Edição 1812 . 23 de julho de 2003

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Ponto de vista: Luiz Felipe de Alencastro

Brasil e Portugal

"Velho país de emigração, Portugal lida agora
com problemas decorrentes da inserção de
imigrantes. Novo país de emigração, o Brasil
aprende a proteger seus cidadãos expatriados
em terras longínquas"

Ao lado dos encontros oficiais nos diferentes países, a viagem do presidente Lula à Europa deu lugar aos qüiproquós que costumam marcar esse gênero de acontecimento. À margem do noticiário revelaram-se os vieses portugueses, ingleses e espanhóis sobre o Brasil e o resto do mundo.

Ilustração Ale Setti


Na Inglaterra, um comentarista do jornal Financial Times ignorou as precedentes viagens de Lula a outros países europeus e escreveu que esta era a primeira vez que o presidente brasileiro visitava a Europa. Maneira de dizer que Londres é o centro do Velho Mundo. Na Espanha, escaldados pela bancarrota argentina, os empresários expressaram sua inquietação a respeito de seus investimentos no Brasil. Em Portugal os mal-entendidos foram mais sugestivos, porque se remeteram às ambigüidades do passado que une os dois países.

Na sessão parlamentar em homenagem à comitiva brasileira, o presidente da Assembléia da República, deputado Mota Amaral, arbitrou fazer cobranças políticas ao presidente Lula num "discurso paternalista, velho, que não dignifica Portugal", conforme as palavras da deputada socialista portuguesa Helena Roseta. Mas o incidente foi rapidamente superado. Não teve nada a ver com o que aconteceu em 1872, durante a viagem de dom Pedro II à Europa, quando Eça de Queiroz escreveu crônicas deliciosas sobre o deslumbramento e a tietagem do imperador junto aos intelectuais europeus. As crônicas de Eça causaram espécie, e até tumultos antilusitanos no Brasil. Na época, o substantivo "brasileiro" era geralmente entendido em Portugal como sinônimo do emigrante português que voltava à pátria após ter enriquecido no Brasil. A tal ponto que Eça, numa crônica, para evitar confusão semântica entre uns e outros brasileiros, se referiu aos nativos do Brasil como "brasileiros brasílicos".

Até a década de 1950, o Brasil constituiu o principal destino da emigração lusitana e os portugueses aparecem como o primeiro contingente de imigrantes no Brasil no século e meio posterior à Independência, de 1820 a 1972. Na maior parte do século XIX, o parentesco bragantino das duas coroas facilitou as relações entre os dois países. Todavia, o advento da República mudou tudo no Brasil, gerando antipatias contra a influente comunidade portuguesa no Rio de Janeiro, suspeita de sentimentos anti-republicanos. Houve até, em 1893, ruptura das relações diplomáticas luso-brasileiras. Em seguida, os portugueses proclamaram a República (1910) e, para o pior e para o melhor, restabeleceram-se as analogias políticas nos dois lados do Atlântico. O pior veio logo, com a ditadura salazarista, que se estendeu por décadas, acumpliciando-se às duas ditaduras brasileiras – a varguista e a militar – em sinistras empreitadas liberticidas. O melhor veio depois, com a Revolução dos Cravos (1974), que redemocratizou Portugal e, como lembrou Lula em Lisboa, estimulou a luta pela democracia no Brasil. No fim das contas, ambos os países atravessaram o século passado castigados por ditaduras e chegaram tardiamente à democracia plena.

Agora, a imigração brasileira em Portugal está no centro das discussões entre os dois países e o substantivo brasileiro assume, em partes da terra lusitana, um sentido pejorativo, ligado ao trabalho clandestino e a atividades subalternas. Mais especificamente, uma sondagem realizada em Portugal sobre os imigrantes africanos, brasileiros e do Leste Europeu mostra dados penosos. Perguntados sobre o tipo de insegurança transmitido pelas três comunidades, os portugueses associaram os imigrantes africanos predominantemente aos atos de violência, os do Leste Europeu às máfias e os brasileiros à prostituição.

Velho país de emigração, Portugal lida agora com problemas decorrentes da inserção de imigrantes. Novo país de emigração, o Brasil aprende a proteger seus cidadãos expatriados em terras longínquas. Haverá muitas experiências a ser trocadas no quadro do respeito mútuo e da tolerância cultural.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor
titular da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)

 
 
 
 
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