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O pneu já matou 62 pessoas

A Firestone é acusada de esconder por três anos um grave defeito de fabricação em seus produtos

Cristiano Dias

 
Fotos AP
Veículo capotado e um detalhe do pneu: pouco-caso com a vida humana

Em junho, a americana Nancy Dudley viajava de carro com seu filho de 8 anos por uma estrada da Flórida quando o veículo capotou várias vezes. O menino foi arremessado para fora do automóvel e sofreu danos cerebrais irreparáveis. Algum tempo depois, outra americana viajava pelo país em companhia da avó e seu veículo também capotou. Sua avó morreu na hora. As investigações realizadas até agora mostram que as duas motoristas não fizeram nenhuma manobra imprudente nem trafegavam acima da velocidade permitida na rodovia. Tampouco conduziam automóveis com prazos de revisão vencidos. As autoridades dos Estados Unidos se surpreenderam quando se descobriu que os dois acidentes eram não apenas iguais entre si como semelhantes a 300 outros casos ocorridos no país nos últimos nove anos. Em comum, todos dirigiam carros equipados com um modelo específico de pneu da marca Firestone. O total de mortes relacionadas a esses acidentes chegou a 62 e os feridos já passam de 100. Como boa parte dos veículos envolvidos nos acidentes eram peruas Ford Explorer, a montadora divulgou na semana passada uma nota informando que as falhas não tinham relação alguma com o automóvel em si. No texto, a Ford faz uma acusação gravíssima. Ela afirma que a Firestone conhecia o defeito do pneu havia três anos.

A maior parte dos acidentes de carro é causada por erro humano. Cinco das principais falhas do motorista são: dirigir alcoolizado, trafegar em alta velocidade, furar o farol vermelho, descuidar-se da manutenção e andar com pneu careca. Há diversas pesquisas mostrando que as pessoas ficam angustiadas ao entrar num carro e pensar que os motoristas irresponsáveis colocam sua vida em risco a cada curva, a cada cruzamento. A sensação é ainda pior quando se imagina que, além dos riscos da rua, o veículo possui um defeito grave capaz de se transformar numa armadilha. A todo instante uma montadora brasileira convida os proprietários de determinado modelo de automóvel a comparecer à rede de concessionárias para trocar uma peça defeituosa. É o chamado recall, muito bem-vindo por sinal. Em 1996, a Fiat convocou cerca de 160 000 proprietários de seu modelo Tipo para trocar peças defeituosas que chegaram a causar incêndio em mais de sessenta veículos. No caso específico da armadilha do pneu, o recall foi anunciado tarde demais, há duas semanas. Essa atitude tira o assunto das páginas das revistas especializadas em automóveis e faz com que seja analisado à luz da Justiça. Se a denúncia da Ford for comprovada, a Firestone encobriu um defeito de fabricação de um produto seu como forma de proteger não os consumidores, mas sua imagem – ou, numa hipótese pior ainda, sua fatia de mercado.

Os acidentes envolvendo os pneus da Firestone começaram em 1991. Durante esses nove anos, a Ford e a Firestone colecionaram uma enxurrada de reclamações e ações judiciais. Foram mais de 100 processos contra as duas empresas. Pressionada pelo governo, e principalmente por cidadãos, a Firestone disparou um recall mundial envolvendo a substituição de 14,4 milhões de pneus defeituosos. Estima-se que 6,5 milhões ainda estejam em circulação. O custo total da operação deve bater a casa dos 500 milhões de dólares. Segundo a direção da Ford, a maioria dos pneus defeituosos foi fabricada durante uma greve na fábrica da Firestone no Estado de Illinois, em 1994. Após essa paralisação, o número de queixas decuplicou. A Firestone nega qualquer relação entre a greve e o defeito nos pneus, mas trabalhadores que participaram dos dez meses de paralisação disseram que a empresa utilizou mão-de-obra sem qualificação para continuar produzindo os pneus. O recall deve durar cerca de um ano e meio. Este é o segundo maior recall da história dos Estados Unidos. Em 1978, a mesma Firestone foi obrigada a recolher 7,5 milhões de pneus. Com a imagem em frangalhos, a empresa acabou entrando no vermelho e só voltou a respirar quando a japonesa Bridgestone anunciou sua compra, em 1988.

A perícia comprovou que os acidentes ocorriam em geral quando os veículos percorriam uma grande distância em alta velocidade. A banda de rodagem – a parte do pneu em contato com o solo – se soltava das laterais, levando o pneu a se dilacerar em segundos. Desde o ano passado a Ford passou a receber relatórios assustadores de suas filiais ao redor do mundo. As reclamações foram tantas que a companhia chegou a substituir os pneus Firestone na Arábia Saudita, Malásia, Tailândia e Venezuela, onde também estão sendo investigados 25 acidentes. Nos últimos anos, os brasileiros importaram aproximadamente 5.000 veículos que podem estar equipados com esses pneus defeituosos. A Firestone do Brasil não sabe quantos desses importados estão rodando com os pneus condenados e recomenda aos usuários que procurem uma revendedora e efetuem a substituição.

 

 

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