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Auto-retrato
Patrícia Andrade
Oscar Cabral
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A economista Patrícia Carlos de Andrade é defensora
das liberdades individuais. Coisa rara hoje em dia. Mas ela mesma
tem sido escrava de uma agenda cada vez mais lotada, como diretora
executiva do Instituto Millenium. A entidade acredita que o horizonte
revolucionário no Brasil é liberal. Trabalho, portanto,
é o que não falta. Ela recebeu o repórter Ronaldo
França para a seguinte entrevista.
O GOVERNO LULA É ACUSADO
PELA ESQUERDA DE TER SE TORNADO NEOLIBERAL. A CRÍTICA PROCEDE?
O governo está muito distante do liberalismo. Apesar
de estar mantendo um conjunto de medidas que foi a base do avanço
econômico, como a estabilização, todo o resto
guarda um abismo em relação ao liberalismo. É
um Estado que vem crescendo, que volta e meia tenta atacar liberdades.
Eles tentam e depois recuam quando a opinião pública
se manifesta contrariamente. Em seguida, tentam de novo. Ainda somos
muito travados. Não temos, por exemplo, um Banco Central
independente.
O BRASIL É UM PAÍS
DE DIREITA, CENTRO OU ESQUERDA?
Há no país um pensamento hegemônico de
esquerda, em todas as camadas. Somos uma sociedade que espera do
Estado a solução para todos os seus problemas. A maioria
dos cidadãos está programada assim, sejam os mais
educados, sejam os mais ricos ou os mais pobres. Ainda não
temos uma visão mais centrada no indivíduo, nos mercados
e nas liberdades.
PRECISAMOS, ENTÃO, DE
UM CHOQUE DE LIBERALISMO?
Não existem modelos prontos a seguir. Até mesmo nos
Estados Unidos o governo faz movimentos pendulares, ora é
mais liberal, ora mais intervencionista, com restrição
de liberdades individuais. Mas o fato é que não fomos
capazes de crescer como uma força política social-democrata.
No entanto, todos os remédios que se pretende ministrar são
mais do mesmo: mais Estado, mais intervenção, mais
sindicalismo, mais coletivismo. O caminho claramente não
é esse.
QUAL É O CAMINHO?
As melhores opções são sempre aquelas
que dão aos indivíduos maior liberdade de empreender,
buscar seus projetos pessoais, fazer o que é melhor para
seus filhos e sua família.
QUEM SE DECLARA ABERTAMENTE
DE DIREITA SOFRE PRECONCEITO?
A palavra direita está tão desgastada que o próprio
senador Jorge Bornhausen, numa entrevista a VEJA, afirmou que não
é de direita, sendo ele do PFL. Falou de direita como se
isso fosse um xingamento. Ser de direita choca as pessoas. Associa-se
a direita ao nazismo e ao apoio à ditadura militar.
JÁ FOI HOSTILIZADA POR
ISSO?
Minha filha participou de uma atividade na faculdade em que
se discutia um artigo publicado por mim. Falava sobre os meninos
de rua. Escrevi, em resposta ao Arnaldo Jabor, que falava da culpa
que todos nós temos por aqueles meninos estarem pedindo dinheiro
nos sinais de trânsito. Eu disse que não tenho culpa
nenhuma. Sempre cumpri meus deveres. Durante a leitura, disseram
algo do tipo "quem é essa mulher que pensa que é economista...".
A SENHORA SE CONSIDERA UMA
PESSOA DE DIREITA. O QUE É SER DE DIREITA HOJE EM DIA?
É você não esperar que o Estado venha solucionar
a sua vida. É tomar suas decisões pessoais e arcar
com a responsabilidade por elas. Muitas pessoas são assim
e não se dão conta de que têm uma atitude de
direita. Isso por conta de uma imprecisão histórica.
O que se chamou de direita no Brasil foram forças retrógradas,
coronelistas. Não é a isso que me refiro. É
a uma direita que existe nas democracias modernas, que dá
mais força ao mercado, à competição
e às liberdades individuais.
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