
na infância. Com dois deles em casa, ela tenta passar a mesma lição a Nina, sua
filha de 3 anos: "Sinto que, no contato com eles, ela está aprendendo a lidar
com os limites" |
A cooperação
entre cachorros e homens alimentou uma quase-santificação do animal.
São conhecidas histórias de cachorros que salvaram a vida de seus
donos, ou até que morreram ao fazê-lo. A imagem do cão que
se sacrifica por seu dono é comovente mas esse comportamento tem
uma explicação bem menos idealizada. "Do ponto de vista da biologia,
não existe sacrifício. O que parece comportamento altruísta
por parte de um cachorro quase sempre é apenas resultado de seu comportamento
de matilha", diz o húngaro Miklósi. Assim, se um cão salva
um menino do incêndio, é porque em situações de stress
ou perigo o animal tenderia a manter seu grupo todo reunido. E é claro
que ele não tem uma noção exata do perigo que corre ao entrar
numa casa em chamas. Isso pode valer para a perspectiva
mais objetiva da ciência. Para o dono de cachorro, que tende a avaliar o
que vê em seus próprios termos subjetivos, é muito difícil
não se impressionar com a lealdade do cachorro. A fidelidade dos cães
já era notada na Odisséia, de Homero, composta por volta
do século VIII a.C. Quando o herói Ulisses retorna a sua casa na
ilha de Ítaca depois de uma ausência de vinte anos, o velho cão
Argos é o primeiro a reconhecer seu amo e morre de imediato, tomado
de emoção. Ulisses, por sua vez, deixa escapar uma lágrima
por Argos. Ao longo dos tempos, as virtudes e os
defeitos caninos ganharam inúmeras representações culturais
(veja quadro). Além da fidelidade, o cão tornou-se símbolo
de heroísmo e afetividade mas também de gaiatice e agressividade.
Serviu, ainda, de emblema político. Na França absolutista, o lulu
de perua, com suas roupas de grife e seus salões de beleza, virou símbolo
da insensibilidade social dos ricos. Por outro lado, pode-se sempre lembrar que
o cão também já foi emblema de liberdade. Em seu livro Da
Dificuldade de Ser Cão, o escritor francês Roger Grenier conta
que certa vez visitou a Checoslováquia comunista na companhia de seu animal
de estimação. "Vivam os cachorros", gritou um jovem em Praga quando
viu Grenier passeando com seu cão. Era uma forma disfarçada de protestar
contra a opressão comunista. Talvez ninguém
tenha tirado tanto proveito da imagem simpática dos cães como os
políticos. Sempre que lhes foi conveniente, eles recorreram às mascotes
para inflar sua popularidade. Nos Estados Unidos dos anos 20, um político
sem carisma como Herbert Hoover se elegeu presidente usando como peça de
marketing fotografias em que aparecia ao lado de seu cachorro. De George W. Bush
ao presidente Lula, não há político em sã consciência
que dispense os cliques junto dos seus bichos de estimação. O ditador
nazista Adolf Hitler foi uma exceção à regra. O tirano nunca
se deixava surpreender brincando com seus cães, pois isso seria uma exibição
inadmissível de um lado terno, humano, que não cabia na figura teatral
que cultivava. As pessoas tendem a ver seu bicho
de forma humanizada e a considerá-lo como um filho, um amigo. No fundo,
o animal responde à necessidade atávica que todo ser humano tem
de cuidar de outro ser vivo. De certo modo, ele funciona como uma criança
substituta, especialmente para os donos mais velhos. Não é de estranhar
que muitos se intitulem "papai" ou "mamãe" de seu bicho. Nas metrópoles
modernas, em que as pessoas tendem a ter menos rebentos, ele preenche uma lacuna
afetiva importante. Mesmo adulto, requer cuidados não muito diferentes
dos que se dispensam a uma criança, pois é necessário dar-lhe
comida, banho e abrigo. Em troca, estará sempre à disposição
para brincadeiras e afagos. O cão é um animal gregário, o
que marca uma diferença e tanto em relação ao gato, um bicho
mais individualista (os felinos em geral não vivem em grupos; a exceção
notável é o leão). Em certa medida, ele transfere para suas
relações com o homem os traços sociais de uma matilha selvagem.
Ou seja, há sempre uma disputa pela dominância.
Na maior parte do tempo, advertem os especialistas, o cão ganha a parada
e se estabelece como o maioral do pedaço. São poucos os donos que
sabem implementar limites efetivos para seus animais. O predomínio do cão
geralmente não traz maiores danos, mas às vezes se traduz em comportamentos
incontroláveis e até em agressividade, casos em que se torna aconselhável
buscar um adestrador. Quando a relação desanda, há sempre
o risco de que a coisa deságüe em tragédia para o bicho
ou, em situações tão raras quanto chocantes, para seu dono.
Já se registraram casos de pessoas que foram atacadas e sofreram sérios
danos, quando não foram mortas, pelo próprio animal.
A boa notícia é que sempre há a possibilidade de reverter
a relação de dominância. Assim como numa alcatéia o
lobo-alfa pode a qualquer momento ser desafiado e desbancado por um concorrente
mais jovem, também o cachorro que se torna o senhor da casa pode ser colocado
na linha pelo dono, se este souber agir com firmeza. Em geral, é possível
conseguir o domínio sobre o cachorro com reprimendas firmes e recompensas
sempre que ele obedece a uma ordem. Os adestradores propõem um teste definitivo
para saber se é o dono ou o cachorro quem manda na casa: coloque um pedaço
de carne no chão e diga "não" se o cão se aproximar. O cachorro
que aceitou seu papel de "dominado" na relação com o dono só
vai comer o petisco quando autorizado. "Todo dono em algum momento se vê
diante desse dilema existencial: estabelecer quem manda, o homem ou o cachorro",
diz John Grogan, do alto de sua experiência com o bagunceiro Marley. Mas
quem é capaz de resistir às ordens de seu amado totó?
Moral canina
As virtudes e os defeitos humanos representados pelos cães
FIDELIDADE O
amor incondicional de um cachorro pelo dono já era tema da Odisséia,
escrita pelo grego Homero no século VIII a.C.: Argos, o cão do herói
Ulisses, é o primeiro a reconhecê-lo depois de vinte anos de ausência.
Ao vê-lo, ele abana o rabo de alegria e morre em seguida
Divulgação
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VAGABUNDAGEM Cães
vadios sempre foram associados à gaiatice e à auto-suficiência.
Não faltam representações românticas disso, como o
desenho A Dama e o Vagabundo. A metáfora está na origem da
expressão "cinismo" (do grego kinos, ou cão). Na Grécia
antiga, os filósofos da escola do mesmo nome pregavam uma vida despojada
à maneira desses bichos
HEROÍSMO
Os cães são um símbolo de bravura. Merecidamente, diga-se:
eles auxiliam bombeiros em resgates, dão apoio à polícia
e atuam em frentes de batalha, como ocorreu nas duas guerras mundiais. São,
ainda, cobaias caso da cadela russa Laika, lançada ao espaço
em 1957, numa viagem sem volta. Na ficção, essa marca foi consagrada
por personagens como Lassie e Rin Tin Tin Walt
Disney
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AFETIVIDADE
O amor do cão por sua prole faz dele um animal "família". Poucas
cenas traduzem de forma tão eloqüente os laços entre pais e
filhos quanto a de uma cadela amamentando seus filhotes. Essa alegoria foi fartamente
explorada na literatura e no cinema o filme 101 Dálmatas
é um exemplo
AGRESSIVIDADE
A ferocidade é um traço negativo. Não à toa, na
mitologia grega as portas do Inferno são guardadas por Cérbero,
um cão de três cabeças. Esse lado do comportamento canino
é identificado com a maldade é o que se transmite, por exemplo,
na imagem de um pit bull espumando de raiva | |
Animais políticos
Com raras exceções, os poderosos de plantão adoram ser flagrados
em companhia de cães é uma forma de venderem uma imagem mais
humana de si próprios. Eis alguns exemplos HERBERT
HOOVER (1874-1964) Nos anos 20, o político
pouco carismático conseguiu eleger-se para a Presidência americana.
Como arma de marketing, veiculou fotografias em que aparecia com ares de bonachão
ao lado de seu cachorro, King Tut
George
Skadding/Time & Life Pictures/Getty Images
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FRANKLIN
D. ROOSEVELT (1882-1945) O presidente que conduziu os Estados Unidos
na II Guerra Mundial era inseparável de seu terrier escocês, Fala.
Certa vez, foi acusado de deslocar um navio de guerra só para buscar o
cachorro, que havia sido deixado para trás numa viagem. Roosevelt declarou
que, como escocês, Fala ficou com "a alma furiosa" com o boato
ADOLF
HITLER (1889-1945) O ditador nazista morria de amores por seus
cães mas achava que não ficava bem para sua imagem ser flagrado
em público ao lado deles. Por isso, não gostava de ser fotografado
com os cachorros
Doug
Mills/AP
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GEORGE
W. BUSH O presidente americano tem dois cães, os terriers escoceses
Barney e Miss Beazley (uma terceira mascote, a springer spaniel inglesa Spot,
morreu em 2004). E faz questão de afagá-los em público
mais ainda depois que seu governo entrou em crise
Ana
Nascimento/Ag. Brasil
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LULA
O presidente brasileiro volta e meia também aparece junto de Michele,
a fox terrier da primeira-dama, Marisa Letícia. Em 2003, aliás,
o fato de um carro oficial ter sido usado para transportar a cadelinha causou
protestos no Congresso Nacional
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Cachorros difíceis valem
mais a pena O jornalista americano John Grogan está
há dezoito semanas na lista de mais vendidos de VEJA com Marley &
Eu. Com 140.000 exemplares vendidos no Brasil, o livro é uma bem-humorada
crônica da convivência de Grogan com um cão labrador. Nesta
entrevista, ele explica por que a ligação com os cães é
tão especial O QUE HÁ DE TÃO
INTERESSANTE NO SEU CACHORRO QUE EXPLIQUE O SUCESSO DO LIVRO? Marley
& Eu não é apenas sobre um cachorro. É a história
da relação desse cachorro com uma família. O livro mostra
como um cão mudou a vida de um jovem casal e, mais tarde, dos seus filhos
pequenos. Os leitores se identificam com isso. Recebo cartas e e-mails do mundo
todo, inclusive do Brasil. São pessoas que viveram histórias muito
parecidas com aquela que eu relato. Isso talvez explique o sucesso. O livro fala
de uma experiência que muitas pessoas já tiveram: ter um cachorro
que tocou sua vida. QUE ESPÉCIE DE LIGAÇÃO
EXISTE ENTRE AS PESSOAS E OS CÃES? É uma relação
muito básica. Não há complicações, discussões,
melindres. É uma ligação pura, que vem do coração.
Um apego emocional. MARLEY DESTRUÍA MÓVEIS,
OBJETOS DA CASA. QUANTO CUSTOU TER UM CACHORRO TÃO BAGUNCEIRO?
Não cheguei a fazer a conta na ponta do lápis. Mas, como estimativa
geral, Marley deve ter custado algo na casa de 3 000 a 4 000 dólares por
ano, contando comida, gastos com veterinário e medicamentos, além
da destruição que ele provocava. Muitas das coisas que ele destruía
eu mesmo consertava. Ele gostava de cavoucar as paredes, o que apurou as minhas
habilidades de pedreiro amador. Esses remendos não custavam muito dinheiro,
mas consumiam tempo. Ele também estragou itens mais caros, como um sofá
e um colchão novo, que ele furou de lado a lado. Agora que o livro se tornou
um best-seller, Marley pagou todas as suas dívidas. O prejuízo foi
recuperado, e com juros. IMAGINE QUE VOCÊ
NÃO HOUVESSE ESCRITO O LIVRO. VALERIA A PENA TER TIDO O CÃO MESMO
ASSIM? Sem dúvida. Marley viveu treze anos conosco. Quando o segundo
de nossos três filhos nasceu, estivemos muito perto de abandonar o cachorro.
Tínhamos dois bebês pequenos em casa, e Marley continuava destruindo
coisas. Dava muito trabalho. Mas não desistimos dele, felizmente. Antes
mesmo da sua morte, nos últimos dias de Marley, minha mulher e eu já
rememorávamos os treze anos do cachorro com nostalgia. Sabíamos
que Marley havia sido uma das melhores experiências de nossa vida. VOCÊ
TEM OUTRO LABRADOR AGORA. QUE TAL O NOVO CACHORRO? É uma fêmea.
Eu a chamo de Gracie, a anti-Marley. POR QUÊ?
Gracie é o exato oposto de Marley. Ela é tranqüila, preguiçosa.
Quase não faz nada de errado. Eu digo para ela: "Gracie, eu nunca vou escrever
um livro sobre você. Você é muito tediosa". E
UM CACHORRO TEDIOSO PERMITE UMA RELAÇÃO TÃO PRÓXIMA
QUANTO AQUELA QUE O SENHOR TEVE COM MARLEY? Eu tenho uma teoria: é
com os cachorros difíceis que temos uma ligação mais profunda.
Somos obrigados a investir tanto de nós mesmos para fazer essa relação
funcionar que se torna impossível não ter sentimentos muito intensos
por esses animais. Com os cachorros tranqüilos, o investimento pessoal é
bem mais leve nós apenas coexistimos com eles. Eu amo Gracie do
fundo do coração, mas Marley era um animal de estimação
memorável. Foi o cachorro da minha vida. O
SENHOR ACREDITA QUE UM LIVRO COMO MARLEY & EU PODERIA SER ESCRITO SOBRE
UM GATO? Eu diria que não. Não tenho gatos, embora goste
deles. De amigos que têm gatos, eu observo que o investimento pessoal que
eles exigem é bem menor. O SENHOR E SUA
MULHER, JENNY, COMPRARAM O LABRADOR MARLEY COM A IDÉIA DE QUE CUIDAR DE
UM CÃO PODERIA SER UM BOM ENSAIO PARA QUEM DESEJA TER FILHOS. O SENHOR
RECOMENDARIA UM CÃO PARA O CASAL COM PLANOS DE AUMENTAR A FAMÍLIA?
Com Marley, Jenny e eu tivemos de tomar conta de uma criatura pela primeira vez
na nossa vida de casal. Ele dependia de nós para tudo. Isso nos ajudou
a desenvolver um senso de responsabilidade importante para quem deseja ter filhos.
Mas não recomendo que alguém compre um cão só para
treinar seus dons paternais. O mais importante é gostar de cachorros. QUAL
FOI A IMPORTÂNCIA DE MARLEY PARA SEUS TRÊS FILHOS? O melhor
presente que um pai pode dar a um filho afora uma boa educação,
é óbvio é um animal de estimação. O
animal ensina lições muito importantes. Ajuda a desenvolver empatia,
compaixão e bondade por outros seres. E, quando o animal envelhece, a criança
tem a oportunidade de entender a morte num contexto relativamente seguro, sem
traumas. O último presente de Marley a nossa família foi este: ele
tornou mais clara, para meus filhos, a concepção da morte, a idéia
de que a vida é finita. É muito mais fácil para uma criança
aprender isso com um cão do que com a morte dos pais ou dos avós.
Meu pai morreu cerca de um ano depois de Marley. Meus filhos conseguiram entender
melhor a morte do avô graças ao cachorro. NO
LIVRO, O SENHOR DÁ ALGUNS CONSELHOS SOBRE COMO ESCOLHER UM BOM FILHOTE
DE CACHORRO COISAS QUE NÃO SABIA QUANDO COMPROU MARLEY. O SENHOR
SEGUIU ESSES PASSOS PARA COMPRAR GRACIE? Sim. Uma das coisas mais importantes
ao comprar um cachorro é buscar uma raça que seja compatível
com o seu estilo de vida. Diferentes raças têm diferentes personalidades.
Também é importante comprar o cão de um criador de qualidade,
em quem você confie. Evite os criadores irresponsáveis, que tiram
uma ninhada depois da outra para conseguir o máximo de dinheiro possível.
E o ideal é encontrar um criador que mantenha os dois pais em sua casa.
Se você conhecer o pai e a mãe do seu cãozinho, terá
uma boa indicação da personalidade que ele terá. Fizemos
isso com Gracie. Funcionou: ela é uma cachorra bem-comportada. QUAL
SERIA A PERSONALIDADE DE UM DONO DE LABRADOR? Se você quer um labrador
ou algum cachorro de grande porte, é necessário ter espaço
para ele. E é preciso assumir o compromisso de exercitá-lo todos
os dias. Se você faz o tipo sedentário, que passa o dia em casa vendo
TV, o labrador não é o cachorro certo. Também não
é um cachorro para quem trabalha muito e fica fora de casa doze horas por
dia. Quando são deixados sozinhos, os labradores muitas vezes desenvolvem
problemas de personalidade e se tornam muito destrutivos. Trata-se de animais
sociais, que adoram a companhia humana e por isso são a raça
mais popular nos Estados Unidos hoje. Você precisa encontrar a raça
que caiba no seu estilo de vida. ALGUNS DONOS
NÃO LEVAM SUA PAIXÃO POR CÃES AO EXTREMO, COM CABELEIREIROS,
PERFUMES, ROUPAS? Sim. Eu vejo gente até furando a orelha de seus
cães para colocar brincos caros. Em certo sentido, o cachorro pode ser
um hobby. Mas é imoral gastar fortunas com um cachorro quando há
crianças passando fome. E os cães não exigem nada disso.
Eles precisam de comida, de atendimento veterinário regular e de donos
que os tratem bem. Algumas pessoas tratam seus cachorros como crianças
com pêlos. Podemos amá-los muito, como eu faço, mas eles não
são crianças. São animais, e devem ser tratados de acordo.
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Uma questão de linguagem
Selecionado ao longo de séculos de evolução
por suas habilidades de interação com as pessoas, o cachorro é
um produto do ser humano. Mas ainda subsistem problemas de comunicação
entre as duas espécies. Eis algumas dicas para superá-los
Ilustrações
Lucia Brandão
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•
O abraço é um comportamento de primatas, como o chimpanzé
e o homem. Cachorros não expressam afeto desse modo. Aqueles acostumados
à companhia humana toleram, mas não apreciam o gesto. Se quiser
demonstrar afeto, opte pelo carinho atrás da orelha ou na barriga. Nunca
abrace um cão que você não conhece a coisa pode acabar
em mordida.
• Do seu lado, os cães
gostam de expressar afeto lambendo o rosto do dono o que nem todas as pessoas
suportam bem.
•
Cães não têm memória do que fazem de certo ou errado.
Se você chegou em casa e descobriu o sofá destruído, não
adianta xingar seu cachorro ele não vai entender por que você
está zangado. A prática de esfregar o focinho do bicho no xixi que
ele fez no tapete também só gera confusão e humilhação.
Repreenda seu cão somente quando você o pega no ato.
•
Cães transferem para sua relação com os donos parte da hierarquia
de uma matilha. A questão é quem será o líder
o dono ou o cão. Para evitar problemas futuros, mostre quem manda desde
o início. Estabeleça limites e dê ordens firmes desde cedo
a seu filhote. • Muitos donos chamam
a si mesmos de "mãe" ou "pai" do cachorro. Não há nenhum
problema nisso, desde que se tenha em mente que um cão tem necessidades
muito diferentes das de um ser humano. Ele não é uma criança
a não ser em um ponto específico: como as crianças,
os cães precisam de limites bem estabelecidos para ser bem educados.
•
Cuidado com os exageros. Seu cão pode até não se importar
de vestir roupa, mas perfumes, sobretudo, podem ser agressivos para o animal
lembre que ele tem um olfato sensível. •
Acostumados à comunicação verbal, seres humanos às
vezes não prestam atenção à sua linguagem corporal
e mandam sinais contraditórios para seu cão. É comum
uma pessoa inclinar-se para a frente na hora de chamar seu animal. Esse gesto,
porém, costuma ser interpretado pelo cão como uma ordem para parar
seu movimento. Dê suas ordens de uma posição ereta.
Fontes: Alexandre Rossi e Patricia McConnell | |
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