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Acidentes
As lições da tragédia
Tão importante quanto achar
os culpados
pelo desmoronamento no metrô de São
Paulo é entender como evitar a repetição
de um desastre que não é inédito

Eduardo Burckhardt e Roberta de Abreu Lima
Alex Silva/AE
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FALTOU UM ALARME
Bombeiros retiram um dos corpos:
não houve alerta para quem estava passando pelo local
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Uma semana depois
do colapso da obra da Linha 4 do metrô de São Paulo,
nem todas as vítimas haviam sido resgatadas, mas já
estava em pleno curso a caçada aos culpados. Antes mesmo
de qualquer investigação, adversários do modelo
de privatização adotado pelo governo paulista puseram
a culpa no contrato tipo "porteira fechada", que supostamente reduz
a ingerência do Metrô sobre a fiscalização
do consórcio construtor. Políticos insinuaram que
houve pressa na execução dos trabalhos. Sindicalistas
garantem que seus alertas sobre a insegurança no local foram
ignorados. Até São Pedro foi apontado como responsável,
por engenheiros do consórcio, mesmo diante da evidência
de que qualquer obra tem de resistir a uma temporada chuvosa.
Só as investigações
da Justiça e as perícias independentes permitirão
resolver essa questão; mas tão importante quanto determinar
os culpados desse caso é tirar lições para
que ele não se repita no futuro. A história demonstra
que no Brasil isso raramente ocorre. Basta lembrar que em 1993 um
túnel sob a Avenida Juscelino Kubitschek, na capital paulista,
feito com o mesmo método construtivo usado desta vez, e com
a participação da mesma CBPO, que integra o consórcio
da Linha 4, também desmoronou e abriu igualmente uma cratera
por sorte, sem vítimas.
Em países onde acidentes
são levados a sério é possível encontrar
bons exemplos. Em um caso quase idêntico ao que ocorreu em
São Paulo, a obra do metrô sob o aeroporto de Heathrow,
em Londres, desabou em 1994. Os ingleses fizeram uma investigação,
puniram os culpados projetistas e construtores com
pesadas multas e, melhor do que isso, elaboraram um extenso relatório
sobre os riscos do método construtivo empregado no metrô
de Pinheiros. Se as autoridades brasileiras tiverem curiosidade
de consultá-lo, o trabalho se chama "O risco para terceiros
na escavação de túneis em terrenos frágeis"
e está disponível no site www.hse.gov.uk.
Esse estudo recenseou nada menos que 66 "eventos de emergência"
em obras do gênero, em todo o mundo, desde os anos 70, quando
esse sistema de escavação se disseminou. O relatório
apontou medidas para reduzir os riscos basicamente, fiscalização
detalhista e freqüente e desde então não
mais houve acidentes do gênero na Inglaterra com esse método.
O tal método é o
NATM, sigla inglesa para Novo Método Austríaco de
Construção de Túneis, aqui apelidado entre
engenheiros de "túnel mineiro". Emprega equipamentos como
perfuratrizes e escavadeiras para abrir o buraco e é mais
barato que o do "tatuzão", dotado de uma gigantesca máquina
de perfuração e utilizado em outros trechos do metrô
paulistano. Mas é mais arriscado. Enquanto o processo do
"tatuzão" avança simultaneamente à construção
do tubo de concreto do túnel, no NATM o calçamento
de teto e paredes acontece bem depois do avanço das máquinas,
o que faz a sustentação da obra depender da estabilidade
do terreno escavado. O risco é maior em áreas instáveis
como a da margem do Rio Pinheiros. O relatório inglês
diz que 55% dos acidentes com o NATM criam uma cratera na superfície,
como a que se abriu numa rua de Pinheiros e tragou um microônibus
de transporte público. "Adequadamente executado, não
há nada errado com esse método", garante o engenheiro
e consultor internacional John Anderson, um dos autores do relatório
inglês. "Mas em solos instáveis, se não houver
cuidados especiais, é um processo impiedoso com erros e que
faz o barato sair muito caro." O consórcio construtor da
obra, que recebe valor fixo pela execução do projeto,
nega que o NATM tenha sido escolhido por razões de custo
ou prazo.
Ag. O Globo
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Rex Features
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JUSTIÇA
LENTA
A queda do elevado no Rio de
Janeiro, em 1971: emaranhado judicial retardou indenizações
às vítimas por até uma década
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LIÇÃO
APRENDIDA
O colapso do metrô londrino, em
1994: acidente gerou um relatório com medidas para
prevenir outros desabamentos
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O desmoronamento em São
Paulo também serve para observar, mais uma vez, quanto o
emaranhado legislativo retarda a definição das responsabilidades.
A Constituição, o Código Civil, a Lei de Licitações,
o Código de Obras municipal e até os contratos de
cada obra têm disposições que podem ser aplicadas
conforme o interesse de cada parte. Na prática, esse será
mais um daqueles casos que demandam anos de discussão judicial
para concluir o óbvio: quem deu ordens ou executou serviços
que resultaram na tragédia responde criminalmente pelo seu
erro, e o dono da obra, tenha ou não falhado na fiscalização,
é solidário no processo. Esse é o raciocínio
de Saad Maslun, um dos promotores envolvidos com a investigação
do Ministério Público. Discute-se ainda por que a
vizinhança não foi alertada sobre a emergência,
já que houve tempo para os operários saírem
correndo do túnel antes do desabamento. As versões
sobre o tempo para que eles fugissem são conflitantes e variam
entre noventa segundos e quinze minutos. Havia um plano de emergência,
que previa uma equipe encarregada de bater na porta das casas próximas,
mas esse plano não chegou a ser executado.
Pelo menos a questão da
indenização das vítimas poderá, nesse
caso, ter um desfecho diferente do que se vê historicamente.
Os parentes dos mortos e outras vítimas da queda do Elevado
Paulo de Frontin, ocorrida no Rio de Janeiro em 1971, esperaram
entre seis e dez anos pelas indenizações. Na semana
passada, o governador José Serra disse que, caso haja controvérsias
em relação às indenizações, o
estado pode vir a assumir todos os custos do acidente, para cobrar
depois das seguradoras, se tiver esse direito.
Acidentes em obras de grande
porte, como túneis, metrôs e pontes, não são
incomuns. Na história da engenharia, ficou famosa a epopéia
da Ponte do Brooklyn, em Nova York, cuja construção,
no século XIX, custou 27 vidas. Há pouco mais de uma
década, a obra do túnel de 50 quilômetros sob
o Canal da Mancha, entre a França e a Inglaterra, registrou
a morte de dez operários. Muitos dos erros fatais do passado
foram compreendidos e serviram para evitar novos desastres. Espera-se
que o mesmo ocorra no caso do metrô paulistano.
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