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Polêmica
Confusão em Parati
Dinheiro público e disputas entre
editores azedam o clima na Festa
Literária da cidade fluminense

Jerônimo Teixeira
Oscar Cabral
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Cláudia Martins/Strana
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| João Ubaldo e Corrêa do Lago
(à dir.): um não vai, o outro quer pegar carona |
Idealizada pela editora inglesa Liz Calder,
a Festa Literária Internacional de Parati (Flip), em sua
segunda edição, deverá reunir 21 escritores
brasileiros e dezesseis estrangeiros, de 7 a 11 de julho, na bucólica
cidadezinha do litoral fluminense. O festival, porém, está
marcado por uma dupla polêmica. Alguns editores, como Sérgio
Machado, da Record, queixam-se de que a editora paulista Companhia
das Letras monopoliza a organização. Na semana passada,
um escritor de renome, João Ubaldo Ribeiro, cujos livros
são publicados pela Nova Fronteira, juntou-se a esse coro
e anunciou que não participará mais da Flip. "A divulgação
só promovia autores da Companhia. Meu nome nunca era citado.
Fui diminuído à condição de 'etc.'",
reclama. A organização da Flip diz que a festa é
para todos. Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, preferiu
não comentar o episódio. O segundo foco de discussão
é o montante de dinheiro público injetado na festa.
Serão mais de 300.000 reais
o equivalente a 18% do dinheiro disponível para a instalação
de bibliotecas públicas no programa Livro Aberto, da Biblioteca
Nacional.
Um orçamento de 2 milhões de
reais foi aprovado pelo Ministério da Cultura para que a
Flip recolhesse recursos por meio da Lei Rouanet, que concede abatimentos
no imposto de empresas que patrocinam projetos culturais. A organização
conseguiu captar 880.000 reais de empresas
privadas. Além disso, vai receber uma bolada do Estado. A
idéia de doar dinheiro público ao evento partiu do
presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Pedro
Corrêa do Lago, que pretendia associar estreitamente a grife
da instituição que dirige à Flip. Na semana
passada, porém, com o surgimento dos primeiros questionamentos
a respeito da pertinência de dar dinheiro público à
festa, Corrêa do Lago modificou seu discurso. Ele passou a
dizer que "a Biblioteca Nacional não está dando um
centavo à Flip". Segundo enfatiza, é o Fundo Nacional
de Cultura que doará 300.000 reais
à festa. A Biblioteca Nacional fará somente um "evento
paralelo" em Parati, orçado em 35.000
reais e destinado a divulgar a literatura brasileira no exterior.
Como, no ano passado, a Flip atraiu bastante atenção
da mídia, Corrêa do Lago imaginou "pegar carona" no
festival para tornar a ficção brasileira mais conhecida
no estrangeiro. A Biblioteca Nacional providenciou a versão,
em espanhol, inglês e francês, dos primeiros capítulos
de vinte obras brasileiras. Vai distribuir essas versões
a agentes literários e editores estrangeiros que estejam
em Parati, na esperança de seduzi-los a publicar os livros.
Corrêa do Lago vai empregar os 35.000
reais mencionados para trazer dezesseis convidados da Espanha e
da França. Nesses casos, ao menos, a Biblioteca Nacional
não vai somente pegar carona na Flip. Vai também ajudar
com a gasolina.
"Não consigo entender por que razão
estão se dando fundos públicos para um evento elitista
um spa para escritores", ataca o editor Sérgio Machado,
da Record. A expectativa do festival é de atrair no máximo
um público de 10.000 pessoas.
É uma fração do que recebem, por exemplo, as
bienais do livro de Rio e São Paulo, cada uma com mais de
500.000 visitantes. Além disso,
pelas características de Parati cidade pequena e de
acesso relativamente difícil , é fácil
deduzir que o evento só pode atrair uma elite. Pelo menos
um dos escritores que participaram do primeiro festival percebeu
isso claramente. Numa crônica publicada no jornal londrino
The Guardian, o inglês Julian Barnes questionou se
a cidade não seria um Brasil "para inglês ver". Claro
que é ótimo que exista um simpático festival
literário na simpática Parati mas por que um
evento dessa natureza, num país carente como o Brasil, precisa
de verbas públicas? O Hay-on-Wye, festival no País
de Gales que foi um dos inspiradores da Flip, sobrevive há
mais de quinze anos sem patrocínio público. A própria
Flip teve sucesso em 2003 sem precisar recorrer a esse tipo de dinheiro.
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