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Vem aí um mês quente

Neste setembro, em vez da reposição de perdas, sindicatos pedirão participação nos lucros

Denise Ramiro e Carlos Prieto

 
Gladstone Campos

Produção em companhia siderúrgica: na área industrial, o setor de base lidera o ranking da eficiência

Setembro está chegando e com ele aquela série de negociações de reajustes salariais de sindicatos poderosos, como o dos bancários, metalúrgicos, petroleiros e químicos. Há cinco anos este mês não tem importância na história econômica brasileira. Com a economia estabilizada e desaquecida, nenhum trabalhador parece afoito para exigir aumento salarial. O negócio, agora, é segurar o emprego. Um sinal do que anda acontecendo por aí: o Sindicato dos Bancários de São Paulo promoveu um vasto estudo sobre a lucratividade dos bancos nos últimos meses. Concluiu que o número de trabalhadores encolheu, os serviços cobrados aos clientes ficaram mais caros, os banqueiros ganharam muito mais dinheiro e os salários dos bancários não tiveram ganho algum. A estratégia do sindicato, que começa a negociar o reajuste salarial de seus associados no próximo dia 1º, é cobrar uma maior participação dos trabalhadores no lucro dos bancos. E note-se que o sistema financeiro não é dos mais brilhantes em matéria de produtividade. Na indústria, em que o salto qualitativo foi de 64% nos anos 90, a briga entre patrões e empregados, nas barras da Justiça do Trabalho, tem tudo para ser mais feia.


Regis Filho

O setor de serviços, que mais emprega, tem o pior resultado no quesito produtividade. É salvo pelo avanço tecnológico dos supermercados


Existem diversos estudos, feitos por organismos governamentais, que demonstram com metodologias diferentes o crescimento da eficiência da economia brasileira. Por todos eles, pode-se concluir que, nos dez últimos anos, houve redução nos preços e aumento na qualidade do produto nacional. Isso se deveu a fatores como a abertura do mercado a produtos importados, a calmaria inflacionária, novos investimentos e a concorrência entre as empresas. É certo que o desemprego cresceu e que os preços de serviços (tanto os prestados pelo governo como os privados) continuaram em elevação. Mas, no cômputo geral, segundo as contas de Regis Bonelli, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a produtividade brasileira saltou, em média, 2,5% ao ano na última década. O cálculo é feito com base na divisão do resultado do PIB no ano pelo número de trabalhadores ocupados. Numa comparação, enquanto o trabalhador de 1991 produzia o correspondente a 12.600 reais, o de 1998 produziu 15 000 reais.

Nesse contexto de melhoria do desempenho das empresas somada a ganhos maiores, é surpreendente que os empregados não tenham levado salários maiores para casa. É o caso dos metalúrgicos, dos químicos e do pessoal que lida com a refinação de petróleo, para ficar em três exemplos de setores que estão aquecidos, recebendo investimentos e empregando. Agora, às vésperas das campanhas salariais de setembro, prevê-se uma temporada de pressões e contrapressões. "Acho que haverá negociações duras, com greves nesta ou naquela empresa, neste ou naquele banco", diz José Pastore, professor da Universidade de São Paulo, especialista em emprego e trabalho.

A questão é que tanto economistas como trabalhadores descobriram que a produtividade melhorou muito, o país está mais saudável, do ponto de vista econômico, mas os benefícios não estão sendo igualmente distribuídos. Depois de vasculhar índices, volumes e taxas, Paulo Gonzaga de Carvalho e Carmem Aparecida Feijó, dois economistas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), concluíram o seguinte: "Os efeitos da modernização da indústria, a partir dos anos 90, aumentaram o excedente apropriado pelos empresários e provocaram, em menor medida, queda nos preços". Em outras palavras, ganharam os empresários e os consumidores.

Alguém poderia argumentar que trabalhadores são consumidores e que, portanto, ganharam também. Isso é verdade, mas a experiência internacional mostra que, em países desenvolvidos, os ganhos de produtividade se espraiam de maneira mais eqüitativa pela sociedade. É assim nos Estados Unidos, onde o índice de eficiência do trabalhador é pelo menos seis vezes maior que o brasileiro. É assim também na Europa. O truque, para distribuir melhor o ganho com a produtividade, é a negociação empresa a empresa, par a par entre os funcionários e seu patrão. O primeiro ensaio do baile da produtividade no Brasil está marcado para esta primavera. Como a dança ainda será em blocos sindicais, estão previstos muitos safanões e pisões no pé. Mas, de qualquer forma, algum progresso terá sido feito. A velha pauta da reposição de perdas inflacionárias dará lugar a um tema mais moderno, a divisão de ganhos com eficiência.

 

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