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Entrevista: Márcio
Thomaz Bastos
Só prender é pouco
O ministro diz que lotar as
prisões e impedir fugas é só o
começo. Os bandidos precisam
estar sempre vigiados

Otávio Cabral
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Paulo Pinto/AE

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"Tenho escolta 24
horas por dia. Isso causa tanta complicação
que não tenho nem disposição de ir
ao cinema" |
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O criminalista Márcio Thomaz Bastos,
o ministro da Justiça que mais tempo ficou no cargo desde
a volta do país à democracia, adora ser ministro da
Justiça. "Nem sei como consegui viver tanto sem sê-lo",
brinca. Mantém o gosto mesmo depois que o crime organizado
passou a aterrorizar São Paulo e aumentaram as cobranças
sobre o papel do governo federal. Com bom humor inalterado e sem
levantar o tom de voz, o ministro defende sua gestão, insiste
em que o envio de tropas do Exército à cidade é
uma boa saída e, sem dar nome aos bois, responsabiliza a
administração tucana pelo caos na segurança
pública. O erro principal, diz ele, está em apenas
prender e evitar fugas, como se isso bastasse. "O Estado também
precisa controlar o que acontece dentro das prisões." Thomaz
Bastos orgulha-se da eficiência que conseguiu dar ao que parece
ser a vitrine de sua gestão, a Polícia Federal. "Meu
sonho é transformar a Polícia Federal em um FBI. Acho
que estamos nesse caminho."
Veja O que está
acontecendo em São Paulo?
Bastos Tenho procurado ser o mais impessoal possível
nesse debate, para não contaminá-lo com os interesses
eleitorais, mas não há dúvida de que o problema
em São Paulo resulta de um colapso na gestão penitenciária,
da falta de investigação penitenciária. Não
se pode pensar apenas em lotar as prisões, despreocupando-se
do que acontece lá dentro. Estamos pagando o preço
do equívoco de imaginar que, se o sujeito está preso
e não foge, então está tudo bem. Não
está. O Estado também precisa controlar o que acontece
dentro das prisões. Não é simples, mas é
possível. No Pará e no Ceará, por exemplo,
existem bons modelos de gestão penitenciária.
Veja O que São
Paulo pode fazer já?
Bastos Agora, não tem solução
mágica, não tem milagre, não tem tiro de canhão.
A única saída é integrar as forças de
segurança, investir em inteligência e correição.
É preciso reverter a situação em que se encontram
os quatro segmentos da segurança pública. A Febem
é caso notório de precariedade, o sistema carcerário
está muito mal, as polícias precisam de uma reformulação
e a Justiça paulista, que ainda está entre as melhores
do país, encontra-se em crise, quase parando por sobrecarga.
Veja O governo
federal não tem culpa alguma?
Bastos Não sei. Eu mesmo teria de fazer uma
autocrítica. Talvez tenha faltado um pouco de dinheiro, mas,
sinceramente, esse não é o aspecto mais relevante.
O governo federal não investiu pouco em segurança.
Se examinarmos somente o Fundo Nacional de Segurança Pública,
investimos mais ou menos a mesma coisa que o governo anterior. Mas,
se examinarmos o cenário global, incluindo a Polícia
Federal, investimos muito mais. Suponho que ninguém desconheça
a importância da Polícia Federal. Em algumas operações,
a polícia pegou toneladas de cocaína e maconha que
iam para São Paulo. Talvez tenhamos demorado um pouco para
construir os presídios federais. Mas, até nisso, tenho
de levar em conta que a lei existe desde 1984 e ninguém tinha
feito. Foram cinco presidentes e dezenove ministros da Justiça
que não tiraram esses presídios do papel. E não
porque não quisessem, mas porque é difícil
mesmo. Já inauguramos o presídio de Catanduvas, no
Paraná. O de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, será
inaugurado nas próximas semanas. O de Mossoró, no
Rio Grande do Norte, e o de Porto Velho, em Rondônia, talvez
saiam ainda neste ano. Mas no único presídio que já
está pronto, o de Catanduvas, temos um preso apenas.
Veja Quantos
presos o governo paulista pediu para transferir para Catanduvas?
Bastos Até agora, nenhum.
Veja Como?
Bastos Nenhum. Não recebemos nenhum pedido.
Veja Por que
o governo federal insiste na oferta de enviar tropas do Exército
para São Paulo, quando se sabe que elas não poderão
fazer praticamente nada? Isso não é jogo eleitoral?
Bastos É um equívoco imaginar que as
tropas do Exército não farão nada. Elas foram
muito úteis no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Espírito
Santo em situações semelhantes. Por que não
seriam em São Paulo? Podemos mandar até 10 000 homens.
Entre eles, há 4 000 especialmente treinados para guerrilha
urbana. Não é recruta, é especialista. Os bandidos
do PCC temeriam o Exército, que funcionaria como força
de dissuasão. Não há nenhum jogo eleitoral
nisso. Aliás, se o Exército desembarcasse em São
Paulo e tudo desse errado, seria um desgaste para o governo. No
entanto, isso não nos preocupa, e estamos certos de que a
presença do Exército poderia, sim, ser muito útil
para São Paulo.
Veja O senhor
está dizendo que o governo de São Paulo é que
faz jogo eleitoral ao recusar o Exército?
Bastos Estou dizendo apenas que as tropas do Exército
estão à disposição de São Paulo
e manifestando minha certeza de que elas podem ser muito úteis.
Veja O que é
o PCC?
Bastos Na verdade, sabemos sobre o PCC menos do que
gostaríamos. Qualitativa e quantitativamente. Os estudos
teóricos ainda são muito incipientes, mas planejo
fazer um acordo entre União e governo paulista para estudar
o PCC a fundo. A falta de informação torna o PCC um
mistério, uma lenda. A desinformação aliada
ao período eleitoral dá margem até a leviandades,
como a insinuação de que o PT tem ligações
com o PCC. Essa quadrilha quer dinheiro do tráfico de drogas,
de assalto, de roubo de carga. Não há nenhuma informação
de vinculação política, que eu saiba, e, se
houvesse, eu saberia.
Veja A crise
aguda na segurança pública significa que vivemos uma
crise institucional?
Bastos Há muito tempo tenho a idéia
de que o Brasil não vive uma crise normativa, mas uma crise
institucional. No iluminismo, Montesquieu dizia que não se
constrói uma sociedade baseada na virtude dos homens, mas
na solidez das instituições. É verdade. Não
se combatem a corrupção e o crime sem instituições
fortes e efetivas. Um amigo meu tem uma tradução livre
do pensamento de Montesquieu. Diz que a pessoa não se detém
por ser honesta, mas por ter medo. Sempre achei isso. Mas, apesar
da crise, temos tido avanços notáveis.
Veja Quais?
Bastos Há instituições que melhoraram
muito. O Banco Central trabalha com independência, a Receita
Federal opera num padrão de impessoalidade, o Poder Judiciário
começou a ser reformado. A criação do Conselho
Nacional de Justiça, que mal começou sua tarefa, já
apresentou grandes progressos no combate ao nepotismo, na definição
de um teto salarial, coisas assim. O afastamento do presidente do
Tribunal de Justiça de Rondônia é um exemplo.
Para falar da minha área, diria que a Polícia Federal
também avançou tremendamente.
Veja Como foi
o trabalho para colocar a Polícia Federal no estágio
atual?
Bastos Parti da premissa de que as instituições
são feitas de homens e, por isso, procurei escolher um bom
diretor-geral. Com ele, passamos a executar esse projeto de corregedoria
rigorosa e planejamento estratégico. Está dando certo.
Nos últimos três anos, a Polícia Federal executou
280 operações especiais e, como fruto do planejamento,
sem dar um único tiro. Passamos a usar instrumentos modernos
de investigação, como o monitoramento telefônico,
a prisão temporária como meio de obtenção
de provas, a busca e apreensão e o treinamento de um grupo
especial. Esse grupo tem 1.500 homens, com grande know-how e grande
mobilidade. Outro dia, numa conversa com o novo embaixador dos Estados
Unidos em Brasília, disse a ele que meu sonho era transformar
a Polícia Federal em um FBI. Acho que estamos nesse caminho.
Veja Qual a
garantia de que, sob qualquer novo governo, a Polícia Federal
seguirá nesse caminho?
Bastos Acredito que, se a polícia continuar
operando com essa independência, com esse orgulho que seus
homens demonstram, por mais uns quatro, seis anos, não terá
mais retrocesso. Ficará definitivamente constituída
como uma instituição de Estado. E aí, mesmo
que algum governante queira usá-la no jogo político,
não conseguirá. É o que está acontecendo
com o Ministério Público, que vem sendo ocupado, neste
governo, por um procurador-geral que é da preferência
da classe.
Veja A Justiça
brasileira é muito corrupta?
Bastos O Judiciário sofre com a falta de adequação
aos tempos modernos, às boas normas de gestão. Precisa
abandonar rotinas envelhecidas, investir em informática.
Precisa mudar de mentalidade, superar a tradição patrimonialista.
Já o problema da corrupção é generalizado,
antigo, enraizado. Sei de casos em que o dinheiro influenciou determinantemente
em decisões judiciais, mas...
Veja Que casos?
Bastos Não posso nem vou nomeá-los,
porque estão sob investigação, mas não
acho que a Justiça brasileira seja mais corrupta do que outros
organismos nacionais.
Veja Qual foi
seu pior momento no governo?
Bastos Quando fui acusado de ter tentado ajudar o
Palocci no episódio do caseiro. Achei que era injusto, que
tinha conteúdo político. Aquilo me machucou. Mas nunca
pensei em sair do ministério, nem no auge dessa crise.
Veja No
caso do caseiro e também no caso do mensalão do PT,
o senhor concorda com a análise de que confundiu a figura
do advogado de defesa, orientando os suspeitos, com a de ministro
da Justiça, que deveria investigá-los?
Bastos Nunca advoguei, nunca orientei, nunca fui assediado,
instado a inventar ou coordenar a defesa de quem quer que fosse.
Tenho uma fama até imerecida de grande advogado. No governo,
é claro que o presidente me consulta sobre temas jurídicos,
pois não iria fazê-lo com ministros. Nunca usei minha
expertise profissional para ajudar o governo. Pelo contrário.
Sempre dei ordens para que a Polícia Federal investigasse
quem quer que fosse, sem perseguir inimigos e sem proteger amigos.
Já ouvi, nas imediações do PT, que sob meu
comando a Polícia Federal é tucana. E, entre os tucanos,
que é petista. Já ouvi de tudo. Já me acusaram
de montar a defesa do governo no caso do mensalão, criando
a tese do caixa dois, mas também já me acusaram de
ter dito que caixa dois era coisa de bandido...
Veja A VEJA,
secundada por parte da imprensa, fez revelações que
o colocaram no epicentro daqueles escândalos...
Bastos Sou como aquele juiz americano que disse que
a imprensa existe para ser livre, e não para ser justa.
Veja O senhor
faria tudo de novo?
Bastos Rigorosamente, tudo de novo. O deputado Rodrigo
Maia (líder do PFL na Câmara) pediu que a Comissão
de Ética Pública analisasse minha conduta no caso
do caseiro. Por unanimidade, a comissão decidiu que não
infringi nenhum artigo do Código de Conduta da Alta Administração
Federal.
Veja O governo
Lula conseguirá exorcizar a percepção de que
tolerou e até se beneficiou da corrupção?
Bastos Este governo está combatendo a corrupção
e a sociedade está tendo essa percepção. A
cada dia encontro mais gente que se convenceu de que estamos combatendo
a corrupção com eficiência. É um governo
que investiga as denúncias e apresenta resultados. Agora,
não é só combate à corrupção.
Uma das razões que me deixam muito satisfeito é ter
chegado ao final do mandato de Lula com um país um pouco
menos desigual, com distribuição de renda. Se Lula
tivesse chegado ao fim desses quatro anos sem distribuir renda,
não teria sentido.
Veja Com tudo
o que está acontecendo, com eleição presidencial
e PCC em São Paulo, sua segurança foi reforçada?
Bastos Sim. Em São Paulo, eu andava com três
seguranças em um carro. Agora, são seis seguranças
em dois carros. Em Brasília, também aumentou. Tinha
dois seguranças, hoje ando com três. Tenho escolta
24 horas por dia, mas a dispenso quando chego ao hotel onde moro
em Brasília. É tanta complicação que
não tenho nem disposição de ir ao cinema.
Veja O senhor
nunca foi ao cinema em Brasília?
Bastos Não vou ao cinema, ao teatro, a show.
Tenho uma vida pobre em Brasília. Vou para o trabalho de
manhã, volto para o hotel por volta das 9 da noite, janto,
escrevo no meu diário, leio e durmo. Adoro meu trabalho no
ministério, mas minha vida pessoal em Brasília é
pobre. Minha mulher não está aqui, minha filha não
está aqui, a maioria dos meus amigos não está
aqui. Se fosse em São Paulo, estaria saindo à noite,
faria ginástica no clube ao ar livre, em vez de usar essa
academia improvisada no meu quarto de hotel. Se eu tivesse feito
outra opção no começo, arrumado uma casa, um
lugar mais confortável, talvez estivesse mais bem adaptado.
Em janeiro passo o cargo ao sucessor e volto para São Paulo.
Veja Se Lula
for reeleito, o senhor não ficaria mais quatro anos no cargo?
Bastos Meu plano era ficar quatro anos em Brasília,
e vou cumpri-lo.
Veja O senhor
vai se aposentar?
Bastos De jeito nenhum. Com 71 anos, já tenho
direito ao ócio com dignidade, mas não quero ócio.
Quero voltar a trabalhar como advogado. Preciso ir com cuidado.
Ajudei a indicar seis dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal.
Não quero que pareça que estou usando uma eventual
influência que possa ter. Não quero passar por lobista.
Tenho de ser sério e também parecer sério.
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