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A
construção do sucesso
Pesquisa
mostra que as mulheres
bem-sucedidas têm diversas características
em comum. A principal: elas se movem mais
por princípios do que por ambição

Carlos
Rydlewski
Rogerio Montenegro
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CRISTIANA
ARCANGELI
"No início, os homens nos testam para ver
se sabemos o que estamos falando. Depois, passam a nos respeitar" |
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O americano Thomas Stanley ficou mais de três anos na lista
dos livros mais vendidos do jornal New York Times com O
Milionário Mora ao Lado, uma radiografia da vida dos
homens de sucesso lançada em 1996. No fim de maio, Stanley,
que a cada livro engorda a própria conta no banco, voltou
à carga com a versão feminina. Publicado há
menos de um mês nos Estados Unidos, o novo livro de Stanley
tem como subtítulo The Many Journeys of Successful American
Businesswomen (As Muitas Jornadas da Mulher de Negócios
de Sucesso nos EUA). Ele já está em 23º
lugar na lista dos mais vendidos do New York Times.
O sucesso dos livros tem duas explicações. Uma é
o sonho e a curiosidade que a vida das bem-sucedidas desperta. A
outra explicação é o método científico
usado por Stanley, um ex-professor da Universidade do Estado da
Geórgia que estuda a gênese do sucesso financeiro há
mais de três décadas. Ele trabalha sempre fundamentado
em pesquisas.
Daniela Picoral
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AMÁLIA
SINA
Sem medo de desafios: sempre lutou para chegar ao topo
da carreira e hoje é presidente da Walita |
As
descobertas de Stanley costumam quebrar estereótipos e, por
isso, surpreendem. "O grande público sempre se interessa
por esse tipo de assunto e eu gosto de desfazer mitos sobre como
vivem as pessoas que constroem uma fortuna", diz o autor. Mais do
que um manual de como acumular riquezas, o livro descreve um modo
de vida e de trabalho que aumenta a eficiência da economia
e gera riqueza para os próprios beneficiados e para quem
os rodeia. A maior parte das 1 165 mulheres ouvidas pela pesquisa
usada para escrever o último livro é formada por empresárias
de primeira geração ou seja, mulheres que herdaram
pouco ou quase nada. O alvo de Stanley foram mulheres que construíram
seu patrimônio com método e trabalho, e não
por meio de um golpe de sorte. Ele se concentrou principalmente
nas que são donas do próprio negócio. Nos Estados
Unidos, as empreendedoras acumulam cinco vezes mais dinheiro e patrimônio
do que as executivas empregadas em empresas. A executiva Carly Fiorina,
a número 1 da Hewlett-Packard, a gigante da área de
eletrônicos, é uma exceção que confirma
a regra. Ela aparece na lista da revista Fortune como um
dos 25 executivos mais poderosos do mundo. Fiorina, a única
mulher do ranking, ocupa a 19ª posição. Aos 48
anos, é a primeira pessoa que não cursou engenharia
a presidir a Hewlett-Packard.
As
mulheres analisadas por Stanley mostram que a riqueza se constrói
como resultado de um estilo de vida feito de trabalho, perseverança,
planejamento e disciplina. Essas são as características
comuns a elas. Uma das grandes descobertas da última pesquisa
é justamente o que diferencia homens e mulheres. Em comparação
com os homens, elas são mais parcimoniosas nos gastos. Fazem
listas de produtos antes de ir ao supermercado, compram em grandes
quantidades para aproveitar descontos e vivem em casas confortáveis,
mas não luxuosas. Colecionam cupons de desconto e evitam
usar o cartão de crédito. Dizem que são motivadas
não só pelo desejo de conquistar a independência
financeira, algo considerado extremamente importante, mas também
para ajudar os menos afortunados o que pode incluir parentes
e desconhecidos em comunidades carentes.
Divulgação
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CARLY
FIORINA
A presidente da HP é a única mulher na
lista dos 25 executivos mais poderosos do planeta |
O perfil de mulheres com mais de 1 milhão de dólares
de patrimônio contradiz em parte a própria imagem de
consumismo das sociedades pós-industriais. Em muitos círculos,
a busca da realização pessoal se confunde com a aquisição
de produtos e serviços. Stanley deparou com uma realidade
diferente. As mulheres pesquisadas são, em geral, econômicas
e não ostentam o dinheiro que possuem. "As mulheres que estudei
desenham um perfil surpreendente. Não são perdulárias.
Seu objetivo maior é a independência econômica",
disse Stanley a VEJA. "O comportamento delas briga com a idéia
de que a mulher de sucesso deve necessariamente ter sempre o carro
mais caro ou a roupa mais luxuosa."
O
livro descreve a realidade americana, mas o próprio autor
reconhece que muitas das características delineadas na pesquisa
extrapolam as fronteiras dos Estados Unidos. A brasileira Cristiana
Arcangeli se encaixa de diversas formas no perfil descrito no livro.
Ela abandonou o consultório de dentista para arriscar-se
no negócio próprio. Sem nenhum estudo de mercado,
criou a Phytoervas, uma fabricante de cosméticos com apelo
natural. Era julho de 1986, e a empresa começou com apenas
três funcionários. "Decidi investir por pura intuição.
Como consumidora, queria comprar bons cosméticos de forma
prática em supermercados e farmácias", diz Cristiana.
Em maio de 1998, Cristiana vendeu o negócio para o laboratório
Bristol-Myers Squibb por uma quantia estimada pelo mercado em 50
milhões de dólares. A empresa vendida tinha então
600 funcionários e comercializava seus produtos em 18.000
pontos-de-venda espalhados por todo o país. Cristiana venceu
em um terreno dominado amplamente pelos empresários do sexo
masculino. Sete entre dez pequenas ou microempresas do Brasil pertencem
a homens. Nos escritórios, eles são ainda mais hegemônicos.
Cerca de 91% dos comandantes dos 500 maiores grupos empresariais
no Brasil são homens. As pesquisas revelam que nas grandes
empresas essa realidade parece imutável aos olhos femininos.
Os números mostram que 46% dos executivos confessam o desejo
de algum dia chegar à presidência da empresa. Entre
as executivas, essa taxa de ambição cai para 14%.
AP
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AÇÃO
NO TRIBUNAL
Stephanie Villalba acusa a Merrill Lynch de discriminação
sexual e pede 13 milhões de dólares |
Nesse
universo masculino, a estrela da brasileira Amália Sina,
a presidente da Walita, é uma luminosa exceção.
"Durante toda a minha carreira, em várias empresas, sempre
lutei para chegar à presidência", diz Amália.
"Mas reconheço que é difícil porque o mundo
dos negócios é predominantemente masculino. Os códigos
que estão lá dentro, o jeito de liderar é ditado
e feito pelos homens, com os valores masculinos."
Pela
própria natureza e cultura, os homens são mais guerreiros,
têm maior necessidade de auto-afirmação e de
sucesso profissional do que as mulheres. No universo masculino,
sucesso na carreira profissional coincide ou se confunde com sucesso
pessoal. "O homem sente-se um derrotado para a vida se não
é bem-sucedido. Com as mulheres é diferente. Elas
adoram o trabalho, dedicam-se com alma e coração,
porque querem provar a si mesmas sua capacidade de realização
como profissionais, complementando sua vida pessoal. Elas possuem
maior equilíbrio", diz Chieko Aoki, presidente do Blue Tree
Hotels, uma rede que hospedou mais de 650.000
pessoas no ano passado.
A
insatisfação das mulheres com o rumo que suas carreiras
tomam acaba algumas vezes na Justiça. Entre os casos de repercussão
internacional mais recentes, está o de Stephanie Villalba,
ex-executiva do escritório londrino da corretora e banco
de investimentos Merrill Lynch. Stephanie reivindica nos tribunais
indenização de 13 milhões de dólares
por suposta discriminação sexual que lhe teria obstaculizado
o caminho rumo a cargos mais altos na companhia. O banco defende-se
das acusações. A empresa afirma que a saída
da executiva foi provocada pela avaliação negativa
de seus superiores em virtude dos maus resultados financeiros apresentados.
Stephanie era responsável por uma área que registrou
perdas de 47 milhões de dólares em um ano. A Justiça
inglesa ouviu Stephanie no começo do mês mas ainda
não chegou a uma decisão. Longe dos tribunais, os
especialistas em mercado de trabalho estão chegando a uma
conclusão francamente favorável às mulheres.
Pelas características definidas por Chieko Aoki, as mulheres
se adaptam melhor do que os homens aos desafios propostos pela economia
moderna. As mulheres são naturalmente mais aptas a trabalhar
em grupo e tendem a colaborar com mais afinco para a produção
de resultados coletivos. O estilo confrontacional masculino anda
meio fora de moda nas modernas teorias administrativas. "Quem não
percebeu que as mulheres são a força motriz mais vital
do capitalismo hoje deve rever urgentemente seus conceitos", diz
Tom Peters, um dos gurus do mundo dos negócios nos Estados
Unidos. "Definitivamente, elas venceram."
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Questão
de gênero
Uma
pesquisa com 1 165 mulheres americanas com patrimônio
médio de 4,7 milhões de dólares
mostrou que elas
tendem a viver confortavelmente, mas evitam mansões
e ostentação
dão três vezes mais dinheiro aos parentes
que os homens milionários. Também doam
mais a instituições de caridade que os
homens
são mais econômicas
são mais generosas
adoram detalhes
não poupam tempo nem dinheiro para gerenciar
e obter informações sobre seus investimentos
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O
perfil delas
As
principais características das mulheres americanas
que se emanciparam financeiramente:
São filhas de famílias que tinham gastos
domésticos equilibrados
Foram encorajadas a ser líderes
Os pais sempre encontravam tempo para ouvi-las. O ambiente
familiar era tranqüilo e seguro
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INTUIÇÃO
É A MAIOR RIQUEZA
No
meio acadêmico, Thomas Stanley já era conhecido
como o professor da Universidade do Estado da Geórgia
que estudava a vida dos homens acumuladores de riqueza
com rigor científico. Com o lançamento
de O Milionário Mora ao Lado, em 1996,
que vendeu 2,5 milhões de cópias,
Stanley se tornou um autor conhecido pelo grande público.
Hoje já fora da universidade, espera repetir
o sucesso com o recém-lançado livro sobre
as mulheres bem-sucedidas.
Veja
Qual era seu objetivo ao escrever o livro
sobre as mulheres de sucesso?
Stanley As pessoas sempre pensam que as
mulheres de sucesso são muito focadas em seus
negócios e em fazer dinheiro. Acham que não
ligam para mais nada, que nada mais importa para elas.
Ainda de acordo com o senso comum, as milionárias
não têm um bom relacionamento com marido
e filhos. A verdade é justamente o oposto disso.
Veja
Qual foi sua principal surpresa com o
comportamento dessas mulheres?
Stanley Muitas vezes elas escolhem o ramo
certo de negócio por pura intuição.
A sensibilidade das mulheres para os negócios
é um recurso magnífico. Elas sabem intuitivamente
qual a fonte da auto-estima.
Veja
Que características das mulheres
de sucesso podem ser consideradas mais universais, menos
restritas aos EUA?
Stanley A empatia que despertam é
uma delas. A habilidade das mulheres de tocar os negócios
é outra. Elas entendem melhor as necessidades
das pessoas.
Veja
O senhor ficou rico depois de escrever
tantos livros sobre milionários?
Stanley Já era um milionário
antes de ser um autor porque sempre fui muito econômico.
Jamais teria deixado meu trabalho como professor se
não fosse pelas economias. Não dá
para começar a escrever um livro achando que
vai dar para se sustentar com as vendas no futuro.
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