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Tortura
Parece mas não é
Documentos
do governo americano
indicam esforço
para mostrar que
tortura não é tortura

Vilma Gryzinski
Onde
já se viu torturador pedindo autorização por
escrito para praticar o seu ofício? Resposta: nos países
organizados, onde a cadeia de comando é respeitada e vigora
o estado de direito. É esse paradoxo que explica a grande
quantidade de documentos oficiais que está vindo à
tona nos Estados Unidos, desvelando os bastidores dos contorcionismos
jurídicos praticados para permitir a aplicação
de técnicas "duras" de interrogatório a suspeitos
de participar de algum tipo de atividade terrorista. Em outras palavras,
sabe-se com razoável precisão como a tortura foi legalizada
a instâncias de membros do governo americano.
Por
que o fizeram deixando a "trilha de papel" que agora aflora para
comprometer ainda mais a imagem de um governo já desmoralizado?
Para dar garantias aos executores das medidas secretas de que cumpriam
ordens legítimas, ou pelo menos legitimadas por autoridades
superiores e não seriam eventualmente processados
por crimes de guerra ou contra a humanidade. E de que maneira se
faz isso num país de arraigada tradição legalista,
onde vale o que está escrito, ao contrário dos regimes
autoritários ou dos Estados fracos que respeitam as garantias
individuais só no papel? Chamando os especialistas em dar
nó em pingo jurídico, acrobatas da lógica e
ilusionistas da palavra os advogados. É da lavra de
um deles, Alberto R. Gonzales, consultor jurídico do Departamento
de Defesa, o mais notável dos memorandos até agora
divulgados, aquele em que explica por que tortura não é
tortura.
Gonzales
não é uma besta-fera nem um neo-orwelliano metido
a distorcer a linguagem de forma tal que uma coisa pareça
ser o seu oposto embora chegue, involuntariamente, perto
disso. É um advogado cumprindo uma tarefa. Em seu parecer,
datado de agosto de 2002, ele diz, basicamente, duas coisas. Primeiro
que o presidente dos Estados Unidos, na qualidade de comandante-chefe
das Forças Armadas, "dispõe de total autoridade discricionária".
Em tempos de guerra, ele pode tudo uma aberração
jurídica nunca antes reivindicada por nenhum presidente americano.
Segundo, Gonzales propõe uma redefinição de
tortura, a qual deveria ser "equivalente em intensidade à
dor que acompanha danos físicos graves, como falência
de órgãos ou de funções corporais ou
até a morte". Ou seja, tudo o que não implicar destroçar
fígados, arrancar membros, fraturar crânios e correlatos
é implicitamente autorizado. Suponha-se, porém, que
um interrogador mais afoito efetivamente provoque os estragos mencionados.
Nem assim estaria em apuros. Como na fábula do lobo e do
cordeiro, em que o primeiro está a salvo de qualquer racionalidade,
seria preciso comprovar que o propósito do acusado era causar
dor de alta intensidade. Como o objetivo da tortura é obter
informações, só os sádicos registrados
seriam imputáveis.
Esse
memorando específico não foi sancionado, mas as práticas
que posteriormente vieram a público, em especial com as vexatórias
fotos tiradas na prisão iraquiana de Abu Ghraib, indicam
que algo muito semelhante tomou o seu lugar. Os suspeitos em poder
de agentes secretos ou militares americanos podem ser ameaçados,
encapuzados, despidos, submetidos a extremos de temperatura, deixados
sem água nem comida, colocados em posições
"desconfortáveis" (a foto do iraquiano de manto preto equilibrando-se
sobre um caixote, com fios elétricos pendendo dos braços,
lembram-se?). Afogamento simulado, comum em tantas delegacias do
Terceiro Mundo, só com licença especial, como a que
foi dada no caso de Khalid Shaikh Mohamed, o mais importante dirigente
da Al Qaeda preso pelos americanos. Sabe-se que a CIA pediu autorização
pelo menos uma vez para simular que enterraria vivo outro preso
graúdo da Al Qaeda não se sabe se foi dada.
Será
que é uma coisa tão condenável assim submeter
um tipo como Shaikh Mohamed, a mente maligna que concebeu os atentados
de 11 de setembro, a violências físicas, especialmente
tendo em vista extrair informações sobre ataques ainda
em gestação? Muitos americanos, honestos e decentes,
diriam que não. É esta, justamente, a perigosa sedução
da tortura: a relativização moral. Sempre haverá
alguma circunstância em que o suplício pareça
justificável (um ente querido está seqüestrado,
um dos captores cai em mãos da polícia; quantos se
atreveriam a dizer que a informação do cativeiro não
deve ser arrancada a força?). É por isso que o interdito
à tortura precisa ser reiteradamente repetido, sob o risco
de, em não o fazendo, minar um dos pilares da civilização
e carregar uma nódoa que atravessa os séculos. Sabe-o
bem a Igreja Católica, que ainda em nossos tempos expia os
pecados cometidos durante a Inquisição, iniciada no
longínquo ano de 1231. A Igreja continua pedindo perdão
até hoje e procurando justificativas, como o estudo
divulgado na semana passada demonstrando que o número de
vítimas dos inquisidores foi muito menor do que o presumido
pelo vulgo. Provavelmente é verdade. Mas não faz a
menor diferença.
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