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23 de julho de 2008
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7. A (re)abertura dos portos

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Ipojuca/PE
De Pernambuco para o mundo

O Porto de Suape inaugura um novo
ciclo de riqueza na economia nordestina


Leonardo Coutinho

Fotos Leo Caldas/Titular
À esquerda, operários com os macacões tão cobiçados em Ipojuca constroem o maior estaleiro do Hemisfério Sul. A obra alavancará o distrito industrial do terminal à direita, tido como o melhor porto público do país

Pernambuco iniciou um novo ciclo de enriquecimento – e ele está ancorado no Porto de Suape, a 40 quilômetros do Recife. Os investimentos previstos pelas empresas que pretendem operar na cidade de Ipojuca, à qual o porto pertence, somam 12 bilhões de dólares. A dinheirama transformou Suape no maior canteiro de obras do país. Quarenta mil operários trabalham na construção de novas fábricas, que, uma vez prontas, empregarão 15 000 pessoas. A demanda por mão-de-obra qualificada levou milhares de cortadores de cana, pescadores, biscateiros e comerciários de volta aos bancos escolares. Todos sonham em se misturar à multidão que espera os ônibus que ligam o centro de Ipojuca ao porto e ao distrito industrial. Vestir um macacão cinza, pardo e laranja como os desses operários é uma obsessão regional.

Inaugurado em 1984, Suape foi planejado para operar em associação com um complexo industrial, concepção idêntica à dos terminais de Marselha, na França, e de Kashima, no Japão. O potencial logístico, as vantagens fiscais e a mão-de-obra barata atraíram setenta empresas nos primeiros anos de funcionamento do porto. Para o fabricante de veludos Corduroy, o terceiro maior do mundo, foi fundamental instalar uma fábrica na área industrial de Suape. Mais perto da Europa e dos Estados Unidos, ela entrega uma encomenda à clientela em vinte dias, quarenta a menos que seus concorrentes asiáticos. Ainda assim, o potencial do terminal foi subaproveitado. Em 2005, o governo iniciou dois grandes projetos que lhe deram mais consistência econômica. Um deles é a refinaria Abreu e Lima, da Petrobras, que dará auto-suficiência em diesel ao Brasil.

Também determinante para o sucesso de Suape foi sua escolha para sede do maior estaleiro do Hemisfério Sul, das empreiteiras Camargo Corrêa e Queiroz Galvão. O Atlântico Sul já tem encomendas de doze petroleiros, que só serão concluídos em 2014. Para atender a sua demanda e à de outras fábricas, a CSN construirá no local uma siderúrgica de 6 bilhões de dólares. A industrialização está mudando as relações de trabalho e a sorte de uma população. O destino das vizinhas de Masilda de Souza, de 36 anos, foi o canavial. Ela só escapou dele porque seu pai tinha uma venda. Adulta, sobreviveu vendendo roupa de cama de porta em porta. Carregava diariamente um fardo de 15 quilos. "Sofria com o sol e dores nos braços, mas dizia: ainda vou trabalhar em Suape." Há sete meses, o Atlântico Sul a contratou porque ela obteve um dos primeiros lugares num concurso com 5 000 candidatos. Antes chamada de Masilda do Lençol, ela é, agora, "a mulher do estaleiro".

Casos como o de Masilda mostram que Suape está fazendo em Pernambuco uma revolução comparável à produzida pela cana-de-açúcar no século XVII. Até os anos 90, pensava-se que o futuro do porto estava atrelado apenas ao desenvolvimento industrial. Ele está se convertendo em escoadouro de soja. A ferrovia Transnordestina o conectará às regiões produtoras do grão no Nordeste. "Suape mudará a matriz econômica de Pernambuco", diz o economista Osmil Galindo, da Fundação Joaquim Nabuco. Os investimentos desembocam no porto de Ipojuca por causa de sua situação privilegiada. Seus 15 metros de calado e seu canal de 300 metros de largura comportam a maioria dos grandes cargueiros do mundo. Bem abrigados, os cais permitem a atracação sob quaisquer condições de tempo. Por causa dessas características, além da ampla área de retroporto e dos equipamentos modernos de que dispõe, Suape é considerado o melhor terminal público do país.

Nesta década, a arrecadação municipal subiu espetaculares 1 000%. A riqueza recente ainda não se traduziu em indicadores sociais, mas o número de crianças matriculadas nas escolas subiu de 13 500 para 25 000 desde 2000. Empregos e melhores condições de vida incentivaram a imigração. A população cresceu 17% desde 2000 e hoje é de 70 000 habitantes. Até o fim da década, aumentará mais 20%. Ainda assim sobram empregos. O comércio comemora. Há três anos, Cláudio Barbosa, dono do supermercado Gordinho, tinha oito funcionários e vendia 30 toneladas de alimentos por mês. Hoje, emprega noventa pessoas e suas vendas quintuplicaram. Há três meses, Barbosa passou a construir casas para os trabalhadores de macacão cinza, pardo e laranja de Suape em áreas que eram ocupadas por canaviais plantados há quatro séculos.



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