O radical do
shopping
À
frente de seu exército de pobres,
Eric Vermelho promete agora invadir
restaurantes de luxo
Marcelo
Carneiro
Fotos Selmy Yassuda
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Legião
de desvalidos
Eric no acampamento Araguaia e posando de mau, com a bandeira
dos sem-teto na mão e estampa de Che Guevara no peito:
líder das 300
famílias que ocupam a área na Zona Oeste do Rio,
um amontoado miserável de barracos de madeira e lona
preta entre duas favelas dominadas por traficantes em
guerra permanente |
Até
dois meses atrás a vida do ex-camelô, ex-vendedor de
livros e ex-servente de pedreiro Eric Vermelho andava em ponto morto.
A última tentativa de engrenar um trabalho como vendedor
de roupas de porta em porta acabou em dívidas e nome
fichado no Serviço de Proteção ao Crédito.
No início de agosto, porém, Eric mudou de rumo, num
lance de grande senso de oportunidade. O ex-faz-tudo ganhou as páginas
dos principais jornais do país ao liderar uma visita de militantes
do obscuro Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) ao mais tradicional
shopping center do Rio de Janeiro. As imagens de um grupo de maltrapilhos
no mundo maravilhoso das lojas de grife, com direito a um almoço
de pão com mortadela, também tiveram destaque nos
telejornais. Seis dias depois, Eric e os manifestantes do MTST invadiram
um supermercado, encheram os carrinhos e tentaram passar pelo caixa
usando um fictício "cheque-miséria". Pronto. Mais
uma aparição na TV e nasceu uma espécie de
novo líder popular, cortejado por entidades sindicais e recebido
pelo governador fluminense, Anthony Garotinho, como aconteceu na
semana passada.
A
trajetória de Eric Vermelho, 32 anos, é tão
singular quanto as manifestações carnavalizadas dos
sem-teto. O nome com que se tornou famoso, por exemplo, não
passa de invenção, e pouco tem a ver com a luta pelas
causas sociais. O prenome é homenagem ao galã americano
de terceira linha Erik Estrada, protagonista do velho e insosso
seriado de TV Chips, do qual o militante do MTST era fã.
O sobrenome Vermelho seria um apelido dado por uma professora de
português quando o então estudante de 13 anos já
fazia redações que considera de forte conteúdo
político. Seu nome verdadeiro é ocultado sob a alegação
de "razões de segurança". Eric diz ter sido alvo de
ameaça de morte recentemente.
Filho
de uma dona-de-casa semi-analfabeta e de um relojoeiro, o neo-radical
é praticamente desconhecido entre os militantes de esquerda.
Nunca foi filiado a partidos e seu currículo como ativista
se limita à participação numa associação
de moradores. De lá, pulou para o MTST, um movimento nascido
em 1996, em Campinas. Só estudou até a 5ª série
e diz que a maior quantia que já teve em mãos foi
1 000 reais, fruto de um mês de sorte como camelô. Em
geral, vive com dois salários mínimos por mês,
o suficiente para sustentar dois filhos e pagar a conta de um celular
que, como ele mesmo diz, "é pai-de-santo, só recebe".
No pulso, o radical do shopping exibe com orgulho um pequeno prazer
burguês um relógio, presente dado por sua mulher
no Dia dos Pais.
Apesar
da biografia rala, Eric Vermelho tem uma oratória de combustão
poderosa, na qual a política econômica do governo federal
é o alvo predileto. Seu discurso é tão virulento
e cheio de clichês quanto o de João Pedro Stedile,
estrela do Movimento dos Sem Terra (MST). Há, porém,
uma diferença fundamental. Enquanto Stedile tem base teórica
e uma carreira fermentada em anos de militância tradicional,
Eric é autodidata. Leituras? Sim, mas todas do tempo em que
trabalhava na seção de livros de uma papelaria. Sabe
de cor trechos de obras com um pé na literatura de auto-ajuda,
como A Arte da Guerra, de Sun Tzu. Clama contra o "neoliberalismo
e a economia globalizada", mas passa longe de Karl Marx. "Não
sei nada sobre marxismo", afirma. "Meu nível de instrução
não permite." Também não tem nenhuma paixão
pelo socialismo, apesar de ostentar uma camiseta com a estampa de
Che Guevara. "Todos os que copiaram o modelo soviético quebraram
a cara", diz. Define-se vagamente como seguidor do "humanismo político",
seja lá o que isso signifique.
A
emergência de manifestações como as do MTST,
com lideranças distantes de partidos e de outras formas de
representação mais tradicionais, é um fenômeno
recente. Personagens com o perfil de Eric Vermelho ocupam lugar
num cenário que já foi dominado por entidades como
a Central Única dos Trabalhadores (CUT) ou as comunidades
eclesiais de base da Igreja Católica. "Essas instituições
não conseguiram tornar-se uma alternativa de poder e abriram
espaço para novos personagens", diz o historiador Edgard
Carone, da Universidade de São Paulo. Em apenas seis meses,
Eric Vermelho conquistou o comando de 1 500 ocupantes do acampamento
Araguaia, na Zona Oeste do Rio, de onde partiu a maioria dos manifestantes
que foram ao shopping. A área, invadida em fevereiro deste
ano, reúne desempregados, ex-presidiários e ex-prostitutas.
As condições de vida são paupérrimas.
O Araguaia limita-se a uma fileira de barracos de madeira e lona
preta entre duas favelas dominadas por traficantes cujo confronto
com a polícia deixou marcas de bala por todos os lados. "A
visita ao shopping foi uma maneira de chamar a atenção",
reconhece Eric. Na semana passada, depois da bagunça documentada
por jornais e TVs, os manifestantes reuniram-se com Garotinho e
obtiveram a promessa de que serão assentados em uma área
próxima ao acampamento. Novos passeios a shoppings e supermercados
estão, portanto, temporariamente adiados. Mas o arsenal de
Eric guarda outras surpresas para o momento em que o MTST partir
para novas reivindicações. "Vamos todos a um restaurante
de luxo", ameaça o novo gênio do marketing político.
"E pediremos apenas água."
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