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Iraque
O caos sob nova direção
Quinze meses depois de invadir o Iraque, os
americanos entregam um país convulsionado
ao governo provisório
Fotos Reuters
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| Iraquianos socorrem ferido em explosão
de carro-bomba em Bagdá, na semana passada: terrorismo
cresce às vésperas da transferência do poder
para os iraquianos |
O Iraque governado pelos próprios iraquianos
será menos violento do que o país é hoje, sob
ocupação americana? A julgar pela semana passada,
a resposta é não. Só na última quinta-feira
explodiram em Bagdá dois carros-bomba, com meia centena de
mortos (foram dezessete carros-bomba e 180 mortos nos primeiros
quinze dias do mês). A sabotagem dos oleodutos reduziu as
exportações de petróleo a meros 20% do normal.
O Iraque que os americanos vão entregar ao governo provisório
448 dias depois da queda do ditador Saddam Hussein é um país
falido, com as instituições em frangalhos, infra-estrutura
ainda precária e sacudido pela violência dos terroristas
e dos criminosos comuns. Fanáticos religiosos dominam agora
feudos, nos quais as tropas de ocupação só
entram em formação de combate. Ainda assim, a expectativa
dos iraquianos em relação ao governo provisório,
cuja posse está marcada para a quarta-feira 30, é
de inusual otimismo.
Muitos jornais de Bagdá que faziam
apologia da resistência armada às tropas de ocupação
e a seus colaboradores iraquianos escrevem agora que chegou a hora
de dar uma chance ao governo provisório e começar
a pensar em reconciliação nacional. Uma pesquisa mostrou
que seis em cada dez iraquianos acreditam que a situação
vai melhorar sob administração nacional. Se o novo
governo for capaz de impor ordem o suficiente para que se realizem
eleições em janeiro, é possível que
as tropas americanas possam ir embora no final do processo político,
no fim de 2005, e o Iraque volte a ser um país dono do próprio
destino. Já no que diz respeito à violência,
nem os mais otimistas acreditam que decline em prazo curto. Ao contrário,
é esperado que aumente até a hora da posse, pois os
terroristas vão tentar arruinar a chance de qualquer racionalidade
institucional no torturado Iraque pós-Saddam. O serviço
de inteligência dos Estados Unidos prevê que vá
demorar pelo menos cinco anos para que o país esteja pacificado.
O presidente George W. Bush invadiu o Iraque
sob a justificativa de que era necessário um ataque preventivo
antes que Saddam Hussein usasse suas armas de destruição
em massa contra os vizinhos ou contra os próprios Estados
Unidos. Hoje se sabe que esse arsenal só existia nas bravatas
de Saddam Hussein e nos pesadelos ideológicos dos guerreiros
na Casa Branca e no Pentágono. O plano estratégico
de Bush era estabelecer no Iraque uma democracia e uma economia
de mercado próspera, que servissem de exemplo para o Oriente
Médio. Nesse aspecto, pouco de bom há para mostrar.
Surpreende como a invasão foi feita às pressas, sem
um planejamento adequado sobre o que fazer depois da queda do regime.
As forças de ocupação fracassaram numa obrigação
fundamental: a de oferecer segurança à população.
Não havia soldados suficientes para evitar os saques e preencher
o vácuo de poder. A desorganização também
se estendeu à administração civil montada pelos
americanos. No início, as decisões mais simples emperravam
na burocracia ou na corrupção envolvendo os intermediários
iraquianos. A sucessão de problemas minou o apoio da população.
O desgaste causado pela presença prolongada de uma força
de ocupação estrangeira encarregou-se de criar o ambiente
no qual nacionalismo, fanatismo religioso e bandidismo se misturaram.
Com a escalada de atentados e do crime comum nas ruas, a situação
escapou ao controle.
O que os iraquianos têm agora é
uma chance de construir um futuro melhor. A invasão americana
os livrou de um ditador de crueldade e ambição sem
limites. Saddam arrastou o país a duas guerras desastrosas.
Foram tentativas de tomar os campos petrolíferos de países
vizinhos não que precisasse, pois o Iraque repousa
sobre a segunda maior reserva de petróleo do planeta ,
atitude que os EUA e outros países não poderiam tolerar.
Os ocupantes americanos gastaram no Iraque bilhões de dólares
para equipar hospitais, construir escolas e restabelecer serviços
essenciais dilapidados por uma década de sanções
econômicas internacionais. É verdade que não
foram capazes, em parte devido a sabotagens, de restabelecer o fornecimento
de energia elétrica nos níveis anteriores à
invasão. Mas não há problemas com o abastecimento
de alimentos ou para obter telefone celular. Tudo isso significa
pouco se o governo provisório não for capaz de conter
a violência. Caso fracassem, os novos governantes vão
precisar, para continuar vivos, se isolar dentro de casamatas, como
fazem os soldados americanos.
O otimismo iraquiano com a mudança
reflete a qualidade da engenharia política que marcou a formação
do governo provisório. A boa aceitação do primeiro-ministro
Iyad Allawi é a surpresa. Um xiita secular que passou trinta
anos no exílio, ele já foi financiado pela CIA, o
que em tese prejudicaria sua imagem. Antes de fugir do Iraque, Allawi
foi figurão no Baath, o mesmo partido de Saddam Hussein,
e agente do serviço secreto iraquiano, o que também
não é um bom currículo para um suposto democrata.
O que ele tem a seu favor é a reputação de
durão, um homem com estofo para restabelecer a ordem e a
segurança no país. Para dar jeito no caos, ele pretende
trazer de volta para o governo os militares, agentes secretos e
funcionários do antigo regime. Entre seus planos está
reunir as milícias ligadas a antigos exilados e criar com
elas uma força de intervenção rápida.
Na quinta-feira, em visita ao local de um dos carros-bomba, o novo
ministro da Defesa, Hazim al-Shaalan, prometeu lançar operações
militares contra os insurgentes nos próximos dias. "Vamos
decepar suas mãos e degolá-los", ameaçou. Essa
é uma retórica que os iraquianos entendem e aprovam.
Os novos ministros têm posado de nacionalistas
para a platéia. Exigem, por exemplo, que os americanos entreguem
Saddam Hussein, que pretendem julgar num tribunal especial por crime
de guerra. Os Estados Unidos concordam com a exigência, mas
são vagos sobre quando a entrega ocorreria. Na verdade, o
governo iraquiano é impotente perante as forças de
ocupação. Em tese, pode pedir a retirada delas do
país, mas não pode dar palpite em suas operações
militares. O presidente nomeado é o xeque Ghazi Ajil al-Yawar,
engenheiro educado nos EUA e casado com uma princesa saudita. O
mais importante é ser sobrinho do patriarca de uma poderosa
confederação de tribos com ramificações
nos países vizinhos. O colapso do regime de Saddam Hussein
deu novo vigor às tribos e aos clãs iraquianos. Na
falta do Estado, os iraquianos socorrem-se agora com a parentela
em todos os aspectos ajuda médica, empréstimos
e orientação política. A tribo Shamar, do presidente
nomeado, tem integrantes xiitas e sunitas, o que faz dele o homem
certo para mediar a rivalidade entre as duas principais comunidades
religiosas do Iraque. É irônico que a invasão
que pretendia criar uma democracia exemplar tenha levado os iraquianos
de volta ao tribalismo.
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Podia ter sido ainda pior
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Laden queria atingir a Casa Branca
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Atta no dia do ataque: ele escolheu
o Capitólio
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Os atentados que colocaram abaixo
as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova
York, e parte do prédio do Pentágono,
em Washington, foram os mais espetaculares da história
do terrorismo. O surpreendente é que de
acordo com a conclusão de um comitê do
Congresso americano o que aconteceu em 11 de
setembro de 2001 foi apenas a versão simplificada
e repleta de improvisos de um projeto inicial muito
maior. O comitê, que divulgou um laudo parcial
de seu relatório na semana passada, diz que a
Al Qaeda, a organização de Osama bin Laden,
começou a planejar os atentados em 1999. A idéia
original, proposta pelo kuwaitiano Khalid Shaikh Mohamed,
braço direito de Laden, era seqüestrar dez
aviões e atingir simultaneamente o Congresso
americano, usinas nucleares, arranha-céus e as
sedes da CIA e do FBI. Mohamed se propunha a pousar
em algum lugar com o décimo avião e, depois
de matar todos os homens a bordo, divulgar um manifesto
antiamericano. Laden vetou a leitura do manifesto.
As principais fontes do comitê
são os depoimentos de dois terroristas presos
nos Estados Unidos, um deles o próprio Khalid
Shaikh Mohamed. Primeiro, Laden pretendeu efetuar os
atentados em 2000, para coincidir com uma visita do
primeiro-ministro israelense Ariel Sharon a Washington.
Depois, insistiu que ocorressem em maio ou junho de
2001 e exigia que a Casa Branca fosse um dos alvos.
O egípcio Mohamed Atta, o líder da operação,
avisou que o grupo não estava pronto para atacar
tão cedo. E argumentou que a residência
do presidente americano era pequena demais para servir
de alvo. Só na antevéspera dos atentados,
Atta decidiu que um dos aviões seqüestrados
aquele que caiu no descampado na Pensilvânia
seria jogado contra o prédio do Congresso
dos Estados Unidos. Ele tinha adiado o ataque para setembro
exatamente para esperar o fim do recesso parlamentar
americano. Só a ação heróica
dos passageiros, que enfrentaram os terroristas, impediu
que levassem o plano até o fim. Isso porque os
caças F-16 não foram autorizados a abater
a aeronave, numa falha grotesca do serviço de
proteção aérea. O relatório
final da investigação será divulgado
no fim de julho. Pelo que se viu no resumo, conterá
material capaz de constranger o presidente George W.
Bush. O comitê não encontrou evidências
de ligações da Al Qaeda com o ditador
Saddam Hussein, uma das justificativas do presidente
para invadir o Iraque.
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