Edição 1859 . 23 de junho de 2004

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Polêmica
Confusão em Parati

Dinheiro público e disputas entre
editores azedam o clima na Festa
Literária da cidade fluminense


Jerônimo Teixeira

 
Oscar Cabral
Cláudia Martins/Strana
João Ubaldo e Corrêa do Lago (à dir.): um não vai, o outro quer pegar carona

Idealizada pela editora inglesa Liz Calder, a Festa Literária Internacional de Parati (Flip), em sua segunda edição, deverá reunir 21 escritores brasileiros e dezesseis estrangeiros, de 7 a 11 de julho, na bucólica cidadezinha do litoral fluminense. O festival, porém, está marcado por uma dupla polêmica. Alguns editores, como Sérgio Machado, da Record, queixam-se de que a editora paulista Companhia das Letras monopoliza a organização. Na semana passada, um escritor de renome, João Ubaldo Ribeiro, cujos livros são publicados pela Nova Fronteira, juntou-se a esse coro e anunciou que não participará mais da Flip. "A divulgação só promovia autores da Companhia. Meu nome nunca era citado. Fui diminuído à condição de 'etc.'", reclama. A organização da Flip diz que a festa é para todos. Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, preferiu não comentar o episódio. O segundo foco de discussão é o montante de dinheiro público injetado na festa. Serão mais de 300.000 reais – o equivalente a 18% do dinheiro disponível para a instalação de bibliotecas públicas no programa Livro Aberto, da Biblioteca Nacional.

Um orçamento de 2 milhões de reais foi aprovado pelo Ministério da Cultura para que a Flip recolhesse recursos por meio da Lei Rouanet, que concede abatimentos no imposto de empresas que patrocinam projetos culturais. A organização conseguiu captar 880.000 reais de empresas privadas. Além disso, vai receber uma bolada do Estado. A idéia de doar dinheiro público ao evento partiu do presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Pedro Corrêa do Lago, que pretendia associar estreitamente a grife da instituição que dirige à Flip. Na semana passada, porém, com o surgimento dos primeiros questionamentos a respeito da pertinência de dar dinheiro público à festa, Corrêa do Lago modificou seu discurso. Ele passou a dizer que "a Biblioteca Nacional não está dando um centavo à Flip". Segundo enfatiza, é o Fundo Nacional de Cultura que doará 300.000 reais à festa. A Biblioteca Nacional fará somente um "evento paralelo" em Parati, orçado em 35.000 reais e destinado a divulgar a literatura brasileira no exterior. Como, no ano passado, a Flip atraiu bastante atenção da mídia, Corrêa do Lago imaginou "pegar carona" no festival para tornar a ficção brasileira mais conhecida no estrangeiro. A Biblioteca Nacional providenciou a versão, em espanhol, inglês e francês, dos primeiros capítulos de vinte obras brasileiras. Vai distribuir essas versões a agentes literários e editores estrangeiros que estejam em Parati, na esperança de seduzi-los a publicar os livros. Corrêa do Lago vai empregar os 35.000 reais mencionados para trazer dezesseis convidados da Espanha e da França. Nesses casos, ao menos, a Biblioteca Nacional não vai somente pegar carona na Flip. Vai também ajudar com a gasolina.

"Não consigo entender por que razão estão se dando fundos públicos para um evento elitista – um spa para escritores", ataca o editor Sérgio Machado, da Record. A expectativa do festival é de atrair no máximo um público de 10.000 pessoas. É uma fração do que recebem, por exemplo, as bienais do livro de Rio e São Paulo, cada uma com mais de 500.000 visitantes. Além disso, pelas características de Parati – cidade pequena e de acesso relativamente difícil –, é fácil deduzir que o evento só pode atrair uma elite. Pelo menos um dos escritores que participaram do primeiro festival percebeu isso claramente. Numa crônica publicada no jornal londrino The Guardian, o inglês Julian Barnes questionou se a cidade não seria um Brasil "para inglês ver". Claro que é ótimo que exista um simpático festival literário na simpática Parati – mas por que um evento dessa natureza, num país carente como o Brasil, precisa de verbas públicas? O Hay-on-Wye, festival no País de Gales que foi um dos inspiradores da Flip, sobrevive há mais de quinze anos sem patrocínio público. A própria Flip teve sucesso em 2003 sem precisar recorrer a esse tipo de dinheiro.

 
 
 
 
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