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Brasil
O encanto da urna se quebrou?
O TSE quer saber se a manipulação de voto eletrônico em
Alagoas foi criminosa  Diego
Escosteguy

Os
sistema brasileiro de voto eletrônico é o melhor, mais eficiente
e mais abrangente do mundo. As eleições brasileiras são feitas
com a certeza de que as urnas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) são
invioláveis. Não passa pela cabeça de ninguém questionar
a lisura do sistema. Exatamente por essa razão está tirando o sono
do TSE a suspeita de que podem ter sido resultado de fraude as falhas em um grande
número de urnas eletrônicas de Alagoas nas eleições
do ano passado. Um laudo do Instituto Tecnológico de Aeronáutica
(ITA), um dos centros de pesquisa mais tradicionais e respeitados do país,
revela que mais de um terço das urnas eletrônicas do estado registram
indícios de manipulação criminosa.
A análise da memória dos computadores que processaram os resultados
das eleições alagoanas revelou que: •
O número de votos registrados em algumas urnas foi menor do que o número
de eleitores que efetivamente votaram. •
Foram totalizados votos oriundos de urnas que não existiam.
• Algumas urnas misteriosamente não registraram voto
algum. A gravidade das falhas é
maior ainda em vista do grau de confiabilidade que os brasileiros e os políticos
depositam no sistema e do fato de que as urnas são exatamente iguais em
todo o país. Se uma urna pode ser violada, as outras também podem.
O TSE não considera o laudo do ITA definitivo e vai encomendar uma auditoria
independente para saber o que ocorreu em Alagoas. Mas o alerta amarelo foi aceso.
Alex
Silva/AE
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Aurélio Mello, presidente do TSE, pediu investigação: "São dados preocupantes"
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A revelação
de que as urnas eletrônicas podem não ser imunes a fraudes nasceu
de uma disputa paroquial em Alagoas, onde o tucano Teotonio Vilela Filho venceu
a disputa para governador. O resultado foi surpreendente. Dias antes da eleição,
Teotonio, segundo os institutos de pesquisa, estava tecnicamente empatado com
o deputado João Lyra, do PTB. Abertas as urnas, ou melhor, revelado o conteúdo
de seus bancos de memória, Teotonio Vilela obteve quase o dobro de votos
do seu adversário. Lyra perdeu em conhecidos currais eleitorais de sua
família. Perdeu até mesmo em municípios onde tinha a certeza
absoluta de que venceria não por clarividência, mas pelas
velhas tradições da política nordestina que ainda permitem
que os candidatos adquiram esse tipo de convicção. "Era absolutamente
óbvio que algo de estranho havia acontecido", disse o petebista, que contatou
o advogado Fernando Neves, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral, e narrou
suas suspeitas. Foi do advogado a sugestão de contratar uma auditoria qualificada
para tirar as dúvidas. VEJA
teve acesso ao laudo de sessenta páginas produzido pelo professor Clovis
Torres Fernandes, diretor da Divisão de Ciência da Computação
do ITA. As conclusões já foram apresentadas ao Tribunal Superior
Eleitoral (TSE). Agência
Estado
 | | O
governador eleito de Alagoas, Teotonio Vilela: ele pode ficar sem o mandato |
Por segurança e para dar transparência ao processo eleitoral, todas
as atividades das urnas eletrônicas ficam gravadas numa espécie de
"caixa-preta" os chamados "logs" e são disponibilizadas a
quem se interessar em consultá-las. Dessa forma, pode-se saber em detalhes
a que horas o aparelho foi ligado ou desligado, os programas implantados ou se
ocorreu algum tipo de falha de processamento. A análise do especialista
revelou que alguns sinais excluem a possibilidade de mau funcionamento e apontam
mesmo para fraude: • Em 35% das urnas
utilizadas nas eleições de Alagoas os arquivos apresentaram erros
bizarros e comportamentos irregulares. •
Pelos dados oficiais votaram 1.514.113 eleitores alagoanos. O sistema eletrônico
de voto, porém, registra 22.562 eleitores a menos. Não se sabe se
esses votos foram subtraídos de algum candidato, se nunca existiram ou
como e por que foram manipulados. "A
diferença é uma quantidade expressiva, mas o mais significativo
é que ela coloca em dúvida o trabalho de totalização
para todo o estado de Alagoas", escreveu o professor Fernandes. Outras pistas
estão sendo seguidas e algumas reforçam a hipótese de fraude.
A perícia apontou a existência de 29 urnas cujos votos foram computados
normalmente pelo Tribunal Regional Eleitoral. Só que essas urnas não
aparecem nos registros do tribunal. Até prova em contrário, elas
são "urnas-fantasma". Nas cidades
de Branquinha e Taquarana, no interior do estado, outra estranheza: os votos das
duas localidades foram registrados com códigos de lugares inexistentes.
Ou seja: oficialmente, não existiu eleição nos municípios
ou, se existiu, não se sabe para onde foram os votos. A perícia
mostra também que em outras 121 urnas não foi instalado o programa
que totaliza os votos, 157 tiveram o número de identificação
alterado durante o período de votação e 162 registraram na
memória códigos desconhecidos e sem sentido. Em 36 cidades de Alagoas,
as urnas não informaram se foi emitida a lista comprovando que todos os
candidatos estavam com os votos zerados no início do pleito. O laudo aponta
ainda casos de urnas perdidas no tempo (com a data de votação como
17 de junho de 2002), urnas ocas (sem nenhuma informação dentro
embora os votos computados nelas tenham sido validados pela Justiça
Eleitoral) e até uma urna que registrava voto para cargo inexistente.
Ricardo
Ledo/Gazeta de Alagoas
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deputado João Lyra, que perdeu a disputa: certeza da fraude ao ser derrotado
em seu curral eleitoral |
Conclui o perito: "Um ou dois tipos de erro seriam aceitáveis, mas
a quantidade e o padrão das irregularidades verificadas são inadmissíveis.
Isso não é uma questão menor. Pela gravidade e extensão
dos problemas, os indícios de fraude são fortes".
O presidente do TSE, ministro Marco Aurélio Mello, determinou que seja
feita uma rigorosa investigação sobre o caso. "São dados
preocupantes", disse. O secretário de tecnologia da informação
do TSE, Giuseppe Jamino, admitiu as falhas nas urnas. Ele assegura, porém,
que elas não influenciaram no resultado das eleições. Para
Jamino, as falhas parecem ser de natureza técnica e ocorreram principalmente
nos sistemas de registro das atividades das urnas.
Em Rondônia, a Polícia Federal investiga uma denúncia de fraude
eleitoral de natureza totalmente distinta. O esquema teria a participação
de técnicos do Tribunal Regional Eleitoral. Nas últimas eleições,
Josué Donadon, irmão e assessor do candidato ao Senado Melkisedek
Donadon, contou à polícia que foi procurado por uma pessoa, quinze
dias antes do pleito, que lhe propôs alterar os votos das urnas. Essa pessoa,
ainda não identificada, relatou que tinha contatos com técnicos
do tribunal que poderiam introduzir um software pirata nas urnas e, assim, dirigir
votos para quem ela quisesse. Ofereceu o serviço por 300.000 reais. O candidato,
que não aceitou a proposta, perdeu a eleição, mas a PF continua
apurando a existência do esquema. A suspeita de fraude pela manipulação
eletrônica em Alagoas é um caso único. Suas conseqüências
são imprevisíveis. Essa suspeita pode provocar uma avalanche de
pedidos de investigação em todo o país e colocar em xeque
a confiabilidade do sistema eletrônico de votação. Por isso,
é vital que o TSE esclareça o caso o mais rápido possível
e de tal modo a evitar que as falhas se repitam. As urnas eletrônicas são
um orgulho nacional e é preciso cuidar para que continuem sendo. |