Edição 1859 . 23 de junho de 2004

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Sociedade
Risco calculado

Seguros anti-seqüestro se tornam
um bom negócio em países conflagrados
e na América Latina


Camila Antunes

Foto André Batistela
 


A insegurança no Terceiro Mundo abriu um novo mercado para as seguradoras: o dos seguros anti-seqüestro. Eles incluem, além do pagamento do resgate, a negociação com os criminosos. As primeiras apólices foram vendidas pela inglesa Lloyds no início dos anos 90, quando os casos de seqüestro de executivos começaram a proliferar em países pobres. Hoje, o mercado movimenta 200 milhões de dólares por ano. Estima-se que 250 pessoas sejam protegidas por esses seguros no Brasil. A maioria das apólices foi adquirida por multinacionais, que incluem o produto no pacote de benefícios de seus executivos. Como esses seguros não são autorizados pela legislação brasileira, os interessados desembolsam de 20.000 a 100.000 dólares por ano para fazê-los no exterior. Para compor o preço, é feita uma análise dos riscos a que o executivo em questão está submetido, uma avaliação do contexto geral do país e uma estimativa do valor do eventual resgate. As coberturas chegam a 25 milhões de dólares.

Os principais clientes das seguradoras moram em lugares conflagrados ou na América Latina, que concentra 45% dos 15.000 seqüestros registrados por ano no mundo. O Iraque lidera as vendas desde o ano passado, quando começou a ocupação americana. É também o país onde os seguros são mais caros. Lá, a demanda é tão grande que a empresa de segurança inglesa Control Risks inaugurou escritórios em duas cidades, um em Bagdá e outro em Basra. Ela adaptou um de seus serviços, o gerenciamento de risco, para atender às seguradoras. A Control Risks é acionada para negociar o resgate da vítima. "Nosso objetivo é libertar o executivo com rapidez e segurança. Barganhar e identificar os criminosos não são nossas prioridades", diz Boris Kruijssen, diretor da empresa. Na América Latina, a Colômbia lidera o ranking de preços, por causa das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que usam o seqüestro como política de financiamento e intimidação. Brasil, México e Venezuela vêm logo em seguida.

Nesse tipo de apólice, um item obrigatório é o que diz respeito à adoção de medidas de prevenção por parte do comprador. Dependendo da cobertura, exige-se a contratação de guarda-costas, que podem ser treinados por uma empresa contratada pela seguradora. Além disso, os segurados têm de fazer todos os anos cursos de técnicas de defesa anti-seqüestro. Nesses cursos, conselhos são dados e renovados – como não divulgar no cartão de visita o cargo que eles ocupam, não repetir os mesmos trajetos no dia-a-dia e evitar aglomerações. Quem tem carro blindado aprende direção defensiva (só com blindagem é possível utilizar esse recurso, sem o perigo de ser baleado). Os segurados também passam por simulações de seqüestro e de extorsão, nas quais a vítima é um parente ou o resgate é cobrado na forma de segredos comerciais. A polícia brasileira faz restrições a esse tipo de seguro. Diz que os negociadores contratados pagam caro, rápido e, conseqüentemente, estimulariam ainda mais os seqüestros. Um caso que os policiais gostam de citar é o de uma família de banqueiros de São Paulo. Ela sofreu três seqüestros. Nos dois primeiros, a seguradora cobriu integralmente o valor dos resgates. No terceiro, com a polícia em ação, o preço foi reduzido para 10% do total exigido num primeiro momento.

 
 
 
 
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