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As ricas também choram

Quando milionários se envolvem em escândalos, madames padecem indo ao shopping na surdina

 
Oscar Cabral
Ariadne: cabeleireira em casa e compras na clandestinidade

Em tempos mais amenos, elas viviam entre viagens, compras e colunas sociais. Hoje, ainda viajam (menos) e compram (muito), mas fogem dos holofotes e não atendem ao telefone. Umas vão em frente, cabeça erguida, cabelos cuidadosamente arrumados. Outras se recolhem, entre lágrimas. Em comum, esse bloco das mulheres de milionários enrolados em escândalos políticos e financeiros tem desgostos impensáveis até pouco tempo atrás: amigos que somem, convites que não chegam, gente apontando para elas na rua, maridos distantes e, num caso extremo, a fuga para o desconhecido. No Rio de Janeiro, Ariadne Coelho, 32 anos, ícone das emergentes da Barra da Tijuca, conhecida como "rainha das quentinhas", é a mais nova integrante do time das naufragadas. Seu marido, Jair Coelho, o maior fornecedor de refeições para os presídios do Estado, está preso desde o início do mês, e a festeira Ariadne foi obrigada a se recolher – mesmo destino de Adriana Alves de Oliveira (mulher do ex-banqueiro Salvatore Cacciola), Maria da Glória dos Santos (ex-juiz Lalau), Cleucy Meirelles (ex-senador Luiz Estevão) e Patrícia Mansur (ex-dono do grupo Mappin-Mesbla Ricardo Mansur).

Patrícia Mansur: sem jatinho nem helicóptero, mas com muita reza

Todas borraram a maquiagem, sim, desoladas ao ver o nome da família no noticiário policial. Mas a vida continua, e alguns rituais – fazer cabelo e unhas, renovar o guarda-roupa – são sagrados. Ariadne, casada há seis anos com Jair, 37 anos mais velho e dono de uma fortuna estimada em 70 milhões de dólares, ainda não se refez do susto. Estava flanando em Paris quando soube da prisão do marido, acusado de usar títulos públicos falsos como garantia de seus contratos com o governo do Rio de Janeiro. Voltou correndo para o Brasil, com a rotina transtornada. Jorge, o filho de 7 anos, não vai mais à escola, e os gêmeos, Jairzinho e Tiffany, de 3 anos, só dormem com ela. Antes do infausto acontecimento, gastava 150 reais a cada dois dias num salão de beleza da Zona Sul do Rio. Agora, recebe a cabeleireira em casa três vezes por semana. Deixar de ir ao shopping não dá, mas ela só circula nos horários de pouco movimento – abastece-se praticamente na clandestinidade.

A emergente milionária sabe das maledicências que circularam desde que Jair foi preso e ela não apareceu para uma única visita. Mas não dá a menor bola. "Recebi ordens dele para não ir de jeito nenhum. Seria humilhada", disse Ariadne a VEJA na semana passada. Mudou o número do celular e jura que nunca mais convidou ninguém para ir à mansão de 3.000 metros quadrados na Barra da Tijuca, com palmeiras importadas de Miami nos jardins, torneiras banhadas a ouro nos banheiros e jóias estonteantes nos cofres. "Ela não quer ver nem os amigos", comenta, ar preocupado, a socialite Narcisa Tamborindeguy.

Tina Coelho
Dida Sampaio/AE
Cleucy em sociedade e visitando Luiz Estevão na cadeia: marido perfeito

A mesma Barra abriga o infortúnio da gaúcha Adriana Alves de Oliveira, 36 anos, a senhora Salvatore Cacciola. No condomínio de prédios Golden Green, o mais caro do Rio, a miss Brasil 1981 viu seu mundo desabar na mesma velocidade com que conquistou o coração do então poderoso dono do banco Marka, há quatro anos. Pela loura de 1,80 metro e sorriso encantador o banqueiro desfez um casamento de quase trinta anos. Deu-lhe vida de "esposa troféu", como dizem os americanos para definir as beldades que surgem no ápice da carreira dos homens bem-sucedidos. Entre amigas, Adriana louvava a generosidade do marido, que nunca lhe impôs mesquinharias como mesada fixa. Era cartão de crédito liberado, despesas à vontade. Com o escândalo, a mão sempre aberta, parece, vacilou. Depois de passar um dia inteiro reabastecendo o closet em um shopping carioca, Adriana disse à vendedora: "Vou pagar agora, mas passo para buscar depois". Não queria que o marido, ainda livre e a sua espera no carro, visse tanta sacola, explicou. Quando explodiu o caso da venda de dólares abaixo do preço ao Marka, o casal ainda compareceu a alguns eventos sociais. Em junho, porém, Cacciola foi parar atrás das grades, e lá ficou 37 dias. Solto por liminar do Supremo Tribunal Federal, escafedeu-se para Roma, aproveitando a cidadania italiana. Adriana, descacciolada, passa o tempo entre a Barra e Porto Alegre, onde moram seus pais. E faz compras: recentemente, foi vista, celular numa das mãos e sacolas na outra, conversando com o marido em um shopping.

A perspectiva de uma vida na ponte aérea Rio–Roma parece até idílica quando comparada ao destino de Maria da Glória dos Santos, 65 anos, mulher do juiz Lalau, o das obras superfaturadas do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Mulher de temperamento forte, que chegava a delimitar os horários em que o marido podia atender ao telefone (nunca durante nem depois do jantar) e há dez anos o expulsou da suíte do casal por roncar demais, ela se juntou a ele na clandestinidade dos foragidos da Justiça. Foi o passo final na derrocada. Quando surgiram as acusações contra o marido, Glorinha, como é chamada, entrava no salão de beleza do Jockey Club de São Paulo, que freqüenta há quinze anos, e escondia-se atrás de uma revista. Numa tarde em que as manicures manifestaram sua solidariedade, caiu em prantos. "Não merecia isso", soluçou. Acabaram-se os almoços com as amigas, os fins de semana na casa do Guarujá que Lalau exibia com tanto orgulho nos vídeos caseiros, as temporadas no apartamentão de Miami, os presentes constantes do marido que caiu apaixonado quando ela era uma graciosa estudante de colégio de freiras em São Paulo e até hoje faz de tudo para evitar discussões.

Álbum de família
Glorinha e Lalau, na juventude e em Miami, com as filhas: choro no salão

Bem longe do inferno astral de Glorinha, em Brasília, o TRT-SP povoa também os piores pesadelos de Cleucy, a mulher do empresário Luiz Estevão, cassado do Senado depois que seu grupo foi acusado de envolvimento na tramóia. Cleucy, que idolatra o marido e o acha incapaz de qualquer deslize, não se conforma. Durante o processo de cassação, visitou a casa de cinco senadores, para implorar, em prantos, que as respectivas mulheres intercedessem em favor do marido. Cleucy é de família rica e acostumou-se a um lugar privilegiado na sociedade brasiliense. Agora, está penando. Num almoço recente, teve de ouvir de uma das convidadas, mulher de ministro conhecida pelo estilo direto: "E aí, Cleucy? O Luiz Estevão vai fugir ou se matar?" Pálida, correu para o banheiro e voltou com o rosto inchado de tanto chorar.

Católica fervorosa, as amigas contam que ela se apega à religião para enfrentar a crise – o mesmo refúgio buscado por Patrícia Mansur, embora, em seu caso, ter o sobrenome envolvido em escândalo não seja propriamente novidade. Ricardo Mansur é o empresário que quebrou desde a fábrica de chapéus Ramenzoni, nos anos 70, até as tradicionalíssimas lojas de departamentos Mappin e Mesbla. Teve prisão decretada duas vezes e escapou de diversas intimações da Justiça, sob alegação de problemas de saúde. Mas nunca tinha tido de fugir do país, como agora. Patrícia atribui a desagregação familiar ao maligno. Evangélica convertida há alguns anos, ela já promoveu várias reuniões de fiéis da Igreja Vida Nova em sua casa, nas quais chorou, gritou e falou enrolado. Para quem tem fé, é pouca coisa perder o helicóptero, o jatinho e alguns Mercedes da família (permanecem a mansão do Morumbi, a fazenda do Texas, o haras do interior de São Paulo e a casa de Londres). Mas não há como deixar de reconhecer que as madames também sofrem.

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