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Internacional É notável
o poder da religião na política americana,
O republicano John McCain, batista, 71 anos, considera-se um "cristão", e não um "cristão evangélico". Costuma ir à igreja, mas não "tanto quanto deveria". De uns tempos para cá, seus assessores na campanha eleitoral diligentemente informam à imprensa quando o candidato vai à igreja, para que a foto não seja desperdiçada. O democrata Barack Obama, 46 anos, batizado na fé cristã depois de adulto, reza todos os dias, de vez em quando lê a Bíblia e agradece a Deus antes das refeições. Todas as informações acima vieram a público nos últimos dez dias. Na política dos Estados Unidos, não se passa mais que um curto intervalo de tempo sem que a religião, ou um assunto correlato, dê o ar de sua graça no debate eleitoral. Na Europa rica, menos da metade da população acredita em Deus. Na França, os devotos não chegam a 30%. No Japão, só nesta década já foram fechados 600 templos budistas. Mas nos Estados Unidos, ao contrário do que se passa nos países desenvolvidos, a religião é altamente popular e um tema recorrente. Uma pesquisa do Pew Forum on Religion & Public Life informa que quase 90% dos americanos acreditam em Deus e que mais de 70% vão à igreja com uma freqüência que varia de uma vez por semana a algumas vezes por ano. Não há país rico mais devoto que os Estados Unidos.
Ninguém achou uma explicação definitiva para a profunda religiosidade dos americanos, mas a tese mais aceita é a do "livre mercado religioso". A competição teria ajudado a religião a galvanizar a atenção pública. A liberdade de crença atraiu uma miríade de denominações e deu origem a algumas genuinamente americanas, como Testemunhas de Jeová, fundada em 1872, Ciência Cristã, de 1879, mórmons, também do século XIX, e o pentecostalismo, de 1906. A competição livre abriu espaço também para o culto literal às mais excêntricas e fundamentalistas regras bíblicas como mostra o jornalista A.J. Jacobs, em um livro de humor impagável (veja o quadro). A teoria mais aceita é a de que, como nunca tiveram uma religião oficial, os Estados Unidos acabaram virando um mercado aberto onde todas as religiões disputam novos fiéis em um ambiente de competição livre e acirrada. A separação entre igreja e estado se deu pela genialidade de James Madison (1751-1836), quarto presidente e chamado de "Pai da Constituição". Madison é o autor da Primeira Emenda, que estabeleceu a liberdade religiosa no país. Ele o fez por temer uma guerra entre as denominações protestantes, o que poderia enfraquecer a união das colônias e inviabilizar a recém-nascida nação.
Com uma massa enorme de crentes e um governo que se diz seguidor da orientação divina, fica parecendo que os EUA viraram um refúgio de carolas, derrubaram a clássica separação igreja-estado e deixaram que a fé dominasse a vida pública. Engano. A história mostra que a sociedade americana, apesar da Primeira Emenda, viveu uma tensão constante entre o secular e o religioso, o sagrado e o profano. Mas foi justamente o debate aberto e permanente sobre essa tensão que impediu a religião de entrar onde não deve no governo e nas instituições públicas. Tanto que a América colonial começou a ser ocupada como uma Nova Israel, para onde fugiam protestantes em busca de liberdade de crença, mas o novo país, quando se tornou independente, nasceu sem uma fé oficial. Foi um feito notável, considerando que os colonos da América, apesar da aragem iluminista e da Revolução Francesa, estavam encharcados de preconceito contra judeus, pagãos e papistas. Na semana passada, a tensão entre política e religião estava na capa da Newsweek, a segunda maior revista semanal, que estampava uma foto de Obama rezando, contrito, e fazia uma chatíssima radiografia de sua fé. Também estava numa divertida ilustração da revista New Yorker, na qual se exploram as aleivosias do submundo de campanha lançadas contra os Obama mas, num sinal de que o bom humor está em decadência, foi recebida com uma monumental hostilidade por democratas e republicanos. Na ilustração, Michelle, mulher do candidato, carrega uma metralhadora às costas, a bandeira americana está queimando na lareira e Obama usa um turbante islâmico. A central de baixarias não pára de espalhar que Obama é muçulmano, acusação mortal no país dos atentados de 11 de setembro perpetrados por dezenove muçulmanos. A mentira tem dado algum resultado: 12% dos americanos acreditam que Obama é mesmo servo de Alá. Nunca foi. É filho de mãe cristã que virou agnóstica e pai muçulmano que virou ateu. A influência religiosa na política também pode ser explicada por um motivo mais terreno o voto facultativo, que força os candidatos a mobilizar o eleitor. "Os políticos bem-sucedidos são aqueles capazes de levar grandes massas às urnas, e é mais fácil e rápido mobilizar os religiosos porque eles já estão organizados em torno das igrejas", disse a VEJA a jornalista Laurie Goodstein, que cobre religião há quinze anos, onze dos quais para o The New York Times. Goodstein completa: "O pessoal que trabalha nas campanhas sabe disso e explora crescentemente essa conexão entre religião e política".
Na política americana, quem não disputa o voto religioso está perdido. Na atual campanha, os dramas divinos de Obama são conhecidos e começaram quando seu ex-pastor Jeremiah Wright pipocou em vídeos fazendo discurso de danação à América. Obama rompeu com o pastor e, depois, com a própria igreja, a Trinity United Church of Christ. (No momento, está sem igreja, e diz que só vai procurar outra depois da eleição.) John McCain, que cresceu episcopaliano e virou batista, tem o próprio calvário. Em maio, teve de recusar o apoio de dois fundamentalistas. John Hagee, para quem Hitler e o holocausto foram providências divinas para levar os judeus à Palestina, e o reverendo Rod Parsley, autor de pregações islamofóbicas. Para vencer, McCain precisa do voto da direita religiosa, que elegeu Bush duas vezes. São 55 milhões de evangélicos adultos. Mas a direita religiosa desconfia de McCain e não esquece que, em 2000, ele chamou dois de seus líderes, Pat Robertson e Jerry Falwell, de "agentes da intolerância". Estava certo. Robertson é defensor do apartheid e Falwell, morto no ano passado, foi um cálido segregacionista. Mas estar certo nem sempre dá voto. Presente desde a fundação do país, o ativismo político dos grupos religiosos muda conforme a época. Às vezes, entra em cena a direita religiosa, por julgar que o governo e a Justiça estão se afastando da herança espiritual e dos valores morais fundadores da nação, como aconteceu do fim da década de 1970 em diante. Outras vezes, a cena é ocupada pela esquerda religiosa, por achar que o governo está sendo leniente no combate à pobreza e à injustiça social, como ocorreu no fim do século XIX e, mais recentemente, na década de 1960, quando se chegou ao auge do movimento pelos direitos civis. Essas oscilações pendulares, à direita ou à esquerda, são sempre "inspiradas por uma visão particular da América como uma nação cristã", diz o estudioso Frank Lambert, autor de Religion in American Politics. Agora, está acontecendo um balé semelhante. Os religiosos mais conservadores, que dominam a cena política há quase três décadas, parecem começar a ceder lugar aos chamados "novos evangélicos", menos preocupados com a agenda moral do aborto ou do casamento entre pessoas do mesmo sexo e mais atentos ao meio ambiente, à pobreza e à aids. As urnas da eleição presidencial em novembro dirão que grupo religioso terá a hegemonia política e cultural nos próximos anos.
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