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Fantasma negro

Preço do óleo bate recorde em
dez anos e o mundo contempla
outra vez a força do combustível

Denise Ramiro

Uma certa inquietação se espalhou por governos, empresas e economistas na semana passada, quando o preço do barril de petróleo esbarrou nos 33 dólares – recorde nos últimos dez anos. Com a economia mundial em crescimento e a demanda por combustíveis em alta, o preço naturalmente sobe. É uma fatalidade da lei de mercado. O movimento, que começou em 1999, parece não ter mais fim. Os estoques de reposição já estão se esgotando. Nada aconteceu de grave em torno do petróleo nos últimos tempos, mesmo porque os preços vêm se alterando aos poucos. O problema é o receio de que possam subir mais, a ponto de causar distúrbios nas economias dos países consumidores. Ninguém se esqueceu do que foram os choques provocados pelos aumentos abruptos e consistentes do preço do barril no passado. O custo do transporte aumenta, as mercadorias que viajam em caminhões também têm seus preços elevados, tudo o que é feito de plástico fica mais caro, o fantasma da inflação volta, os países consumidores do óleo se endividam e o ritmo de crescimento econômico desacelera.


Divulgação/Shell Photo Service
Plataforma de extração de petróleo em águas profundas: nova tecnologia


O problema, no momento, é que quem extrai o produto está com sua capacidade de trabalho no limite. Não consegue oferecer, num curto prazo, mais petróleo ao mercado. Alguns produtores, na verdade, nem querem. É o caso da Venezuela, do Irã, do Iraque, da Líbia e da Indonésia. Esses países estão enfrentando crises econômicas. Precisam urgentemente das receitas provenientes do petróleo. E como seus governantes têm visão de curto prazo acham que, quanto mais caro conseguirem vender o que produzem, melhor. Na semana passada, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, visitou o Iraque, a Líbia e a Nigéria. "Não devemos permitir que os preços caiam. Isso seria uma sentença de morte para os grandes produtores", disse. Há consenso entre a maioria dos demais produtores de que o preço razoável para o barril fica entre 25 e 28 dólares. Algo que mantenha o consumo e dê boa rentabilidade. Ocorre que, para derrubar a cotação do barril, no momento, o mundo só conta com a Arábia Saudita, que é capaz de produzir mais e está disposta a fazê-lo. Mas ainda não conseguiu aplacar a sede dos consumidores.

O mundo já viu esse filme e por isso anda inquieto. Por três vezes, nas últimas décadas, o petróleo – ou, melhor dizendo, sua falta – provocou crises inesquecíveis. A primeira foi em 1973. O mundo vivia uma época de euforia no campo industrial. O consumo de combustível era elevadíssimo e as máquinas dependiam totalmente do petróleo para funcionar. Então, os árabes, os maiores produtores, entraram em conflito com Israel, país que tinha o apoio de americanos e europeus. O resultado foi que os árabes resolveram boicotar o Ocidente, cortando a extração de petróleo em um quarto. O preço do barril saltou de 2 para 12 dólares. O desequilíbrio nas contas foi geral entre os consumidores. Os produtores, por sua vez, encheram as burras de dólares que não tinham como usar em seu território. Conclusão: aplicaram o dinheiro justamente no terreno dos inimigos. Esses dólares financiaram, nos anos seguintes, megaprojetos de desenvolvimento bancados por governos de países periféricos, como o Brasil.

A segunda crise também teve motivação política. A revolução iraniana, que levou ao poder o aiatolá Ruhollah Khomeini, um xiita de primeira linha, provocou outra onda antiocidental no Oriente Médio. Os donos dos poços de petróleo voltaram a reduzir sua produção. O preço do barril saltou para a casa dos 40 dólares em 1979. Houve uma corrida por fontes alternativas de energia. Mesmo assim, a recessão ensombreceu a economia internacional por cerca de cinco anos. Aqueles países que se endividaram em petrodólares, caso do Brasil, quebraram. Em 1985, a Arábia Saudita, atingida pelo esfriamento econômico geral, voltou a produzir petróleo a todo o vapor. Então, o preço do produto despencou para a metade.

Novo problema ocorreu no início da década de 90, quando o Iraque invadiu o Kuwait. A esta altura o mundo já estava meio paranóico. A imagem de poços de petróleo incendiando provocou uma especulação sem precedentes. O preço oscilou bravamente, mas a crise foi rápida, assim como a guerra. Seguiu-se um período de estabilidade e crescimento. A produção de petróleo aumentou com a entrada dos russos no mercado internacional e a descoberta de tecnologias que permitiram a extração em depósitos mais profundos. Mas o consumo disparou em ritmo ainda mais acelerado. A economia mundial cresceu barbaramente em meados dos anos 90. O petróleo até poderia ter provocado novo esfriamento nessa temporada. No entanto, a crise financeira que abalou o desenvolvimento asiático em 1997 evitou nova falta de óleo.

O que se está vendo agora é a volta dessa gangorra. A recuperação econômica fez crescer o consumo e, com ele, novamente o preço do petróleo. O que há de diferente, neste momento, é que existem inúmeras fontes alternativas de energia às quais o mundo pode recorrer, caso o preço do óleo se torne extorsivo. "Não há razão para pânico", diz Edmilson dos Santos, professor do programa de energia da Universidade de São Paulo. "A longo prazo não existe possibilidade alguma de o preço se manter muito elevado. E, se isso acontecer, o Brasil e outros países com reservas ainda inexploradas poderão até sair lucrando. Com certeza não faltarão investidores interessados em abrir novos poços."

 

Olho na bomba

Gladstone Campos
Posto de gasolina: preço do combustível reajustado em 22% no ano


Encher o tanque do carro, no Brasil, já ficou 22% mais caro neste ano. É muito, diante de uma inflação de cerca de 4%. A pergunta que se faz é se haverá novos reajustes. Afinal, a elevação na cotação internacional ainda não foi totalmente repassada para as bombas de gasolina. Os que não acreditam em novas altas acham que o governo fará qualquer coisa para evitá-las por três razões. Há o motivo tradicional: impedir que a inflação comprometa a estabilidade econômica. Há outro, sazonal, relativo ao período eleitoral, quando é conveniente deixar os eleitores com menos motivos de queixa. E há a preocupação com a popularidade baixíssima do governo. Os que arriscam o palpite na correção dos preços consideram que será difícil Brasília resistir à pressão da importação do petróleo na balança comercial.

Na semana passada, o governo tomou providências para evitar que a inflação reacenda, movida a gasolina, diesel e álcool. Sim, porque o Brasil enfrenta também uma crise na produção de álcool, cujo preço subiu quase 70% neste ano. As providências foram de três ordens. Em seu quintal, a Petrobras, o governo determinou um corte de 1,54% no preço nas refinarias. No terreno da tecnologia, reduziu-se a quantidade de álcool anidro adicionado à gasolina. E no campo tributário estão sendo negociados cortes no ICMS sobre os combustíveis. Há mais alternativas em estudo: redução no lucro das distribuidoras, importação de substitutos do álcool e novas misturas, como metanol e etanol. "Como o problema é internacional, só resta ao governo adaptar-se e torcer para que a situação se resolva rapidamente", diz o economista-chefe do Lloyds Bank, Odair Abate.

 

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