Na quinta-feira da
semana passada, o ex-banqueiro Salvatore Cacciola desembarcou
no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, após vinte
horas de uma viagem iniciada no principado de Mônaco,
com escalas em Nice e Paris. Era o fim de uma batalha judicial
pela extradição do ex-banqueiro que se arrastou
por dez meses. Nesse período, ele ficou preso em Mônaco.
No Rio, seu destino foi o complexo penitenciário de Gericinó,
na Zona Oeste. Pivô do mais grave escândalo financeiro
da farta crônica do gênero no Brasil, Cacciola ficou
foragido por oito anos, beneficiado pela cidadania italiana.
Ele foi detido no Rio Grande do Sul em 2000, mas passou pouco
mais de um mês atrás das grades. Ao fim desse período
obteve um habeas corpus. Quando a Justiça mandou prendê-lo
de novo, descobriu que ele havia fugido para a Itália,
onde sua cidadania o livrava da extradição. A
vida boa acabou quando, certo da impunidade, resolveu passear
em Mônaco. Acabou preso pela Interpol.
Ed Ferreira/AE
Francisco Lopes, ex-presidente
do BC: condenado
O escândalo protagonizado por Cacciola não se destaca
apenas pelas cifras envolvidas. Trata-se de um caso único
pela circunstância e pelas suspeitas de vazamento de informações
no Banco Central. No caso Marka/FonteCindam, como o episódio
se notabilizou, a autoridade monetária ficou sob fogo.
Uma operação de socorro a dois bancos pequenos
custou 1,6 bilhão de reais aos cofres públicos
e foi feita com a justificativa discutível de que se
tentava prevenir com isso uma "crise sistêmica".
Na turbulência de 1999, que resultou na desvalorização
do real, os bancos Marka, de Cacciola, e FonteCindam, de Luiz
Antônio Gonçalves, haviam apostado na manutenção
da política de câmbio. Só não quebraram
porque o Banco Central os socorreu, alegando ter sido alertado
numa carta da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F)
para o risco que o fechamento das duas instituições
representaria para o sistema financeiro. Descobriu-se, depois,
que se tratava de uma farsa, já que o documento havia
sido encomendado pelo próprio BC, a posteriori, para
justificar a ajuda. Além de Cacciola, foram denunciadas
dez pessoas, sete das quais condenadas: o ex-presidente do Banco
Central Francisco Lopes e outros três ex-diretores do
órgão Tereza Grossi, Cláudio Mauch
e Demosthenes Madureira de Pinho Neto , Luiz Antônio
Gonçalves, Luiz Augusto Bragança, consultor do
Marka, e Roberto Steinfeld, do FonteCindam.
Cacciola sempre ameaçou
contar detalhes do episódio e revelar o nome de outros
envolvidos no esquema. Chegou a chantagear o governo, conforme
VEJA revelou em 2001. O ex-banqueiro havia feito grampos ilegais
para provar a existência de um esquema de vazamento de
informações no BC do qual ele próprio
foi cliente. Depois usou as gravações para tentar
salvar sua pele. Se ele tem realmente algo a dizer, terá
agora a oportunidade de fazê-lo, já que deverá
ser novamente interrogado na Justiça. Ao desembarcar
no Rio, Cacciola estava bem à vontade. Deu até
entrevista coletiva. Ele reclamou que os outros réus
no processo que o condenou estavam respondendo em liberdade.
Nenhuma menção a uma diferença essencial
em relação aos demais envolvidos: ele foi o único
que fugiu.