Edição 1859 . 23 de junho de 2004

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Livros
O preto diz tudo

Elegante, arrogante, triste, a roupa
negra já carregou os mais diversos
significados ao longo da história


Jerônimo Teixeira

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Trecho do livro

Há ocasiões em que o hábito faz, sim, o monge. No século XV, um pintor anônimo da escola de Fra Angelico fixou de forma magnífica o caráter religioso da vestimenta monástica. O quadro apresenta São Domingo no momento em que recebe, das mãos da própria Virgem Maria, a capa negra característica de sua ordem. Essa peça de vestuário destacava os dominicanos da vulgaridade multicolorida dos fiéis comuns – mas sem comprometer a humildade que se espera de um frade, pois o preto é uma cor modesta (aliás, é a ausência de cor). O traje que se pretendia simples, porém, acabou se convertendo em um macabro símbolo de autoridade: os frades dominicanos estiveram entre os principais executores da Inquisição. E, assim, esse manto religioso acaba ilustrando bem o conceito central do livro Homens de Preto (tradução de Fernanda Veríssimo; Editora Unesp, 340 páginas; 48 reais), do crítico inglês John Harvey: o amplo leque de significações que a roupa preta carrega, da humildade e da abnegação à morte e ao terror. Professor de literatura da Universidade de Cambridge, Harvey enquadra-se numa linha teórica recente, que recebe o nome genérico de "estudos culturais". Seguidores dessa linha muitas vezes se dedicam a politizar a trivialidade, deblaterando contra o autoritarismo das bibliotecas e o machismo dos fogões. Harvey, porém, é mais sutil – e seu livro constitui uma leitura curiosa. "Todas as declarações feitas pelas roupas são ambíguas", conclui ele. Entre o lúgubre e o elegante, o preto será talvez a mais ambígua de todas as cores da moda.

A associação mais imediata do preto é com a morte. A partir daí, porém, surgem derivações curiosas. O preto também pode ser a cor do poder. Um dos primeiros a usá-lo como tal teria sido Felipe, o Bom, duque de Borgonha, no século XV. Ele começou a vestir preto em sinal de luto por seu pai, assassinado pelos franceses. Com o tempo, porém, o luto tornou-se um sinal de desafio beligerante, uma declaração de que a Borgonha não perdoaria a ofensa cometida pela França. Descendente de Felipe, o Bom, o rei Felipe II, da Espanha – um monarca sinistro que gostava de acompanhar os autos da Inquisição –, popularizou o preto entre os nobres no fim do século XVI. No século seguinte, Felipe IV tornaria o preto obrigatório na corte espanhola – o que explica a indumentária escura em muitos retratos soberbos pintados por Diego Velázquez. Mas o século negro por excelência foi o XIX. Os ternos pretos, muito bem cortados, foram populares entre as elites vitorianas. "Estamos todos celebrando algum funeral", reclamou o poeta francês Charles Baudelaire (que, no entanto, também gostava de vestir preto). De fato, a roupa masculina de um baile formal distinguia-se só no detalhe do traje apropriado para acompanhar um enterro.

Da tragédia grega de Ésquilo aos romances do americano Thomas Pynchon, Harvey privilegia as fontes literárias em sua reconstituição da moda negra. Ele dedica, por exemplo, quase um capítulo inteiro à análise das roupas e ambientes soturnos da ficção de Charles Dickens, escritor inglês do século XIX. Talvez por isso o capítulo sobre o século XX deixe a desejar: embora a epígrafe do livro seja um diálogo de Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino, faltou mais atenção ao cinema. Harvey dá de barato que a roupa preta do vilão é um clichê, mas esquece de mostrar como tal clichê se estabeleceu. Sua análise mais ousada em relação ao século passado diz respeito ao uniforme preto da SS, a tropa de elite de Hitler. Harvey acompanha a diluição dessa indumentária nazista até chegar aos adereços de couro negro preferidos pelos adeptos do sadomasoquismo. "O negro e a escuridão parecem elementos necessários à fantasia de que o mal é sexy", explica ele.

 
 
 
 
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