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Brasil
"Cara, você está
com o TCAS ligado?"
Conversas de pilotos do Legacy
gravadas na caixa-preta são documento impressionante

Alexandre Oltramari
Claudio Versiani/AE
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| Paladino e Lepore, pilotos do Legacy: uma
nuvem de suspeitas |
O acidente com o
Boeing da Gol, a maior tragédia da aviação
brasileira, ainda está encoberto por uma nuvem de suspeitas.
Na semana passada, a Justiça Federal concedeu mais trinta
dias para que a polícia conclua as investigações
sobre o acidente, que matou 154 pessoas em setembro passado. As
autoridades querem entender por que os controladores de vôo
permitiram que duas aeronaves trafegassem em rota de colisão
e descobrir os motivos que levaram o jato Legacy a voar por quase
uma hora com o transponder (aparelho que fornece aos controladores
de vôo a altitude exata do avião) inoperante. Os controladores
nunca explicaram o que aconteceu. Os pilotos do Legacy, por sua
vez, apresentaram uma versão em entrevista ao jornal Folha
de S.Paulo, concedida nos Estados Unidos. Joe Lepore e Jan Paladino
contaram que em nenhum momento perceberam que o transponder estava
desligado. "Não havia durante o vôo a indicação
na cabine de que ele estava inoperante", disse Paladino. Nada os
desmente no que diz respeito ao vôo antes do choque com o
Boeing. Depois do choque, revelam os diálogos, eles subitamente
viram que o equipamento anticolisão, o TCAS, estava desligado.
Nas aeronaves mais modernas, como o Legacy, o transponder funciona
acoplado ao TCAS. Se o TCAS estava desligado, o transponder também
estava. Os pilotos do Legacy podem não ter falado toda a
verdade.
VEJA teve acesso aos diálogos
dos pilotos na cabine de comando do Legacy. Eles mostram que Lepore
e Paladino, ao contrário do que dizem, descobriram, após
o acidente, que viajaram com o mecanismo anticolisão desligado.
A conversa reproduzida nestas páginas ocorreu às 16h59,
apenas dois minutos após o choque. No momento exato em que
os pilotos percebem o problema, o Legacy volta a aparecer no radar
evidência clara de que o aparelho voltou a funcionar
ou foi religado. As dúvidas sobre se houve ou não
um eventual defeito do aparelho ou se ele foi desligado serão
esclarecidas durante a investigação. Um laudo técnico
sobre o equipamento já foi solicitado pelas autoridades encarregadas
da apuração. Às 17h31, com o Legacy já
pousado, deu-se outra conversa intrigante. Um dos pilotos pede desculpas
ao outro. "Não há nada de que se desculpar, cara",
responde o colega. Desculpa por quê? Por ter desligado o conjunto
TCAS/transponder? Ou desculpa apenas por ter obrigado o colega a
passar por aqueles maus momentos? É intrigante.
Foi com base nas conversas entre
Lepore e Paladino, reveladas pela primeira vez nesta reportagem,
que a Polícia Federal indiciou os pilotos americanos. Eles
foram enquadrados no artigo 261 do Código Penal (expor a
perigo embarcação ou aeronave, própria ou alheia).
VEJA tentou obter dos pilotos do Legacy uma explicação
para os diálogos travados na cabine de comando. Mas eles
não foram localizados. "É muito perigoso pinçar
uma declaração e tentar interpretá-la isoladamente",
disse o advogado dos pilotos, Theo Dias. "Vamos analisar o conteúdo
da caixa-preta e, no momento oportuno, daremos as explicações."
O advogado, porém, antecipou que, ao afirmarem que o TCAS
estava desligado, os pilotos na verdade apenas queriam dizer que
a informação gerada pelo equipamento não aparecia
na tela. "Isso é muito diferente de o equipamento estar desligado",
afirma o defensor. Às 17h28, depois de pousar o Legacy na
base militar da Serra do Cachimbo, os pilotos conversaram sobre
o que viveram. "Nós estamos vivos", disse um deles. "Mas
eu estou preocupado com o outro avião. Se não batemos
em outro avião, o que mais isso pode ter sido?", perguntou
o outro. "A 37.000 pés, foi uma batida forte no que quer
que tenha sido...", respondeu o colega. "Sem chance." Foi um prognóstico
fatal.
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A CONVERSA NA CABINE
DO LEGACY DEPOIS DO CHOQUE
Beto Barata/AE
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Neste diálogo, gravado
pela caixa-preta do jato executivo minutos depois do
choque com o Boeing da Gol, os pilotos americanos Joe
Lepore e Jan Paladino conversam sobre o equipamento
automático anticolisão, o TCAS. Eles constatam
com espanto que o aparelho estava desligado. Eles conversam
também sobre os danos sofridos pelo aparelho
que pilotam.
Que diabos foi isso?
Tudo bem. Somente pilote o avião, cara.
Nós perdemos o winglet?
Perdemos?
Perdemos.
De onde veio a p...?
Tudo bem. Nós
estamos descendo. Declarando uma emergência. Senta.
(...) Deixe-me apenas pilotar a coisa, cara, porque
eu acho...
De onde ele veio, p...?
A gente bateu em alguém?
Você viu aquilo?
Você viu alguma coisa?
Eu pensei que vi...
Eu olhei pra cima.
O que é isso?
Ainda temos a ponta da asa?
Não.
Qual o estrago da asa?
Foi grande... Foi grande. Estou sentindo agora...
Cara, você está com o
TCAS ligado?
É, o TCAS está desligado.
Tudo bem. Somente preste atenção no
tráfego. A gente vai conseguir, a gente vai conseguir,
a gente vai conseguir... Eu sei disso.
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