Claudio
de Moura Castro
O Professor Nota
10
"O
isolamento geográfico e as precárias
condições de
trabalho de muitos
mestres
não
apagaram sua
criatividade"
Ale Setti
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Fui membro do júri que escolheu o Professor Nota 10, uma iniciativa
da Fundação Victor Civita. De 3 180 projetos, foram pré-selecionados
doze finalistas, cabendo aos jurados a tarefa ingrata de premiar apenas
um deles. Eram doze projetos lindos, experimentos criativos que galvanizam
os alunos e levam a um aprendizado superior. Mostram que o isolamento
geográfico e as precárias condições de trabalho
de muitos mestres não obliteraram sua criatividade.
Ao examinar
os projetos, podemos categorizá-los em três grupos. Há
os que se aproveitam de uma oportunidade oferecida pelo local ou pelas
circunstâncias. Um deles, em Ubatuba, vale-se de uma criação
de mexilhões para iniciar os alunos em assuntos de biologia marinha,
meio ambiente e outros conceitos de ciência. Uma professora notou
que o caminho trilhado para ir à escola sofrera uma profunda erosão.
Isso deu lugar a um projeto de estudo sobre a erosão, com instrumentos
de medida de porosidade construídos pelos alunos, demonstrando
que a capa vegetal protege o solo. Outro projeto aproveita-se da montagem
de uma emissora de rádio na escola para criar um programa de literatura.
O uso de ervas medicinais pela família dos alunos é explorado
como tema para estudos sobre saúde e botânica.
Há
uma segunda categoria, em que os professores inventam o mote do projeto.
No trabalho vencedor de Roberta Azevedo , cantigas populares foram
escolhidas como objeto para a aprendizagem da leitura. Dessa forma, as
músicas cantadas pelos alunos eram, em seguida, usadas para decifrar
a escrita. Em outro projeto, as crianças são levadas a ler
histórias para idosos em um asilo, criando, além de competências
em leitura, um relacionamento humano rico para ambos os lados. Tais projetos,
não dependendo de circunstâncias externas, podem ser imitados
por qualquer professor.
Mas existe
uma terceira categoria de projetos de interpretação delicada.
Trata-se de idéias criativas, altamente eficazes e cujo uso pode
melhorar o nível de aprendizado dos alunos. Só que se referem
a práticas que deveriam ser aprendidas pelos mestres durante sua
formação, para aplicação rotineira em sala
de aula. Ou seja, o professor reinventou o que já foi inventado
e deveria ser parte do repertório de técnicas de todos os
mestres.
Tais profissionais
não são menos criativos. São apenas vítimas
de uma escola que lhes sonegou tais conhecimentos. Uma professora de inglês
leva seus alunos a escrever bilhetes para correspondentes nos Estados
Unidos. Que lá nas lonjuras de Rondônia ela tenha tido essa
idéia é mais que meritório. Outra leva seus estudantes
a fazer mapas da sala de aula para que as crianças aprendam a transitar
entre o espaço real e o espaço representado em uma folha
de papel. Há um projeto na mesma linha, ensinando o aluno a se
orientar e a fazer seus próprios mapas do bairro. Existem trabalhos
ilustrando com exemplos o conceito de volume.
São
projetos eficazes, mas constituem uma reedição de idéias
já existentes. Aí está o cerne do problema. Por que
os mestres não aprendem isso na escola? Por que não é
ensinado rotineiramente nos cursos de formação de professores
um tal repertório de idéias que motivam, que fazem a ponte
entre a teoria e a prática? Para cada um dos profissionais premiados
há milhares de outros que não puderam criar algo semelhante,
e nada lhes foi dado para que pudessem usar com seus alunos.
Vivemos
sob a ditadura de teorias pedagógicas que mandam o professor criar
e produzir seus próprios materiais, ser autor da partitura que
utiliza em suas aulas. Ou seja, ele tem de ser um gênio criativo,
como os mestres premiados naquela bela noitada. Mas os alunos dos demais
professores deixam de se beneficiar do conhecimento acumulado. Nota 10
para os professores premiados, nota zero para a formação
recebida pelos professores em geral. Resta saber se as idéias selecionadas
serão transmitidas aos futuros profissionais, para que possam ter
mais ferramentas didáticas a seu dispor.
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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