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Cinema
Mera imitação
Os irmãos Coen pisam em falso
com Matadores de Velhinha, tirado
de um clássico dos anos 50

Isabela Boscov
Fotos divulgação
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| Irma Hall, como a heroína de Matadores: roubando
cenas |
Antes de Alec Guinness passar à história
para seu desgosto como o Obi-Wan Kenobi de Guerra
nas Estrelas, ele era conhecido como um ator de versatilidade
inimitável, capaz de se sentir igualmente à vontade
num drama de guerra como A Ponte do Rio Kwai ou no ciclo
de comédias que fez para o estúdio inglês Ealing,
nos anos 50, e que virou um sinônimo do humor britânico
polido, mas negro e cortante, e com um pé no nonsense.
Dessa meia dúzia de filmes, o mais conhecido é Quinteto
da Morte, em que Guinness interpreta um sujeito de ar professoral
que, junto com outros quatro companheiros (entre eles Peter Sellers),
aluga a casa de uma velhinha para os ensaios de seu conjunto de
música clássica. Na verdade, eles querem usar os aposentos
para perpetrar um crime que a velhinha, em sua inocência,
vai frustrar de maneira formidável. Além de ser uma
grande comédia, Quinteto da Morte é um retrato
da Londres típica do pós-guerra, empobrecida mas determinada
a manter as aparências, e um veículo ideal para Guinness,
que não só adorava usar disfarces aqui, dentes
tortos e um jeito arrevesado de falar como efetivamente sabia
ocultar-se atrás deles. Que Tom Hanks não tenha esse
mesmo dom é apenas um dos tropeços de Matadores
de Velhinha (The Ladykillers, Estados Unidos, 2004),
a refilmagem dos irmãos Joel e Ethan Coen para Quinteto
da Morte, que estréia nesta sexta-feira no país.
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| Tom Hanks: sem dom para os disfarces |
Em sua versão, os Coen transpõem
a história para o sul dos Estados Unidos, nos dias de hoje.
No lugar da velhinha inglesa, tem-se uma senhora negra vigorosamente
religiosa, que conversa com o retrato de seu finado marido e mora
sozinha num casarão a poucas quadras de um cassino flutuante
para cujo cofre o professor G.H. Dorr (Tom Hanks) e seus
amigos pretendem cavar um túnel, usando o porão de
sua locadora como ponto de partida. Está-se, portanto, numa
comunidade provinciana repleta de tipos pitorescos, um cenário
do qual os irmãos Coen tiraram grande partido além
de algumas considerações mordazes sobre a natureza
humana em filmes como Arizona Nunca Mais e Fargo.
Dessa vez, porém, a ênfase fica mais na imitação
do que na recriação, e mais nos tipos do que nas idéias.
Assim, o tempo que os diretores despendem focalizando a elaborada
(e estéril) caracterização de Tom Hanks e do
restante do elenco é desproporcional ao que os personagens
têm a dizer, que é pouco ou nada. A exceção
fica por conta da ótima Irma P. Hall, que faz a velhinha
apanhada na trama criminosa. Caminhando no sentido contrário
ao do filme, Irma tira da figura genérica que lhe foi confiada
uma ingenuidade e uma honestidade críveis e encantadoras.
Embora seja a personagem mais distante do Quinteto da Morte
de 1955, é a única que faz jus ao original e ao espírito
humorístico de Guinness. Quando ela está em cena
e apenas quando ela está em cena Matadores de Velhinha
consegue ser uma grande comédia.
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