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Edição 1 774 - 23 de outubro de 2002
Eleições 2002

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Vai ser preciso segurar

Marxistas, leninistas e trotskistas
que compõem o coração radical
do PT se preparam para cobrar
sua fatura caso Lula seja eleito

Carlos Graieb




Veja também
Nesta edição
Transição na crise
Nem todos que lulam são PT
O azarão no celeiro petista
Na internet
Cobertura completa no site Eleições 2002

Durante a campanha presidencial, o Partido dos Trabalhadores manteve-se coeso em torno da candidatura de Luís Inácio Lula da Silva. Se o PT ganhar a Presidência dentro de uma semana, o que parece praticamente resolvido, é muito provável que rachaduras comecem a aparecer. Nos últimos anos, criou-se na sigla um grande bloco moderado, o Campo Majoritário, que representa 70% de seus filiados. Não alinhados ao tal Campo permanecem 30% de petistas que não têm medo de se dizer radicais. Eles não formam um grupo homogêneo. Distribuem-se no que o partido convencionou chamar de "tendências", orgulhosas de sua história (que às vezes remonta a um período anterior à fundação do PT) e herdeiras de diferentes linhagens de pensamento esquerdista. As principais são Democracia Socialista, Articulação de Esquerda, Força Socialista e O Trabalho, mas há outras menores, de expressão regional. Essas tendências, que não raro brigam entre si para provar qual é "mais revolucionária", têm várias bandeiras em comum. Defendem a "expropriação do patrimônio da grande burguesia", a reestatização de empresas privatizadas, o amordaçamento da imprensa (sob o eufemismo de "controle social dos meios de comunicação"), a abolição final do mercado. Em outras palavras, querem que sejam impostas ao país medidas anacrônicas e tão factíveis quanto convencer o ditador cubano Fidel Castro a cortar sua barba. A recente conversão de Lula às regras do capitalismo soa como heresia imperdoável a esses apóstolos do socialismo. Eles esperam, sinceramente, que tudo não tenha passado de teatrinho eleitoral. Caso contrário, preparam-se para cobrar sua fatura do companheiro presidente. Em 6 de outubro, os radicais elegeram 26 dos 91 deputados que o PT vai ter no Congresso Nacional. Contam ainda com duas senadoras – Heloísa Helena, de Alagoas, e Ana Júlia, do Pará. Por mais que a cúpula do partido sustente que essa fatia da agremiação está controlada, o equilíbrio, no fundo, é precário.

A maneira como foi encaminhada a campanha de Lula criou muitos ressentimentos nessas alas revolucionárias. Um dos principais desgastes tem a ver com a política de alianças adotada. Os radicais acusam a direção do partido de ter agido de forma autoritária ao sacramentar a coligação nacional com o PL, que fez do empresário José Alencar o vice da chapa. Eles gostariam de ter colocado o assunto em votação interna, num plebiscito em março, mas a cúpula barrou a idéia. A "flagrante quebra de coerência ideológica" deixou a ala vermelha tiririca. Uma das mais irritadas é a senadora Heloísa Helena, da Democracia Socialista, que desistiu da disputa pelo governo de Alagoas por julgar que era impraticável dividir o palanque com adversários históricos – uma das conseqüências da coligação. "Estou muito decepcionada com meu partido, e não sou a única. Há até quem pense em fundar uma nova sigla", diz ela (veja entrevista). Os radicais acreditam que, na Presidência da República, o PT deve rever suas alianças e negar-se a fazer concessões ou "rebaixar seu programa" para conquistar a maioria no Congresso. Nesse discurso ecoa uma polêmica que foi muito acirrada no partido no começo dos anos 90 e que tinha a ver com o próprio conceito de democracia. Para os mais extremistas, a luta eleitoral seria apenas uma etapa necessária na conquista do poder. Depois de vencida essa fase, seria possível prescindir da democracia representativa. Nenhum petista hoje em dia fala abertamente nesses termos, mas alguns não escondem seu desprezo pelas instituições da República e afirmam que, para aprovar seus projetos, Lula deveria contar com a voz das ruas em vez de tentar construir a maioria no Legislativo. "O Congresso Nacional ora se comporta como um balcão de negócios sujos, ora como um medíocre anexo do Palácio do Planalto. Não é por meio dele que o PT deveria governar, mas pela articulação das forças vivas da sociedade, aí incluindo o MST", afirma Heloísa Helena. Ex-prefeito de Porto Alegre e outro expoente da Democracia Socialista, o gaúcho Raul Pont usa palavras apenas um pouco mais amenas para tratar desse tema. "Eu realmente espero que Lula não tente fazer mais alianças espúrias", diz ele. "Se você aposta na democracia direta, se cria meios de organizar politicamente a população, pode conseguir muita coisa."


Ichiro Guerra
Manifestação do Movimento dos Sem-Terra e o líder João Pedro Stedile (abaixo): com o apoio das alas xiitas do PT


Oscar Cabral
"Debaixo de sol e de chuva temos todos que lutar. Somos donos de nós mesmos nosso lema é ocupar. Homem, mulher e criança querem um mundo melhor. Se ocupamos, produzimos! Com força, esperança e suor. Ocupar, resistir e produzir. Sou latino-americano brasileiro explorado pelo ricaço tirano"
Trecho de Burgueses Não Pegam na Enxada, música do MST


Outro cavalo de batalha dos radicais é a dívida externa. Em dezembro de 2001 (ou seja, há menos de um ano), o PT realizou seu XII Encontro Nacional, durante o qual se redigiram as diretrizes do programa de governo de Lula, sob o título "A Ruptura Necessária". Nesse texto está escrito, em linguajar jurídico, que os atuais acordos com o FMI têm de ser "denunciados". Traduzindo: rompidos. Lula abandonou publicamente essa posição, comprometendo-se a respeitar os contratos internacionais firmados pelo país. Os radicais não aceitam isso de forma nenhuma. Eles estão convictos de que "a afronta à banca internacional" é a melhor maneira de promover o desenvolvimento brasileiro. Uma tese apresentada em conjunto pelas tendências Articulação de Esquerda e Força Socialista, na época do encontro petista, "analisa" de forma pitoresca dois cenários possíveis decorrentes de um calote: "Podemos raciocinar com otimismo e concluir que, após alguns rosnados, os grandes capitalistas se acomodarão à nova situação. Mas vamos imaginar que eles levem a cabo suas ameaças: cessará o financiamento externo do consumo local; haverá bloqueio de parte das importações e exportações; interrupção dos programas sociais alimentados por recursos de organismos internacionais; ataques à imagem do país; ferrenha oposição interna e externa. Achamos que o Brasil tem como suportar a retaliação. O financiamento externo da nossa economia, nos termos atuais, causa mais prejuízos que vantagens".

Os radicais também gostam de lembrar que a resolução em favor do rompimento com o FMI foi aprovada por unanimidade no partido e, portanto, deveria ser respeitada por Lula. "Nós vamos cobrar, junto com a militância, aquilo que foi aprovado em nosso encontro nacional. Estamos legitimados a fazer isso, pois não houve nenhuma votação posterior que tenha alterado o que estava decidido. É claro que vamos apoiar nosso governo, mas o Brasil não pode ficar de joelhos diante do sistema financeiro internacional", diz Ivan Valente, que se elegeu deputado federal por São Paulo e faz parte da tendência Força Socialista. Feitas em surdina neste final de campanha, cobranças como essa devem subir vários decibéis no dia seguinte à posse de Lula e podem converter-se em gritaria às vésperas do reajuste do salário mínimo, em maio de 2003. "Mantidas as condições atuais de pagamento da dívida externa, será impossível fazer um reajuste digno do salário mínimo", diz Luciana Genro, eleita deputada federal pelo Rio Grande do Sul e integrante de uma corrente ultra-radical gaúcha chamada Movimento de Esquerda Socialista. Líder da tendência O Trabalho, Markus Sokol, que vive em São Paulo, é da mesma opinião. "Se forem mantidas as metas de superávit fiscal acertadas com o FMI, o salário mínimo em 2003 será rebaixado em vez de aumentar", diz ele.


Antonio Pacheco
A deputada federal Luciana Genro: votações contra a orientação do partido

Durante a campanha, Lula e José Dirceu disseram em conversas privadas que, para contentar os radicais do partido, distribuiriam entre eles cargos de segundo e terceiro escalão. A menos de uma semana do primeiro turno, começou a circular a notícia de que o PT vermelho-vivo poderia receber até mesmo um ministério. Não é certo que isso transformaria os radicais em moderados. Figura importante na Democracia Socialista, o deputado federal Walter Pinheiro, que acaba de reeleger-se pela Bahia, vem sendo mencionado como possível titular da pasta das Comunicações na Presidência de Lula. Mesmo assim, lançou-se em bravatas na semana retrasada. Ameaçou entrar na Justiça contra a medida provisória que regulamenta a entrada de capital estrangeiro nas empresas de comunicação e, no mesmo fôlego, afirmou que os presidentes das agências que regulam setores estratégicos, como energia e telecomunicações, deveriam entregar seus cargos em caso de vitória do PT nas urnas. "A sugestão é que a tropa toda renuncie", disse ele. A frase não é só deselegante. Ela é um ataque a um modelo de regulação fundado na independência de agências como Aneel e Anatel, cujos dirigentes têm mandato fixo e só podem ser demitidos depois de condenação em processo administrativo. Expressa o desejo de romper, no meio do jogo, as regras que controlam mercados importantes – e essa certamente não é uma maneira de fomentar a estabilidade na economia. Na semana passada, depois da publicação de um duro editorial sobre o assunto pelo jornal O Estado de S. Paulo, a cúpula petista desautorizou Pinheiro. Na quarta-feira, o comando de campanha de Lula desmentiu as afirmações do deputado sobre a "tropa" das agências reguladoras, enquanto a presidência do PT vetava a idéia de questionar na Justiça a MP sobre investimentos estrangeiros em empresas de comunicação.

Para fazer valer suas idéias, os radicais do PT têm pouca margem de manobra no interior do partido. Desde 1995, essa ala vem sendo empurrada para uma posição marginal, graças às ações encabeçadas por José Dirceu e Lula para conquistar a hegemonia no partido. A principal tacada nesse jogo foi a instituição do voto direto para eleger a cúpula partidária, no começo de 2001. Toda a esquerda do PT foi contra a idéia, mas acabou derrotada. Eles queriam preservar o sistema anterior, em que os dirigentes eram escolhidos por um colégio de delegados, quase sempre pertencentes a alguma tendência. Militantes renhidos, daqueles que não faltam a nenhuma reunião e conhecem a biografia de cada um dos "companheiros", esses delegados tinham mais chances de eleger seus representantes. Agora, todos os filiados vão às urnas. Eles são 300.000 atualmente. Como poucos se dedicam em tempo integral à política, na hora de votar é natural que optem pelas lideranças mais famosas, em geral do Campo Majoritário. No ano passado, José Dirceu foi eleito para seu quarto mandato como presidente do PT, com mais de 55% dos votos.


Ricardo Mazalan/AP
Guerrilheiros colombianos das Farc: para os radicais, eles são "vítimas do imperialismo"

Apesar de enfraquecidas, as tendências não são um corpo estranho no PT. Sua história se confunde com a do partido, fundado em 1980. A Articulação de Esquerda é a mais jovem delas. Surgiu em 1993, como dissidência da Articulação – grupo que nos dez anos anteriores desempenhara no PT o mesmo papel que o Campo Majoritário desempenha hoje. Democracia Socialista, Força Socialista e O Trabalho estão na sigla quase desde sua criação. Derivam, todas elas, de organizações que existiam previamente. A Força Socialista é de vertente leninista-maoísta. Já Democracia Socialista e O Trabalho são adeptas do internacionalismo trotskista. Isso não significa que as duas concordem sempre. Uma das principais bandeiras da Democracia Socialista, por exemplo, é o orçamento participativo. "O orçamento participativo não é uma política de esquerda", critica Markus Sokol, a maior liderança de O Trabalho. "Ele faz com que representantes populares se engalfinhem pela disputa das poucas verbas que restam, depois de cumpridos os encargos financeiros da administração. Acaba funcionando como um mecanismo de cooptação pelo Estado."

O "direito de tendência" está previsto no estatuto do PT. Correntes internas podem se organizar, desde que se submetam ao programa geral da sigla e não tentem se transformar em "partidos no interior do partido", com disciplina própria e estrutura fechada. Esse último caminho foi seguido, há cerca de dez anos, pela Convergência Socialista e pela Causa Operária. Marcadas como rebeldes, elas tiveram finalmente de se desligar da nave-mãe petista, dando origem ao Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e ao Partido da Causa Operária (PCO). Nenhuma das quatro maiores tendências de esquerda que hoje existem no PT age de maneira semelhante. Elas se mantêm fiéis às regras de funcionamento interno e, embora em posição de acachapante minoria, contam com representantes na Comissão Executiva Nacional ou no Diretório Nacional. Sabem que se tornariam irrelevantes se expulsas do PT. Apesar das declarações da senadora Heloísa Helena sobre as trincas na união petista, é improvável que as tendências radicais adotem uma estratégia de ruptura total, logo agora que o partido espera subir a rampa do Palácio do Planalto pela primeira vez. Mas sempre é possível bater tambores e apoiar manifestações.

Mesmo à frente de administrações, petistas de inspiração radical já cuidaram de insuflar conflitos no próprio quintal. No Rio Grande do Sul, Olívio Dutra (que faz parte da esquerda partidária, embora não se alinhe com nenhuma tendência) entregou cargos importantes da Secretaria de Segurança e da Secretaria de Agricultura a representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. O Estado, com isso, viu-se às voltas com um festival de invasões de fazendas e com uma Polícia Militar que era acusada de fazer corpo mole para cumprir os mandados de reintegração de posse expedidos pela Justiça. Outro caso vem de Belém do Pará, onde Edmilson Rodrigues, da Força Socialista, exerce atualmente seu segundo mandato consecutivo de prefeito. Em 1999, insatisfeito com o julgamento que inocentou os militares envolvidos no massacre de Eldorado dos Carajás, Rodrigues colocou-se ao lado de um grupo de 500 sem-terra e incentivou-os a entrar em choque com a PM – o que poderia ter resultado em uma nova tragédia.

Entre os radicais do PT, é comum a idéia de que o partido, ao buscar a massa de eleitores brasileiros, afastou-se de suas bases classistas e dos grupos nacionais e estrangeiros que propugnam a derrubada do capitalismo. Eles gostariam de reverter esse movimento. Alguns não escondem que, em casos extremos, ficarão ao lado de suas bases, e não da direção do partido. É o caso de Luciana Genro, de 31 anos. Ao contrário de seu pai, Tarso Genro, que hoje defende posições moderadas e disputa o governo do Rio Grande do Sul pelo PT, Luciana é uma estrela em ascensão na brigada xiita. Ela acaba de ser eleita para a Câmara Federal e pretende repetir no Congresso a postura aguerrida que marcou sua passagem pelo Legislativo gaúcho. Como deputada estadual, durante o governo do companheiro Olívio Dutra, ela votou contra a orientação da sua bancada em algumas matérias. Pela desobediência, perdeu o cargo de vice-presidente da Comissão de Educação da Assembléia e o direito de falar em nome do partido por um mês. Mas quem disse que a moça resolveu abaixar a crista? "Em Brasília, vou agir segundo os mesmos princípios", diz ela.

Luciana tem suas bases de apoio no movimento estudantil, em alguns sindicatos (principalmente de professores) e também no MST. Ela já defendeu o nome do líder sem-terra João Pedro Stedile para a Presidência da República. O MST é uma organização que conta com a simpatia de boa parte dos parlamentares eleitos pelo PT radical. Além de Luciana, ao menos outros onze deputados federais do partido têm laços com o movimento e compõem uma espécie de "bancada agrária": Nilson Mourão (AC), Adão Pretto (RS), Maninha (DF), Iriny Lopes (ES), Babá (PA), João Grandão (MS), Dr. Rosinha (PR), Ivan Valente (SP), Luci Choinacki (SC), Luciano Zica (SP) e Paulo Rubem Santiago (PE). Entre os grupos estrangeiros com os quais a ala radical petista sente afinidade, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) são aquelas em maior evidência. Essa guerrilha financiada pelo narcotráfico é vista pelos radicais como alvo de uma campanha difamatória do "imperialismo americano". Num texto que escreveu no ano passado, Luciana Genro explicitou essa visão completamente desprovida de sentido de realidade: "Combater o narcotráfico é só a desculpa. O verdadeiro objetivo do Plano Colômbia, que começa a ser implementado pelo governo dos Estados Unidos naquele país, é derrotar a resistência daquele heróico povo, que teima em não se deixar submeter pacificamente. É, portanto, uma intervenção político-militar do imperialismo contra as Farc, principal expressão da luta dos camponeses da Colômbia e do movimento de massas". O leque de organizações esquerdistas apoiadas pelo PT xiita é vasto. Em 1999, o prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues, promoveu na cidade um encontro que reuniu mais de 1 500 militantes, boa parte deles proveniente daute;ico povo, que teima em não se deixar submeter pacificamente. É, portanto, uma intervenção político-militar do imperialismo contra as Farc, principal expressão da luta dos camponeses da Colômbia e do movimento de massas". O leque de organizações esquerdistas apoiadas pelo PT xiita é vasto. Em 1999, o prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues, promoveu na cidade um encontro que reuniu mais de 1 500 militantes, boa parte deles proveniente da esquerda armada. Além de representantes das Farc, compareceram desde mexicanos do Exército Zapatista de Libertação Nacional até americanos do grupo Panteras Negras. A abertura do encontro teve a participação virtual do subcomandante Marcos, líder guerrilheiro mexicano, que por meio de uma fita de vídeo saudou os participantes.

 

Com reportagem de Diogo Schelp e Leonardo Coutinho


AS TENDÊNCIAS DO PT

Como se agrupam os radicais do partido

DEMOCRACIA SOCIALISTA

Liane Neves


Tamanho:
10% dos filiados ao PT
Origem ideológica: trotskista
Lideranças: Raul Pont (ex-prefeito de Porto Alegre); Heloísa Helena (senadora pelo Estado de Alagoas); Ana Júlia (senadora pelo Estado do Pará); Joaquim Soriano (secretário nacional de Formação Política do PT)
Concepções: No governo, o PT deveria implementar um programa de "transição ao socialismo". Isso implica desenvolver "formas de auto-organização popular", como o orçamento participativo, as cooperativas e os assentamentos de trabalhadores rurais. No campo econômico, a Democracia Socialista defende a renegociação da dívida externa, com possível suspensão de seus pagamentos e realização de auditoria sobre montantes e juros.

 

ARTICULAÇÃO DE ESQUERDA

Adriano Rosa/AAN


Tamanho:
10% dos filiados ao PT
Origem ideológica: marxista de manual
Lideranças: Valter Pomar (secretário de Cultura, Esportes e Turismo de Campinas); Marlene Rocha (integrante da Comissão Executiva Nacional do PT); Luci Choinacki (deputada federal-SC); Adão Pretto (deputado federal-RS)
Concepções: Acredita que o PT foi dominado por um grupo social-democrata, que traiu seu compromisso com o socialismo. Segundo um manifesto que circulou em julho assinado pela tendência, um governo petista deveria "suspender o pagamento da dívida externa, não assinar o acordo da Alca, recuperar as estatais estratégicas privatizadas, colocar o sistema financeiro sob controle público, quebrar o monopólio dos meios de comunicação de massa, romper os contratos que cristalizam a dominação de classe no Brasil". Alguns integrantes têm estreitas ligações com o MST.

 

FORÇA SOCIALISTA

Antonio Silva


Tamanho:
7% dos filiados ao PT
Origem ideológica: leninista-maoísta
Lideranças: Edmilson Rodrigues (prefeito de Belém); Nelson Pellegrino (deputado federal-BA); Jorge Almeida (secretário nacional de Movimentos Populares do PT); Ivan Valente (deputado federal-SP)
Concepções: Acredita que o PT deve assumir abertamente um programa socialista. O patrimônio dos grandes capitalistas deve ser nacionalizado ou estatizado. Quanto às privatizações realizadas durante os anos 90, elas devem ser revertidas. Outras bandeiras: pôr o setor financeiro sob controle público, suspender o pagamento da dívida externa, revogar a Lei de Responsabilidade Fiscal, romper com o FMI, quebrar o monopólio dos meios de comunicação de massa e promover uma reforma agrária radical.

 

O TRABALHO

Alexandre Tokitaka


Tamanho:
2% dos filiados ao PT
Origem ideológica: trotskista
Principal liderança: Markus Sokol
Concepções: Defende propostas como o rompimento com o FMI, a revogação da Lei de Responsabilidade Fiscal, a reestatização de empresas, a suspensão do direito de demissão em empresas privadas, a retirada do Brasil das negociações sobre a Alca e o Mercosul e, ainda, a oposição ao Plano Colômbia (mais que combater o tráfico de drogas, ele seria uma agressão do imperialismo americano). A tendência ataca programas defendidos pelo próprio PT, como os de microcrédito (que seriam "meras políticas compensatórias") e o orçamento participativo, que, em vez de fomentar o crescimento de organizações populares independentes, resulta em sua cooptação pelo aparelho de Estado.

 

"O discurso light do PT me irrita"

Ana Araujo
A senadora Heloísa Helena: "Sou contra honrar os compromissos com a máfia do FMI"


A senadora petista Heloísa Helena é uma das principais estrelas da tendência radical Democracia Socialista. Ela se elegeu para seu atual mandato em 1998, com 56% dos votos válidos de Alagoas. Graças a seu estilo aguerrido, dois anos depois tornou-se líder do bloco de oposição ao governo FHC no Senado. A atual corrida presidencial, no entanto, deixou Heloísa magoada com seu partido. Por não aceitar a política de alianças adotada pela sigla, ela retirou sua candidatura ao governo de Alagoas e ficou alijada da campanha. Nesta entrevista à repórter Adriana Negreiros, ela explica suas divergências com a cúpula do PT e diz que, se Lula mantiver o discurso moderado, "o enfrentamento será muito grande".

Veja – Quais são as principais linhas de tensão entre a Democracia Socialista e a maioria do PT?
Heloísa Helena – A principal divergência é quanto à política econômica. Uma parte do PT, à qual pertenço, defende o não-pagamento da dívida externa. Mas essa deixou de ser a posição da maioria, e assim se fala muito em honrar compromissos. Honrar compromissos com a máfia do FMI? Sou contra. Eu acho que os dirigentes do Fundo deveriam ser julgados num tribunal internacional por crimes contra a humanidade. É curioso, tempos atrás eu me irritava quando José Serra fazia discursos no plenário do Senado dizendo que o PT não ia pagar a dívida, que daria um calote. Hoje, tudo o que eu queria é que isso fosse verdade.

Veja – Qual será a posição do seu grupo no PT em um possível governo Lula?
Heloísa – O Lula ganhar a Presidência da República é algo muito precioso. É um aprimoramento da democracia ver um filho do povo chegar ao cargo político mais importante do país. Queremos vencer a eleição e ajudar no que for necessário. Vamos fazer um esforço gigantesco para que tudo dê certo. Mas a posição majoritária do PT é de conciliação. Será possível conviver com ela? Vamos ver. O enfrentamento será muito grande.

Veja – É possível que os insatisfeitos saiam do PT e formem um novo partido?
Heloísa – Tem muita gente conversando sobre isso. O subcomandante Marcos, do Exército Zapatista de Libertação Nacional, dizia uma coisa muito bonita sobre o amor: ele é como uma xícara de chá que todos os dias cai no chão e se quebra em pedaços. A gente vai lá, junta os pedaços, cola e reconstrói a xícara. Dizia ele que o receio de todos os apaixonados é que chegue o dia em que essa xícara estará tão quebrada que não será mais possível reconstruí-la. Eu espero que esse dia terrível nunca chegue no PT.

Veja – Qual a sua opinião sobre a política de alianças realizada por Lula?
Heloísa – É deplorável. Foi uma adesão estúpida à lógica do pragmatismo eleitoral, algo que passamos a vida inteira criticando nos outros partidos. Política de aliança tem de ser definida à luz do conteúdo programático e dos objetivos estratégicos.

Veja – A senhora renunciou à candidatura ao governo de Alagoas, por não concordar com a aliança com o PL. Também foi proibida de participar do horário eleitoral. Ficou magoada com o PT?
Heloísa – Muito. Fiquei tristíssima e cheia de cicatrizes. Sabe um aborto provocado contra a sua vontade? Foi como me senti. Tentaram enfiar uma estaca no coração da "vampira". Tive de repetir para mim mesma todos os dias que é melhor um coração partido do que uma alma vendida. Se tivesse havido uma aliança com o PL em todos os Estados, seria possível jogar a culpa na resolução do TSE sobre a verticalização. Mas o que houve foi uma decisão política da cúpula do PT. A aliança com o PL não foi feita nos maiores colégios eleitorais. Por que tinha de ser feita em Alagoas?

Veja – O que a senhora tem contra o PL?
Heloísa – O PL não tem a mínima condição. Eu é que não ia comer a fatia podre desse bolo. É impossível falar e vomitar ao mesmo tempo.

Veja – O senador Antonio Carlos Magalhães foi um de seus maiores adversários no Senado e agora pede votos para Lula. Como a senhora se sente?
Heloísa – É o que sempre digo: a capacidade camaleônica da nossa decadente elite nacional é de dar inveja a qualquer réptil.

Veja – Se Lula ganhar as eleições, como ele deve agir com os aliados?
Heloísa – Se o governo se transformar numa arca de Noé para abrigar tudo que é bicho, não conseguirá fazer mudanças. Com certeza, as alianças de campanha devem ser revistas. A composição da chapa representa tudo aquilo que nós nascemos criticando, que é a conciliação de capital e trabalho. Depois de tanta luta, o PT não pode se jogar na lata de lixo da história, revelando-se um mero mercador de ilusões. Não seria justo com milhares de pessoas que, aqui e no mundo, esperam pela vitória do maior partido de esquerda da América Latina.

Veja – E como fica a governabilidade?
Heloísa – O governo não pode ficar refém do Congresso Nacional, que ora parece um balcão de negócios sujos, ora um medíocre anexo arquitetônico do Palácio do Planalto. A governabilidade deve decorrer da articulação das forças vivas da sociedade, incluindo o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra.

Veja – A questão agrária é outra linha de tensão entre os radicais e a cúpula do PT?
Heloísa – Com certeza. A pouca reforma agrária levada a cabo neste país foi possível porque havia movimentos fazendo ocupação. Eu acho que terra que não cumpre sua função social é para ser ocupada mesmo. Todos os movimentos de reforma agrária, incluindo mecanismos de ocupação, são imprescindíveis. Eu não conheço nenhuma ocupação ilegal de terra.

Veja – O governo Lula deve ser radical?
Heloísa – Sem dúvida nenhuma. O discurso light, diet, cor-de-rosa me deixa muito irritada. É impossível transformar um país de dimensões continentais como o Brasil sem romper com o modelo econômico existente.


 
 
   
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