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Livros
O preto diz tudo
Elegante, arrogante, triste, a roupa
negra já carregou os mais diversos
significados ao longo da história

Jerônimo Teixeira
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Há ocasiões em que o hábito
faz, sim, o monge. No século XV, um pintor anônimo
da escola de Fra Angelico fixou de forma magnífica o caráter
religioso da vestimenta monástica. O quadro apresenta São
Domingo no momento em que recebe, das mãos da própria
Virgem Maria, a capa negra característica de sua ordem. Essa
peça de vestuário destacava os dominicanos da vulgaridade
multicolorida dos fiéis comuns mas sem comprometer
a humildade que se espera de um frade, pois o preto é uma
cor modesta (aliás, é a ausência de cor). O
traje que se pretendia simples, porém, acabou se convertendo
em um macabro símbolo de autoridade: os frades dominicanos
estiveram entre os principais executores da Inquisição.
E, assim, esse manto religioso acaba ilustrando bem o conceito central
do livro Homens de Preto (tradução de
Fernanda Veríssimo; Editora Unesp, 340 páginas; 48
reais), do crítico inglês John Harvey: o amplo leque
de significações que a roupa preta carrega, da humildade
e da abnegação à morte e ao terror. Professor
de literatura da Universidade de Cambridge, Harvey enquadra-se numa
linha teórica recente, que recebe o nome genérico
de "estudos culturais". Seguidores dessa linha muitas vezes se dedicam
a politizar a trivialidade, deblaterando contra o autoritarismo
das bibliotecas e o machismo dos fogões. Harvey, porém,
é mais sutil e seu livro constitui uma leitura curiosa.
"Todas as declarações feitas pelas roupas são
ambíguas", conclui ele. Entre o lúgubre e o elegante,
o preto será talvez a mais ambígua de todas as cores
da moda.
A associação mais imediata do
preto é com a morte. A partir daí, porém, surgem
derivações curiosas. O preto também pode ser
a cor do poder. Um dos primeiros a usá-lo como tal teria
sido Felipe, o Bom, duque de Borgonha, no século XV. Ele
começou a vestir preto em sinal de luto por seu pai, assassinado
pelos franceses. Com o tempo, porém, o luto tornou-se um
sinal de desafio beligerante, uma declaração de que
a Borgonha não perdoaria a ofensa cometida pela França.
Descendente de Felipe, o Bom, o rei Felipe II, da Espanha
um monarca sinistro que gostava de acompanhar os autos da Inquisição
, popularizou o preto entre os nobres no fim do século
XVI. No século seguinte, Felipe IV tornaria o preto obrigatório
na corte espanhola o que explica a indumentária escura
em muitos retratos soberbos pintados por Diego Velázquez.
Mas o século negro por excelência foi o XIX. Os ternos
pretos, muito bem cortados, foram populares entre as elites vitorianas.
"Estamos todos celebrando algum funeral", reclamou o poeta francês
Charles Baudelaire (que, no entanto, também gostava de vestir
preto). De fato, a roupa masculina de um baile formal distinguia-se
só no detalhe do traje apropriado para acompanhar um enterro.
Da tragédia grega de Ésquilo
aos romances do americano Thomas Pynchon, Harvey privilegia as fontes
literárias em sua reconstituição da moda negra.
Ele dedica, por exemplo, quase um capítulo inteiro à
análise das roupas e ambientes soturnos da ficção
de Charles Dickens, escritor inglês do século XIX.
Talvez por isso o capítulo sobre o século XX deixe
a desejar: embora a epígrafe do livro seja um diálogo
de Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino, faltou mais
atenção ao cinema. Harvey dá de barato que
a roupa preta do vilão é um clichê, mas esquece
de mostrar como tal clichê se estabeleceu. Sua análise
mais ousada em relação ao século passado diz
respeito ao uniforme preto da SS, a tropa de elite de Hitler. Harvey
acompanha a diluição dessa indumentária nazista
até chegar aos adereços de couro negro preferidos
pelos adeptos do sadomasoquismo. "O negro e a escuridão parecem
elementos necessários à fantasia de que o mal é
sexy", explica ele.
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