Edição 1859 . 23 de junho de 2004

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A construção do sucesso

Pesquisa mostra que as mulheres
bem-sucedidas têm diversas características
em comum. A principal: elas se movem mais
por princípios do que por ambição


Carlos Rydlewski


Rogerio Montenegro
CRISTIANA ARCANGELI
"No início, os homens nos testam para ver se sabemos o que estamos falando. Depois, passam a nos respeitar"
EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro


O americano Thomas Stanley ficou mais de três anos na lista dos livros mais vendidos do jornal New York Times com O Milionário Mora ao Lado, uma radiografia da vida dos homens de sucesso lançada em 1996. No fim de maio, Stanley, que a cada livro engorda a própria conta no banco, voltou à carga com a versão feminina. Publicado há menos de um mês nos Estados Unidos, o novo livro de Stanley tem como subtítulo The Many Journeys of Successful American Businesswomen (As Muitas Jornadas da Mulher de Negócios de Sucesso nos EUA). Ele já está em 23º lugar na lista dos mais vendidos do New York Times. O sucesso dos livros tem duas explicações. Uma é o sonho e a curiosidade que a vida das bem-sucedidas desperta. A outra explicação é o método científico usado por Stanley, um ex-professor da Universidade do Estado da Geórgia que estuda a gênese do sucesso financeiro há mais de três décadas. Ele trabalha sempre fundamentado em pesquisas.

Daniela Picoral
AMÁLIA SINA
Sem medo de desafios: sempre lutou para chegar ao topo da carreira e hoje é presidente da Walita

As descobertas de Stanley costumam quebrar estereótipos e, por isso, surpreendem. "O grande público sempre se interessa por esse tipo de assunto e eu gosto de desfazer mitos sobre como vivem as pessoas que constroem uma fortuna", diz o autor. Mais do que um manual de como acumular riquezas, o livro descreve um modo de vida e de trabalho que aumenta a eficiência da economia e gera riqueza para os próprios beneficiados e para quem os rodeia. A maior parte das 1 165 mulheres ouvidas pela pesquisa usada para escrever o último livro é formada por empresárias de primeira geração – ou seja, mulheres que herdaram pouco ou quase nada. O alvo de Stanley foram mulheres que construíram seu patrimônio com método e trabalho, e não por meio de um golpe de sorte. Ele se concentrou principalmente nas que são donas do próprio negócio. Nos Estados Unidos, as empreendedoras acumulam cinco vezes mais dinheiro e patrimônio do que as executivas empregadas em empresas. A executiva Carly Fiorina, a número 1 da Hewlett-Packard, a gigante da área de eletrônicos, é uma exceção que confirma a regra. Ela aparece na lista da revista Fortune como um dos 25 executivos mais poderosos do mundo. Fiorina, a única mulher do ranking, ocupa a 19ª posição. Aos 48 anos, é a primeira pessoa que não cursou engenharia a presidir a Hewlett-Packard.

As mulheres analisadas por Stanley mostram que a riqueza se constrói como resultado de um estilo de vida feito de trabalho, perseverança, planejamento e disciplina. Essas são as características comuns a elas. Uma das grandes descobertas da última pesquisa é justamente o que diferencia homens e mulheres. Em comparação com os homens, elas são mais parcimoniosas nos gastos. Fazem listas de produtos antes de ir ao supermercado, compram em grandes quantidades para aproveitar descontos e vivem em casas confortáveis, mas não luxuosas. Colecionam cupons de desconto e evitam usar o cartão de crédito. Dizem que são motivadas não só pelo desejo de conquistar a independência financeira, algo considerado extremamente importante, mas também para ajudar os menos afortunados – o que pode incluir parentes e desconhecidos em comunidades carentes.

Divulgação
CARLY FIORINA
A presidente da HP é a única mulher na lista dos 25 executivos mais poderosos do planeta


O perfil de mulheres com mais de 1 milhão de dólares de patrimônio contradiz em parte a própria imagem de consumismo das sociedades pós-industriais. Em muitos círculos, a busca da realização pessoal se confunde com a aquisição de produtos e serviços. Stanley deparou com uma realidade diferente. As mulheres pesquisadas são, em geral, econômicas e não ostentam o dinheiro que possuem. "As mulheres que estudei desenham um perfil surpreendente. Não são perdulárias. Seu objetivo maior é a independência econômica", disse Stanley a VEJA. "O comportamento delas briga com a idéia de que a mulher de sucesso deve necessariamente ter sempre o carro mais caro ou a roupa mais luxuosa."

O livro descreve a realidade americana, mas o próprio autor reconhece que muitas das características delineadas na pesquisa extrapolam as fronteiras dos Estados Unidos. A brasileira Cristiana Arcangeli se encaixa de diversas formas no perfil descrito no livro. Ela abandonou o consultório de dentista para arriscar-se no negócio próprio. Sem nenhum estudo de mercado, criou a Phytoervas, uma fabricante de cosméticos com apelo natural. Era julho de 1986, e a empresa começou com apenas três funcionários. "Decidi investir por pura intuição. Como consumidora, queria comprar bons cosméticos de forma prática em supermercados e farmácias", diz Cristiana. Em maio de 1998, Cristiana vendeu o negócio para o laboratório Bristol-Myers Squibb por uma quantia estimada pelo mercado em 50 milhões de dólares. A empresa vendida tinha então 600 funcionários e comercializava seus produtos em 18.000 pontos-de-venda espalhados por todo o país. Cristiana venceu em um terreno dominado amplamente pelos empresários do sexo masculino. Sete entre dez pequenas ou microempresas do Brasil pertencem a homens. Nos escritórios, eles são ainda mais hegemônicos. Cerca de 91% dos comandantes dos 500 maiores grupos empresariais no Brasil são homens. As pesquisas revelam que nas grandes empresas essa realidade parece imutável aos olhos femininos. Os números mostram que 46% dos executivos confessam o desejo de algum dia chegar à presidência da empresa. Entre as executivas, essa taxa de ambição cai para 14%.


AP
AÇÃO NO TRIBUNAL
Stephanie Villalba acusa a Merrill Lynch de discriminação sexual e pede 13 milhões de dólares

Nesse universo masculino, a estrela da brasileira Amália Sina, a presidente da Walita, é uma luminosa exceção. "Durante toda a minha carreira, em várias empresas, sempre lutei para chegar à presidência", diz Amália. "Mas reconheço que é difícil porque o mundo dos negócios é predominantemente masculino. Os códigos que estão lá dentro, o jeito de liderar é ditado e feito pelos homens, com os valores masculinos."

Pela própria natureza e cultura, os homens são mais guerreiros, têm maior necessidade de auto-afirmação e de sucesso profissional do que as mulheres. No universo masculino, sucesso na carreira profissional coincide ou se confunde com sucesso pessoal. "O homem sente-se um derrotado para a vida se não é bem-sucedido. Com as mulheres é diferente. Elas adoram o trabalho, dedicam-se com alma e coração, porque querem provar a si mesmas sua capacidade de realização como profissionais, complementando sua vida pessoal. Elas possuem maior equilíbrio", diz Chieko Aoki, presidente do Blue Tree Hotels, uma rede que hospedou mais de 650.000 pessoas no ano passado.

A insatisfação das mulheres com o rumo que suas carreiras tomam acaba algumas vezes na Justiça. Entre os casos de repercussão internacional mais recentes, está o de Stephanie Villalba, ex-executiva do escritório londrino da corretora e banco de investimentos Merrill Lynch. Stephanie reivindica nos tribunais indenização de 13 milhões de dólares por suposta discriminação sexual que lhe teria obstaculizado o caminho rumo a cargos mais altos na companhia. O banco defende-se das acusações. A empresa afirma que a saída da executiva foi provocada pela avaliação negativa de seus superiores em virtude dos maus resultados financeiros apresentados. Stephanie era responsável por uma área que registrou perdas de 47 milhões de dólares em um ano. A Justiça inglesa ouviu Stephanie no começo do mês mas ainda não chegou a uma decisão. Longe dos tribunais, os especialistas em mercado de trabalho estão chegando a uma conclusão francamente favorável às mulheres. Pelas características definidas por Chieko Aoki, as mulheres se adaptam melhor do que os homens aos desafios propostos pela economia moderna. As mulheres são naturalmente mais aptas a trabalhar em grupo e tendem a colaborar com mais afinco para a produção de resultados coletivos. O estilo confrontacional masculino anda meio fora de moda nas modernas teorias administrativas. "Quem não percebeu que as mulheres são a força motriz mais vital do capitalismo hoje deve rever urgentemente seus conceitos", diz Tom Peters, um dos gurus do mundo dos negócios nos Estados Unidos. "Definitivamente, elas venceram."

 

Questão de gênero

Uma pesquisa com 1 165 mulheres americanas com patrimônio médio de 4,7 milhões de dólares mostrou que elas

• tendem a viver confortavelmente, mas evitam mansões e ostentação

• dão três vezes mais dinheiro aos parentes que os homens milionários. Também doam mais a instituições de caridade que os homens

• são mais econômicas

• são mais generosas

• adoram detalhes

• não poupam tempo nem dinheiro para gerenciar e obter informações sobre seus investimentos

 

O perfil delas

As principais características das mulheres americanas que se emanciparam financeiramente:

• São filhas de famílias que tinham gastos domésticos equilibrados

• Foram encorajadas a ser líderes

• Os pais sempre encontravam tempo para ouvi-las. O ambiente familiar era tranqüilo e seguro

 

INTUIÇÃO É A MAIOR RIQUEZA

No meio acadêmico, Thomas Stanley já era conhecido como o professor da Universidade do Estado da Geórgia que estudava a vida dos homens acumuladores de riqueza com rigor científico. Com o lançamento de O Milionário Mora ao Lado, em 1996, que vendeu 2,5 milhões de cópias, Stanley se tornou um autor conhecido pelo grande público. Hoje já fora da universidade, espera repetir o sucesso com o recém-lançado livro sobre as mulheres bem-sucedidas.

Veja – Qual era seu objetivo ao escrever o livro sobre as mulheres de sucesso?
Stanley – As pessoas sempre pensam que as mulheres de sucesso são muito focadas em seus negócios e em fazer dinheiro. Acham que não ligam para mais nada, que nada mais importa para elas. Ainda de acordo com o senso comum, as milionárias não têm um bom relacionamento com marido e filhos. A verdade é justamente o oposto disso.

Veja – Qual foi sua principal surpresa com o comportamento dessas mulheres?
Stanley – Muitas vezes elas escolhem o ramo certo de negócio por pura intuição. A sensibilidade das mulheres para os negócios é um recurso magnífico. Elas sabem intuitivamente qual a fonte da auto-estima.

Veja – Que características das mulheres de sucesso podem ser consideradas mais universais, menos restritas aos EUA?
Stanley – A empatia que despertam é uma delas. A habilidade das mulheres de tocar os negócios é outra. Elas entendem melhor as necessidades das pessoas.

Veja – O senhor ficou rico depois de escrever tantos livros sobre milionários?
Stanley – Já era um milionário antes de ser um autor porque sempre fui muito econômico. Jamais teria deixado meu trabalho como professor se não fosse pelas economias. Não dá para começar a escrever um livro achando que vai dar para se sustentar com as vendas no futuro.

 
 
 
 
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