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Seqüestro relâmpago

Ladrões rendem tripulação de jato
no ar, forçam pouso e
fogem com
5 milhões de reais

João Gabriel de Lima, de Londrina
e Cristine Prestes, de Foz do Iguaçu

 
Ricardo Benichio

Entre os 57 passageiros a maioria eram estrangeiros

Uma nova modalidade de crime foi criada na semana passada no Brasil: o seqüestro relâmpago de avião. Na quarta-feira 16, cinco bandidos renderam o piloto e a tripulação de um Boeing 737-200 da Vasp, que fazia o trajeto entre Foz do Iguaçu e Curitiba. Obrigaram o comandante a pousar no aeroporto da cidade paranaense de Porecatu, a 80 quilômetros de Londrina, no Paraná. Dali, fugiram numa caminhonete Ranger 5 milhões de reais mais ricos, após roubar um carregamento de dinheiro que estava sendo transportado de uma agência a outra do Banco do Brasil. Um tiro foi disparado por acaso, mas nenhum dos 57 passageiros saiu ferido. A operação toda durou cerca de quarenta minutos – menos do que a maioria dos seqüestros relâmpagos terrestres, nos quais um assaltante invade um carro e, mantendo o dono sob mira, o obriga a sacar o próprio dinheiro num caixa eletrônico. O roubo coroou uma semana marcada por crimes ousados. Na noite de sábado 12, vinte homens armados de metralhadoras e escopetas assaltaram um supermercado Carrefour em São Paulo. Na noite seguinte, foi a vez de um hotel cinco estrelas da mesma cidade. Poucos dias antes, moradores de um condomínio de luxo com seis seguranças haviam visto sua pretensa fortaleza ser invadida por quinze assaltantes. O seqüestro relâmpago do avião, no entanto, superou a todos em ousadia. Aviões já foram seqüestrados por terroristas. Assaltos a aeronaves paradas na pista já estão, infelizmente, ficando comuns no Brasil. Roubar um avião em pleno ar é a primeira vez.

Além de ousadia, ataques desse tipo requerem um planejamento bem-feito. Em primeiro lugar, para desviar um vôo, os bandidos precisam informar-se sobre alguns rudimentos de navegação aérea. Só assim podem evitar que o comandante tente enganá-los com dados falsos ou mesmo que acione algum tipo de policiamento no aeroporto onde vão pousar. Sempre que um avião muda de rota sem avisar a torre, os controladores de vôo desconfiam. Além disso, aviões desse porte possuem no painel um botão que, quando acionado, transmite para terra o alarme de seqüestro. Quando tomaram conta do avião, os bandidos informaram os passageiros de que havia um piloto entre eles. De acordo com as instruções que passaram ao comandante, pareciam estar falando a verdade. Logo que renderam o piloto, obrigaram-no a fazer o avião "sumir" no ar, cortando o contato com a torre de controle. Depois, forçaram-no a desligar o "transponder" – o tal equipamento que possibilita que o alarme anti-seqüestro seja disparado. Por último, forneceram ao comandante indicações geográficas precisas sobre o aeroporto de Porecatu, onde queriam descer.

"Cinco milhões, só isso?" – Embora a cidade de Porecatu não esteja na rota de nenhuma companhia aérea, ela possui uma pista de pouso asfaltada de 2.100 metros de extensão, comprimento equivalente ao de um aeroporto comercial de pequeno porte. Não há no local nenhum setor de embarque e desembarque nem esquema de vigilância. O aeroporto é utilizado apenas por uma empresa que borrifa inseticida nas plantações da região – a pista fica no meio de um canavial – e por sócios e executivos do grupo Atalla, proprietário de uma usina de açúcar no lugar. Há somente dois hangares ao lado da pista, e o policiamento se restringe a um guarda para os aviões borrifadores e outro para algum eventual jatinho dos usineiros. O aeroporto parece feito sob medida para um seqüestro. Oferece boas condições de pouso e nenhuma segurança. As únicas pessoas presentes no local quando o avião da Vasp se aproximou da pista eram dois pilotos, um segurança e um mecânico. Há anos uma aeronave daquele porte não pousava por lá.

O episódio é ilustrativo da rapidez com que as informações circulam no mundo do crime organizado. Depois de controlar o piloto e a tripulação, os assaltantes, todos com o rosto coberto, concentraram-se num passageiro em especial, Joelson Goes Maciel, representante da empresa curitibana TGV, especializada em transporte de dinheiro. Eles sabiam quem ele era e o que estava fazendo ali. Pelo microfone, informaram que não iriam machucar ninguém nem assaltar os passageiros. Estavam apenas de olho no dinheiro pelo qual Joelson zelava. Pediram os papéis referentes ao transporte. Ao conferir a quantia, um deles ainda fez piada: "Cinco milhões, só isso?" Quando o avião desceu em Porecatu, quatro dos cinco seqüestradores dirigiram a tripulação para o local exato, no compartimento de bagagens, onde estava o dinheiro – dando a entender que já possuíam essa informação previamente. Até a sexta-feira da semana passada, a polícia paranaense não tinha pistas da quadrilha, apenas suspeitas. Uma delas recaía sobre um bandido famoso no Estado chamado Marcelo Borelli. Criminoso foragido, ele conhece bem a região e tem no currículo dois assaltos a carros-fortes, ambos da mesma TGV, a empresa responsável pelo transporte do dinheiro na Vasp.

Pela comparação entre a lista de embarque em Foz do Iguaçu e a relação dos desembarcados em Londrina, sabia-se, na sexta-feira passada, o nome, falso, dos cinco assaltantes: Julio Ribeiro, Robson Santana, Erasmo Zapoluti, Carlos Oliveira e Antonio Manfrini Junior. Um ponto intrigante do assalto é como as armas teriam ido parar dentro do avião, já que em todos os aeroportos é feito um rígido controle da bagagem dos passageiros por meio de detectores de metal. O mais provável, segundo a polícia, é que tenham sido colocadas lá por alguma das cerca de vinte pessoas que têm acesso a uma aeronave quando ela está na pista de um aeroporto – funcionários da própria companhia, da Infraero, pessoal de limpeza, abastecimento e transporte de cargas.

Aula sobre o Brasil – A maior parte dos passageiros do avião era formada por turistas estrangeiros. O fato de não entender uma só palavra do que diziam aqueles homens armados só tornava a situação mais tensa para eles. Um turista chinês tentou abrir a porta de emergência em pleno ar – e foi imediatamente detido pelos seqüestradores. Um italiano, que não quis se identificar, disse o que passou pela cabeça dos dezesseis turistas peninsulares que viajavam com ele na mesma excursão. "Quando os bandidos sacaram as armas pensei que se tratava de um grupo do tipo Sendero Luminoso. A gente ouve falar muito desses terroristas sul-americanos na Europa. Achei que poderia ser um seqüestro longo", disse a VEJA. Felizmente, tudo se resolveu em poucos minutos. Enquanto os seqüestradores escapavam por estradas de terra, os passageiros permaneceram com seus momentos de angústia. Por acreditar que algum seqüestrador pudesse ainda estar a bordo, a polícia manteve todos trancados por uma hora dentro do avião em Londrina, sem ar condicionado nem água, enquanto soldados armados cercavam o avião. Depois de dar o nome aos policiais no saguão do aeroporto, os passageiros eram liberados.

Entre eles, depois do ocorrido, a sensação, claro, era de alívio. "Chegou uma hora em que parei de sentir medo, pois os bandidos pareciam ter tanto controle da situação que até faziam piadas", relembra a advogada e professora Maria Christina de Almeida, de Curitiba, que havia ido a Foz do Iguaçu para dar uma aula como substituta numa faculdade local, referindo-se ao episódio do "só 5 milhões?". O funcionário público italiano Alessandro Trigo, de Modena, que viajava com a família, declarou-se surpreso com a atitude das aeromoças. "Elas mereciam uma medalha de ouro pela calma demonstrada", dizia ele no dia seguinte, no saguão do hotel, enquanto seus cinco filhos procuravam nos jornais locais fotos deles próprios. "Acho que aprendi algo sobre o Brasil", arrematou Trigo. Lamentavelmente, aprendeu mesmo.

Com reportagem de Luís Henrique Pellanda
e Sônia Marques

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