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Ponto
de vista: Luiz
Felipe de Alencastro
Brasil e Portugal
"Velho
país de emigração, Portugal lida agora
com problemas decorrentes da inserção de
imigrantes. Novo país de emigração, o Brasil
aprende a proteger seus cidadãos expatriados
em terras longínquas"
Ao
lado dos encontros oficiais nos diferentes países, a viagem
do presidente Lula à Europa deu lugar aos qüiproquós
que costumam marcar esse gênero de acontecimento. À
margem do noticiário revelaram-se os vieses portugueses,
ingleses e espanhóis sobre o Brasil e o resto do mundo.
Ilustração Ale Setti
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Na Inglaterra, um comentarista do jornal Financial Times
ignorou as precedentes viagens de Lula a outros países europeus
e escreveu que esta era a primeira vez que o presidente brasileiro
visitava a Europa. Maneira de dizer que Londres é o centro
do Velho Mundo. Na Espanha, escaldados pela bancarrota argentina,
os empresários expressaram sua inquietação
a respeito de seus investimentos no Brasil. Em Portugal os mal-entendidos
foram mais sugestivos, porque se remeteram às ambigüidades
do passado que une os dois países.
Na
sessão parlamentar em homenagem à comitiva brasileira,
o presidente da Assembléia da República, deputado
Mota Amaral, arbitrou fazer cobranças políticas ao
presidente Lula num "discurso paternalista, velho, que não
dignifica Portugal", conforme as palavras da deputada socialista
portuguesa Helena Roseta. Mas o incidente foi rapidamente superado.
Não teve nada a ver com o que aconteceu em 1872, durante
a viagem de dom Pedro II à Europa, quando Eça de Queiroz
escreveu crônicas deliciosas sobre o deslumbramento e a tietagem
do imperador junto aos intelectuais europeus. As crônicas
de Eça causaram espécie, e até tumultos antilusitanos
no Brasil. Na época, o substantivo "brasileiro" era geralmente
entendido em Portugal como sinônimo do emigrante português
que voltava à pátria após ter enriquecido no
Brasil. A tal ponto que Eça, numa crônica, para evitar
confusão semântica entre uns e outros brasileiros,
se referiu aos nativos do Brasil como "brasileiros brasílicos".
Até
a década de 1950, o Brasil constituiu o principal destino
da emigração lusitana e os portugueses aparecem como
o primeiro contingente de imigrantes no Brasil no século
e meio posterior à Independência, de 1820 a 1972. Na
maior parte do século XIX, o parentesco bragantino das duas
coroas facilitou as relações entre os dois países.
Todavia, o advento da República mudou tudo no Brasil, gerando
antipatias contra a influente comunidade portuguesa no Rio de Janeiro,
suspeita de sentimentos anti-republicanos. Houve até, em
1893, ruptura das relações diplomáticas luso-brasileiras.
Em seguida, os portugueses proclamaram a República (1910)
e, para o pior e para o melhor, restabeleceram-se as analogias políticas
nos dois lados do Atlântico. O pior veio logo, com a ditadura
salazarista, que se estendeu por décadas, acumpliciando-se
às duas ditaduras brasileiras a varguista e a militar
em sinistras empreitadas liberticidas. O melhor veio depois,
com a Revolução dos Cravos (1974), que redemocratizou
Portugal e, como lembrou Lula em Lisboa, estimulou a luta pela democracia
no Brasil. No fim das contas, ambos os países atravessaram
o século passado castigados por ditaduras e chegaram tardiamente
à democracia plena.
Agora,
a imigração brasileira em Portugal está no
centro das discussões entre os dois países e o substantivo
brasileiro assume, em partes da terra lusitana, um sentido pejorativo,
ligado ao trabalho clandestino e a atividades subalternas. Mais
especificamente, uma sondagem realizada em Portugal sobre os imigrantes
africanos, brasileiros e do Leste Europeu mostra dados penosos.
Perguntados sobre o tipo de insegurança transmitido pelas
três comunidades, os portugueses associaram os imigrantes
africanos predominantemente aos atos de violência, os do Leste
Europeu às máfias e os brasileiros à prostituição.
Velho
país de emigração, Portugal lida agora com
problemas decorrentes da inserção de imigrantes. Novo
país de emigração, o Brasil aprende a proteger
seus cidadãos expatriados em terras longínquas. Haverá
muitas experiências a ser trocadas no quadro do respeito mútuo
e da tolerância cultural.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor
titular da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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