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Vai ser preciso segurar
Marxistas,
leninistas e trotskistas
que compõem o coração radical
do PT se preparam para cobrar
sua fatura caso Lula seja eleito

Carlos Graieb

Veja também |
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Durante a
campanha presidencial, o Partido dos Trabalhadores manteve-se coeso em
torno da candidatura de Luís Inácio Lula da Silva. Se o
PT ganhar a Presidência dentro de uma semana, o que parece praticamente
resolvido, é muito provável que rachaduras comecem a aparecer.
Nos últimos anos, criou-se na sigla um grande bloco moderado, o
Campo Majoritário, que representa 70% de seus filiados. Não
alinhados ao tal Campo permanecem 30% de petistas que não têm
medo de se dizer radicais. Eles não formam um grupo homogêneo.
Distribuem-se no que o partido convencionou chamar de "tendências",
orgulhosas de sua história (que às vezes remonta a um período
anterior à fundação do PT) e herdeiras de diferentes
linhagens de pensamento esquerdista. As principais são Democracia
Socialista, Articulação de Esquerda, Força Socialista
e O Trabalho, mas há outras menores, de expressão regional.
Essas tendências, que não raro brigam entre si para provar
qual é "mais revolucionária", têm várias bandeiras
em comum. Defendem a "expropriação do patrimônio da
grande burguesia", a reestatização de empresas privatizadas,
o amordaçamento da imprensa (sob o eufemismo de "controle social
dos meios de comunicação"), a abolição final
do mercado. Em outras palavras, querem que sejam impostas ao país
medidas anacrônicas e tão factíveis quanto convencer
o ditador cubano Fidel Castro a cortar sua barba. A recente conversão
de Lula às regras do capitalismo soa como heresia imperdoável
a esses apóstolos do socialismo. Eles esperam, sinceramente, que
tudo não tenha passado de teatrinho eleitoral. Caso contrário,
preparam-se para cobrar sua fatura do companheiro presidente. Em 6 de
outubro, os radicais elegeram 26 dos 91 deputados que o PT vai ter no
Congresso Nacional. Contam ainda com duas senadoras Heloísa
Helena, de Alagoas, e Ana Júlia, do Pará. Por mais que a
cúpula do partido sustente que essa fatia da agremiação
está controlada, o equilíbrio, no fundo, é precário.
A maneira
como foi encaminhada a campanha de Lula criou muitos ressentimentos nessas
alas revolucionárias. Um dos principais desgastes tem a ver com
a política de alianças adotada. Os radicais acusam a direção
do partido de ter agido de forma autoritária ao sacramentar a coligação
nacional com o PL, que fez do empresário José Alencar o
vice da chapa. Eles gostariam de ter colocado o assunto em votação
interna, num plebiscito em março, mas a cúpula barrou a
idéia. A "flagrante quebra de coerência ideológica"
deixou a ala vermelha tiririca. Uma das mais irritadas é a senadora
Heloísa Helena, da Democracia Socialista, que desistiu da disputa
pelo governo de Alagoas por julgar que era impraticável dividir
o palanque com adversários históricos uma das conseqüências
da coligação. "Estou muito decepcionada com meu partido,
e não sou a única. Há até quem pense em fundar
uma nova sigla", diz ela (veja
entrevista). Os radicais acreditam que, na Presidência
da República, o PT deve rever suas alianças e negar-se a
fazer concessões ou "rebaixar seu programa" para conquistar a maioria
no Congresso. Nesse discurso ecoa uma polêmica que foi muito acirrada
no partido no começo dos anos 90 e que tinha a ver com o próprio
conceito de democracia. Para os mais extremistas, a luta eleitoral seria
apenas uma etapa necessária na conquista do poder. Depois de vencida
essa fase, seria possível prescindir da democracia representativa.
Nenhum petista hoje em dia fala abertamente nesses termos, mas alguns
não escondem seu desprezo pelas instituições da República
e afirmam que, para aprovar seus projetos, Lula deveria contar com a voz
das ruas em vez de tentar construir a maioria no Legislativo. "O Congresso
Nacional ora se comporta como um balcão de negócios sujos,
ora como um medíocre anexo do Palácio do Planalto. Não
é por meio dele que o PT deveria governar, mas pela articulação
das forças vivas da sociedade, aí incluindo o MST", afirma
Heloísa Helena. Ex-prefeito de Porto Alegre e outro expoente da
Democracia Socialista, o gaúcho Raul Pont usa palavras apenas um
pouco mais amenas para tratar desse tema. "Eu realmente espero que Lula
não tente fazer mais alianças espúrias", diz ele.
"Se você aposta na democracia direta, se cria meios de organizar
politicamente a população, pode conseguir muita coisa."
Ichiro Guerra
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| Manifestação
do Movimento dos Sem-Terra e o líder João Pedro Stedile (abaixo):
com o apoio das alas xiitas do PT |
Oscar Cabral
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"Debaixo
de sol e de chuva temos todos que lutar. Somos donos de nós
mesmos nosso lema é ocupar. Homem, mulher e criança
querem um mundo melhor. Se ocupamos, produzimos! Com força,
esperança e suor. Ocupar, resistir e produzir. Sou latino-americano
brasileiro explorado pelo ricaço tirano"
Trecho de Burgueses Não Pegam na Enxada, música
do MST |
Outro cavalo de batalha dos radicais é a dívida externa.
Em dezembro de 2001 (ou seja, há menos de um ano), o PT realizou
seu XII Encontro Nacional, durante o qual se redigiram as diretrizes do
programa de governo de Lula, sob o título "A Ruptura Necessária".
Nesse texto está escrito, em linguajar jurídico, que os
atuais acordos com o FMI têm de ser "denunciados". Traduzindo: rompidos.
Lula abandonou publicamente essa posição, comprometendo-se
a respeitar os contratos internacionais firmados pelo país. Os
radicais não aceitam isso de forma nenhuma. Eles estão convictos
de que "a afronta à banca internacional" é a melhor maneira
de promover o desenvolvimento brasileiro. Uma tese apresentada em conjunto
pelas tendências Articulação de Esquerda e Força
Socialista, na época do encontro petista, "analisa" de forma pitoresca
dois cenários possíveis decorrentes de um calote: "Podemos
raciocinar com otimismo e concluir que, após alguns rosnados, os
grandes capitalistas se acomodarão à nova situação.
Mas vamos imaginar que eles levem a cabo suas ameaças: cessará
o financiamento externo do consumo local; haverá bloqueio de parte
das importações e exportações; interrupção
dos programas sociais alimentados por recursos de organismos internacionais;
ataques à imagem do país; ferrenha oposição
interna e externa. Achamos que o Brasil tem como suportar a retaliação.
O financiamento externo da nossa economia, nos termos atuais, causa mais
prejuízos que vantagens".
Os radicais
também gostam de lembrar que a resolução em favor
do rompimento com o FMI foi aprovada por unanimidade no partido e, portanto,
deveria ser respeitada por Lula. "Nós vamos cobrar, junto com a
militância, aquilo que foi aprovado em nosso encontro nacional.
Estamos legitimados a fazer isso, pois não houve nenhuma votação
posterior que tenha alterado o que estava decidido. É claro que
vamos apoiar nosso governo, mas o Brasil não pode ficar de joelhos
diante do sistema financeiro internacional", diz Ivan Valente, que se
elegeu deputado federal por São Paulo e faz parte da tendência
Força Socialista. Feitas em surdina neste final de campanha, cobranças
como essa devem subir vários decibéis no dia seguinte à
posse de Lula e podem converter-se em gritaria às vésperas
do reajuste do salário mínimo, em maio de 2003. "Mantidas
as condições atuais de pagamento da dívida externa,
será impossível fazer um reajuste digno do salário
mínimo", diz Luciana Genro, eleita deputada federal pelo Rio Grande
do Sul e integrante de uma corrente ultra-radical gaúcha chamada
Movimento de Esquerda Socialista. Líder da tendência O Trabalho,
Markus Sokol, que vive em São Paulo, é da mesma opinião.
"Se forem mantidas as metas de superávit fiscal acertadas com o
FMI, o salário mínimo em 2003 será rebaixado em vez
de aumentar", diz ele.
Antonio Pacheco
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| A
deputada federal Luciana Genro: votações contra a orientação do partido
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Durante a
campanha, Lula e José Dirceu disseram em conversas privadas que,
para contentar os radicais do partido, distribuiriam entre eles cargos
de segundo e terceiro escalão. A menos de uma semana do primeiro
turno, começou a circular a notícia de que o PT vermelho-vivo
poderia receber até mesmo um ministério. Não é
certo que isso transformaria os radicais em moderados. Figura importante
na Democracia Socialista, o deputado federal Walter Pinheiro, que acaba
de reeleger-se pela Bahia, vem sendo mencionado como possível titular
da pasta das Comunicações na Presidência de Lula.
Mesmo assim, lançou-se em bravatas na semana retrasada. Ameaçou
entrar na Justiça contra a medida provisória que regulamenta
a entrada de capital estrangeiro nas empresas de comunicação
e, no mesmo fôlego, afirmou que os presidentes das agências
que regulam setores estratégicos, como energia e telecomunicações,
deveriam entregar seus cargos em caso de vitória do PT nas urnas.
"A sugestão é que a tropa toda renuncie", disse ele. A frase
não é só deselegante. Ela é um ataque a um
modelo de regulação fundado na independência de agências
como Aneel e Anatel, cujos dirigentes têm mandato fixo e só
podem ser demitidos depois de condenação em processo administrativo.
Expressa o desejo de romper, no meio do jogo, as regras que controlam
mercados importantes e essa certamente não é uma
maneira de fomentar a estabilidade na economia. Na semana passada, depois
da publicação de um duro editorial sobre o assunto pelo
jornal O Estado de S. Paulo, a cúpula petista desautorizou
Pinheiro. Na quarta-feira, o comando de campanha de Lula desmentiu as
afirmações do deputado sobre a "tropa" das agências
reguladoras, enquanto a presidência do PT vetava a idéia
de questionar na Justiça a MP sobre investimentos estrangeiros
em empresas de comunicação.
Para fazer
valer suas idéias, os radicais do PT têm pouca margem de
manobra no interior do partido. Desde 1995, essa ala vem sendo empurrada
para uma posição marginal, graças às ações
encabeçadas por José Dirceu e Lula para conquistar a hegemonia
no partido. A principal tacada nesse jogo foi a instituição
do voto direto para eleger a cúpula partidária, no começo
de 2001. Toda a esquerda do PT foi contra a idéia, mas acabou derrotada.
Eles queriam preservar o sistema anterior, em que os dirigentes eram escolhidos
por um colégio de delegados, quase sempre pertencentes a alguma
tendência. Militantes renhidos, daqueles que não faltam a
nenhuma reunião e conhecem a biografia de cada um dos "companheiros",
esses delegados tinham mais chances de eleger seus representantes. Agora,
todos os filiados vão às urnas. Eles são 300.000
atualmente. Como poucos se dedicam em tempo integral à política,
na hora de votar é natural que optem pelas lideranças mais
famosas, em geral do Campo Majoritário. No ano passado, José
Dirceu foi eleito para seu quarto mandato como presidente do PT, com mais
de 55% dos votos.
Ricardo Mazalan/AP
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| Guerrilheiros
colombianos das Farc: para os radicais, eles são "vítimas do imperialismo"
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Apesar de
enfraquecidas, as tendências não são um corpo estranho
no PT. Sua história se confunde com a do partido, fundado em 1980.
A Articulação de Esquerda é a mais jovem delas. Surgiu
em 1993, como dissidência da Articulação grupo
que nos dez anos anteriores desempenhara no PT o mesmo papel que o Campo
Majoritário desempenha hoje. Democracia Socialista, Força
Socialista e O Trabalho estão na sigla quase desde sua criação.
Derivam, todas elas, de organizações que existiam previamente.
A Força Socialista é de vertente leninista-maoísta.
Já Democracia Socialista e O Trabalho são adeptas do internacionalismo
trotskista. Isso não significa que as duas concordem sempre. Uma
das principais bandeiras da Democracia Socialista, por exemplo, é
o orçamento participativo. "O orçamento participativo não
é uma política de esquerda", critica Markus Sokol, a maior
liderança de O Trabalho. "Ele faz com que representantes populares
se engalfinhem pela disputa das poucas verbas que restam, depois de cumpridos
os encargos financeiros da administração. Acaba funcionando
como um mecanismo de cooptação pelo Estado."
O "direito
de tendência" está previsto no estatuto do PT. Correntes
internas podem se organizar, desde que se submetam ao programa geral da
sigla e não tentem se transformar em "partidos no interior do partido",
com disciplina própria e estrutura fechada. Esse último
caminho foi seguido, há cerca de dez anos, pela Convergência
Socialista e pela Causa Operária. Marcadas como rebeldes, elas
tiveram finalmente de se desligar da nave-mãe petista, dando origem
ao Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e ao Partido
da Causa Operária (PCO). Nenhuma das quatro maiores tendências
de esquerda que hoje existem no PT age de maneira semelhante. Elas se
mantêm fiéis às regras de funcionamento interno e,
embora em posição de acachapante minoria, contam com representantes
na Comissão Executiva Nacional ou no Diretório Nacional.
Sabem que se tornariam irrelevantes se expulsas do PT. Apesar das declarações
da senadora Heloísa Helena sobre as trincas na união petista,
é improvável que as tendências radicais adotem uma
estratégia de ruptura total, logo agora que o partido espera subir
a rampa do Palácio do Planalto pela primeira vez. Mas sempre é
possível bater tambores e apoiar manifestações.
Mesmo à
frente de administrações, petistas de inspiração
radical já cuidaram de insuflar conflitos no próprio quintal.
No Rio Grande do Sul, Olívio Dutra (que faz parte da esquerda partidária,
embora não se alinhe com nenhuma tendência) entregou cargos
importantes da Secretaria de Segurança e da Secretaria de Agricultura
a representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. O Estado,
com isso, viu-se às voltas com um festival de invasões de
fazendas e com uma Polícia Militar que era acusada de fazer corpo
mole para cumprir os mandados de reintegração de posse expedidos
pela Justiça. Outro caso vem de Belém do Pará, onde
Edmilson Rodrigues, da Força Socialista, exerce atualmente seu
segundo mandato consecutivo de prefeito. Em 1999, insatisfeito com o julgamento
que inocentou os militares envolvidos no massacre de Eldorado dos Carajás,
Rodrigues colocou-se ao lado de um grupo de 500 sem-terra e incentivou-os
a entrar em choque com a PM o que poderia ter resultado em uma
nova tragédia.
Entre os
radicais do PT, é comum a idéia de que o partido, ao buscar
a massa de eleitores brasileiros, afastou-se de suas bases classistas
e dos grupos nacionais e estrangeiros que propugnam a derrubada do capitalismo.
Eles gostariam de reverter esse movimento. Alguns não escondem
que, em casos extremos, ficarão ao lado de suas bases, e não
da direção do partido. É o caso de Luciana Genro,
de 31 anos. Ao contrário de seu pai, Tarso Genro, que hoje defende
posições moderadas e disputa o governo do Rio Grande do
Sul pelo PT, Luciana é uma estrela em ascensão na brigada
xiita. Ela acaba de ser eleita para a Câmara Federal e pretende
repetir no Congresso a postura aguerrida que marcou sua passagem pelo
Legislativo gaúcho. Como deputada estadual, durante o governo do
companheiro Olívio Dutra, ela votou contra a orientação
da sua bancada em algumas matérias. Pela desobediência, perdeu
o cargo de vice-presidente da Comissão de Educação
da Assembléia e o direito de falar em nome do partido por um mês.
Mas quem disse que a moça resolveu abaixar a crista? "Em Brasília,
vou agir segundo os mesmos princípios", diz ela.
Luciana
tem suas bases de apoio no movimento estudantil, em alguns sindicatos
(principalmente de professores) e também no MST. Ela já
defendeu o nome do líder sem-terra João Pedro Stedile para
a Presidência da República. O MST é uma organização
que conta com a simpatia de boa parte dos parlamentares eleitos pelo PT
radical. Além de Luciana, ao menos outros onze deputados federais
do partido têm laços com o movimento e compõem uma
espécie de "bancada agrária": Nilson Mourão (AC),
Adão Pretto (RS), Maninha (DF), Iriny Lopes (ES), Babá (PA),
João Grandão (MS), Dr. Rosinha (PR), Ivan Valente (SP),
Luci Choinacki (SC), Luciano Zica (SP) e Paulo Rubem Santiago (PE). Entre
os grupos estrangeiros com os quais a ala radical petista sente afinidade,
as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)
são aquelas em maior evidência. Essa guerrilha financiada
pelo narcotráfico é vista pelos radicais como alvo de uma
campanha difamatória do "imperialismo americano". Num texto que
escreveu no ano passado, Luciana Genro explicitou essa visão completamente
desprovida de sentido de realidade: "Combater o narcotráfico é
só a desculpa. O verdadeiro objetivo do Plano Colômbia, que
começa a ser implementado pelo governo dos Estados Unidos naquele
país, é derrotar a resistência daquele heróico
povo, que teima em não se deixar submeter pacificamente. É,
portanto, uma intervenção político-militar do imperialismo
contra as Farc, principal expressão da luta dos camponeses da Colômbia
e do movimento de massas". O leque de organizações esquerdistas
apoiadas pelo PT xiita é vasto. Em 1999, o prefeito de Belém,
Edmilson Rodrigues, promoveu na cidade um encontro que reuniu mais de
1 500 militantes, boa parte deles proveniente daute;ico
povo, que teima em não se deixar submeter pacificamente. É,
portanto, uma intervenção político-militar do imperialismo
contra as Farc, principal expressão da luta dos camponeses da Colômbia
e do movimento de massas". O leque de organizações esquerdistas
apoiadas pelo PT xiita é vasto. Em 1999, o prefeito de Belém,
Edmilson Rodrigues, promoveu na cidade um encontro que reuniu mais de
1 500 militantes, boa parte deles proveniente da esquerda armada. Além
de representantes das Farc, compareceram desde mexicanos do Exército
Zapatista de Libertação Nacional até americanos do
grupo Panteras Negras. A abertura do encontro teve a participação
virtual do subcomandante Marcos, líder guerrilheiro mexicano, que
por meio de uma fita de vídeo saudou os participantes.
Com
reportagem de
Diogo Schelp e Leonardo Coutinho
|
AS
TENDÊNCIAS DO PT
Como
se agrupam os radicais do partido
DEMOCRACIA
SOCIALISTA
Liane Neves
 |
Tamanho:
10%
dos filiados ao PT
Origem ideológica:
trotskista
Lideranças:
Raul Pont (ex-prefeito de Porto Alegre); Heloísa
Helena (senadora pelo Estado de Alagoas); Ana Júlia (senadora
pelo Estado do Pará); Joaquim Soriano (secretário
nacional de Formação Política do PT)
Concepções:
No governo, o PT deveria implementar um programa de "transição
ao socialismo". Isso implica desenvolver "formas de auto-organização
popular", como o orçamento participativo, as cooperativas
e os assentamentos de trabalhadores rurais. No campo econômico,
a Democracia Socialista defende a renegociação da
dívida externa, com possível suspensão de seus
pagamentos e realização de auditoria sobre montantes
e juros.
ARTICULAÇÃO
DE ESQUERDA
Adriano Rosa/AAN
 |
Tamanho: 10%
dos filiados ao PT
Origem ideológica: marxista
de manual
Lideranças: Valter Pomar
(secretário de Cultura, Esportes e Turismo de Campinas);
Marlene Rocha (integrante da Comissão Executiva Nacional
do PT); Luci Choinacki (deputada federal-SC); Adão Pretto
(deputado federal-RS)
Concepções: Acredita
que o PT foi dominado por um grupo social-democrata, que traiu seu
compromisso com o socialismo. Segundo um manifesto que circulou
em julho assinado pela tendência, um governo petista deveria
"suspender o pagamento da dívida externa, não assinar
o acordo da Alca, recuperar as estatais estratégicas privatizadas,
colocar o sistema financeiro sob controle público, quebrar
o monopólio dos meios de comunicação de massa,
romper os contratos que cristalizam a dominação de
classe no Brasil". Alguns integrantes têm estreitas ligações
com o MST.
FORÇA
SOCIALISTA
Antonio Silva
 |
Tamanho: 7%
dos filiados ao PT
Origem ideológica: leninista-maoísta
Lideranças: Edmilson
Rodrigues (prefeito de Belém); Nelson Pellegrino (deputado
federal-BA); Jorge Almeida (secretário nacional de Movimentos
Populares do PT); Ivan Valente (deputado federal-SP)
Concepções:
Acredita que o PT deve assumir abertamente um programa socialista.
O patrimônio dos grandes capitalistas deve ser nacionalizado
ou estatizado. Quanto às privatizações realizadas
durante os anos 90, elas devem ser revertidas. Outras bandeiras:
pôr o setor financeiro sob controle público, suspender
o pagamento da dívida externa, revogar a Lei de Responsabilidade
Fiscal, romper com o FMI, quebrar o monopólio dos meios de
comunicação de massa e promover uma reforma agrária
radical.
O
TRABALHO
Alexandre Tokitaka
 |
Tamanho: 2%
dos filiados ao PT
Origem ideológica: trotskista
Principal liderança: Markus
Sokol
Concepções: Defende
propostas como o rompimento com o FMI, a revogação
da Lei de Responsabilidade Fiscal, a reestatização
de empresas, a suspensão do direito de demissão em
empresas privadas, a retirada do Brasil das negociações
sobre a Alca e o Mercosul e, ainda, a oposição ao
Plano Colômbia (mais que combater o tráfico de drogas,
ele seria uma agressão do imperialismo americano). A tendência
ataca programas defendidos pelo próprio PT, como os de microcrédito
(que seriam "meras políticas compensatórias") e o
orçamento participativo, que, em vez de fomentar o crescimento
de organizações populares independentes, resulta em
sua cooptação pelo aparelho de Estado.
|
|
"O
discurso light do PT me irrita"
Ana Araujo
 |
| A
senadora Heloísa Helena: "Sou contra honrar os compromissos
com a máfia do FMI" |
A senadora petista Heloísa Helena é uma das principais
estrelas da tendência radical Democracia Socialista. Ela se
elegeu para seu atual mandato em 1998, com 56% dos votos válidos
de Alagoas. Graças a seu estilo aguerrido, dois anos depois
tornou-se líder do bloco de oposição ao governo
FHC no Senado. A atual corrida presidencial, no entanto, deixou
Heloísa magoada com seu partido. Por não aceitar a
política de alianças adotada pela sigla, ela retirou
sua candidatura ao governo de Alagoas e ficou alijada da campanha.
Nesta entrevista à repórter Adriana Negreiros, ela
explica suas divergências com a cúpula do PT e diz
que, se Lula mantiver o discurso moderado, "o enfrentamento será
muito grande".
Veja
Quais são as principais linhas de tensão
entre a Democracia Socialista e a maioria do PT?
Heloísa Helena A principal divergência
é quanto à política econômica. Uma parte
do PT, à qual pertenço, defende o não-pagamento
da dívida externa. Mas essa deixou de ser a posição
da maioria, e assim se fala muito em honrar compromissos. Honrar
compromissos com a máfia do FMI? Sou contra. Eu acho que
os dirigentes do Fundo deveriam ser julgados num tribunal internacional
por crimes contra a humanidade. É curioso, tempos atrás
eu me irritava quando José Serra fazia discursos no plenário
do Senado dizendo que o PT não ia pagar a dívida,
que daria um calote. Hoje, tudo o que eu queria é que isso
fosse verdade.
Veja
Qual será a posição do seu grupo
no PT em um possível governo Lula?
Heloísa O Lula ganhar a Presidência
da República é algo muito precioso. É um aprimoramento
da democracia ver um filho do povo chegar ao cargo político
mais importante do país. Queremos vencer a eleição
e ajudar no que for necessário. Vamos fazer um esforço
gigantesco para que tudo dê certo. Mas a posição
majoritária do PT é de conciliação.
Será possível conviver com ela? Vamos ver. O enfrentamento
será muito grande.
Veja
É possível que os insatisfeitos saiam do
PT e formem um novo partido?
Heloísa Tem muita gente conversando sobre isso.
O subcomandante Marcos, do Exército Zapatista de Libertação
Nacional, dizia uma coisa muito bonita sobre o amor: ele é
como uma xícara de chá que todos os dias cai no chão
e se quebra em pedaços. A gente vai lá, junta os pedaços,
cola e reconstrói a xícara. Dizia ele que o receio
de todos os apaixonados é que chegue o dia em que essa xícara
estará tão quebrada que não será mais
possível reconstruí-la. Eu espero que esse dia terrível
nunca chegue no PT.
Veja
Qual a sua opinião sobre a política de alianças
realizada por Lula?
Heloísa É deplorável.
Foi uma adesão estúpida à lógica do
pragmatismo eleitoral, algo que passamos a vida inteira criticando
nos outros partidos. Política de aliança tem de ser
definida à luz do conteúdo programático e dos
objetivos estratégicos.
Veja
A senhora renunciou à candidatura ao governo de
Alagoas, por não concordar com a aliança com o PL.
Também foi proibida de participar do horário eleitoral.
Ficou magoada com o PT?
Heloísa Muito. Fiquei tristíssima e
cheia de cicatrizes. Sabe um aborto provocado contra a sua vontade?
Foi como me senti. Tentaram enfiar uma estaca no coração
da "vampira". Tive de repetir para mim mesma todos os dias que é
melhor um coração partido do que uma alma vendida.
Se tivesse havido uma aliança com o PL em todos os Estados,
seria possível jogar a culpa na resolução do
TSE sobre a verticalização. Mas o que houve foi uma
decisão política da cúpula do PT. A aliança
com o PL não foi feita nos maiores colégios eleitorais.
Por que tinha de ser feita em Alagoas?
Veja
O que a senhora tem contra o PL?
Heloísa O PL não tem a mínima
condição. Eu é que não ia comer a fatia
podre desse bolo. É impossível falar e vomitar ao
mesmo tempo.
Veja
O senador Antonio Carlos Magalhães foi um de seus
maiores adversários no Senado e agora pede votos para Lula.
Como a senhora se sente?
Heloísa É o que sempre digo: a
capacidade camaleônica da nossa decadente elite nacional é
de dar inveja a qualquer réptil.
Veja
Se Lula ganhar as eleições, como ele deve agir
com os aliados?
Heloísa Se o governo se transformar numa
arca de Noé para abrigar tudo que é bicho, não
conseguirá fazer mudanças. Com certeza, as alianças
de campanha devem ser revistas. A composição da chapa
representa tudo aquilo que nós nascemos criticando, que é
a conciliação de capital e trabalho. Depois de tanta
luta, o PT não pode se jogar na lata de lixo da história,
revelando-se um mero mercador de ilusões. Não seria
justo com milhares de pessoas que, aqui e no mundo, esperam pela
vitória do maior partido de esquerda da América Latina.
Veja
E como fica a governabilidade?
Heloísa O governo não pode ficar
refém do Congresso Nacional, que ora parece um balcão
de negócios sujos, ora um medíocre anexo arquitetônico
do Palácio do Planalto. A governabilidade deve decorrer da
articulação das forças vivas da sociedade,
incluindo o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra.
Veja
A questão agrária é outra linha de tensão
entre os radicais e a cúpula do PT?
Heloísa Com certeza. A pouca reforma agrária
levada a cabo neste país foi possível porque havia
movimentos fazendo ocupação. Eu acho que terra que
não cumpre sua função social é para
ser ocupada mesmo. Todos os movimentos de reforma agrária,
incluindo mecanismos de ocupação, são imprescindíveis.
Eu não conheço nenhuma ocupação ilegal
de terra.
Veja
O governo Lula deve ser radical?
Heloísa Sem dúvida nenhuma. O discurso
light, diet, cor-de-rosa me deixa muito irritada. É impossível
transformar um país de dimensões continentais como
o Brasil sem romper com o modelo econômico existente.
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