Edição 1859 . 23 de junho de 2004

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Iraque
O caos sob nova direção

Quinze meses depois de invadir o Iraque, os
americanos entregam um país convulsionado
ao governo provisório

 
Fotos Reuters
Iraquianos socorrem ferido em explosão de carro-bomba em Bagdá, na semana passada: terrorismo cresce às vésperas da transferência do poder para os iraquianos


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Iraque de governo novo
EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: Pós-guerra no Iraque

O Iraque governado pelos próprios iraquianos será menos violento do que o país é hoje, sob ocupação americana? A julgar pela semana passada, a resposta é não. Só na última quinta-feira explodiram em Bagdá dois carros-bomba, com meia centena de mortos (foram dezessete carros-bomba e 180 mortos nos primeiros quinze dias do mês). A sabotagem dos oleodutos reduziu as exportações de petróleo a meros 20% do normal. O Iraque que os americanos vão entregar ao governo provisório 448 dias depois da queda do ditador Saddam Hussein é um país falido, com as instituições em frangalhos, infra-estrutura ainda precária e sacudido pela violência dos terroristas e dos criminosos comuns. Fanáticos religiosos dominam agora feudos, nos quais as tropas de ocupação só entram em formação de combate. Ainda assim, a expectativa dos iraquianos em relação ao governo provisório, cuja posse está marcada para a quarta-feira 30, é de inusual otimismo.

Muitos jornais de Bagdá que faziam apologia da resistência armada às tropas de ocupação e a seus colaboradores iraquianos escrevem agora que chegou a hora de dar uma chance ao governo provisório e começar a pensar em reconciliação nacional. Uma pesquisa mostrou que seis em cada dez iraquianos acreditam que a situação vai melhorar sob administração nacional. Se o novo governo for capaz de impor ordem o suficiente para que se realizem eleições em janeiro, é possível que as tropas americanas possam ir embora no final do processo político, no fim de 2005, e o Iraque volte a ser um país dono do próprio destino. Já no que diz respeito à violência, nem os mais otimistas acreditam que decline em prazo curto. Ao contrário, é esperado que aumente até a hora da posse, pois os terroristas vão tentar arruinar a chance de qualquer racionalidade institucional no torturado Iraque pós-Saddam. O serviço de inteligência dos Estados Unidos prevê que vá demorar pelo menos cinco anos para que o país esteja pacificado.

O presidente George W. Bush invadiu o Iraque sob a justificativa de que era necessário um ataque preventivo antes que Saddam Hussein usasse suas armas de destruição em massa contra os vizinhos ou contra os próprios Estados Unidos. Hoje se sabe que esse arsenal só existia nas bravatas de Saddam Hussein e nos pesadelos ideológicos dos guerreiros na Casa Branca e no Pentágono. O plano estratégico de Bush era estabelecer no Iraque uma democracia e uma economia de mercado próspera, que servissem de exemplo para o Oriente Médio. Nesse aspecto, pouco de bom há para mostrar. Surpreende como a invasão foi feita às pressas, sem um planejamento adequado sobre o que fazer depois da queda do regime. As forças de ocupação fracassaram numa obrigação fundamental: a de oferecer segurança à população. Não havia soldados suficientes para evitar os saques e preencher o vácuo de poder. A desorganização também se estendeu à administração civil montada pelos americanos. No início, as decisões mais simples emperravam na burocracia ou na corrupção envolvendo os intermediários iraquianos. A sucessão de problemas minou o apoio da população. O desgaste causado pela presença prolongada de uma força de ocupação estrangeira encarregou-se de criar o ambiente no qual nacionalismo, fanatismo religioso e bandidismo se misturaram. Com a escalada de atentados e do crime comum nas ruas, a situação escapou ao controle.

O que os iraquianos têm agora é uma chance de construir um futuro melhor. A invasão americana os livrou de um ditador de crueldade e ambição sem limites. Saddam arrastou o país a duas guerras desastrosas. Foram tentativas de tomar os campos petrolíferos de países vizinhos – não que precisasse, pois o Iraque repousa sobre a segunda maior reserva de petróleo do planeta –, atitude que os EUA e outros países não poderiam tolerar. Os ocupantes americanos gastaram no Iraque bilhões de dólares para equipar hospitais, construir escolas e restabelecer serviços essenciais dilapidados por uma década de sanções econômicas internacionais. É verdade que não foram capazes, em parte devido a sabotagens, de restabelecer o fornecimento de energia elétrica nos níveis anteriores à invasão. Mas não há problemas com o abastecimento de alimentos ou para obter telefone celular. Tudo isso significa pouco se o governo provisório não for capaz de conter a violência. Caso fracassem, os novos governantes vão precisar, para continuar vivos, se isolar dentro de casamatas, como fazem os soldados americanos.

O otimismo iraquiano com a mudança reflete a qualidade da engenharia política que marcou a formação do governo provisório. A boa aceitação do primeiro-ministro Iyad Allawi é a surpresa. Um xiita secular que passou trinta anos no exílio, ele já foi financiado pela CIA, o que em tese prejudicaria sua imagem. Antes de fugir do Iraque, Allawi foi figurão no Baath, o mesmo partido de Saddam Hussein, e agente do serviço secreto iraquiano, o que também não é um bom currículo para um suposto democrata. O que ele tem a seu favor é a reputação de durão, um homem com estofo para restabelecer a ordem e a segurança no país. Para dar jeito no caos, ele pretende trazer de volta para o governo os militares, agentes secretos e funcionários do antigo regime. Entre seus planos está reunir as milícias ligadas a antigos exilados e criar com elas uma força de intervenção rápida. Na quinta-feira, em visita ao local de um dos carros-bomba, o novo ministro da Defesa, Hazim al-Shaalan, prometeu lançar operações militares contra os insurgentes nos próximos dias. "Vamos decepar suas mãos e degolá-los", ameaçou. Essa é uma retórica que os iraquianos entendem e aprovam.

Os novos ministros têm posado de nacionalistas para a platéia. Exigem, por exemplo, que os americanos entreguem Saddam Hussein, que pretendem julgar num tribunal especial por crime de guerra. Os Estados Unidos concordam com a exigência, mas são vagos sobre quando a entrega ocorreria. Na verdade, o governo iraquiano é impotente perante as forças de ocupação. Em tese, pode pedir a retirada delas do país, mas não pode dar palpite em suas operações militares. O presidente nomeado é o xeque Ghazi Ajil al-Yawar, engenheiro educado nos EUA e casado com uma princesa saudita. O mais importante é ser sobrinho do patriarca de uma poderosa confederação de tribos com ramificações nos países vizinhos. O colapso do regime de Saddam Hussein deu novo vigor às tribos e aos clãs iraquianos. Na falta do Estado, os iraquianos socorrem-se agora com a parentela em todos os aspectos – ajuda médica, empréstimos e orientação política. A tribo Shamar, do presidente nomeado, tem integrantes xiitas e sunitas, o que faz dele o homem certo para mediar a rivalidade entre as duas principais comunidades religiosas do Iraque. É irônico que a invasão que pretendia criar uma democracia exemplar tenha levado os iraquianos de volta ao tribalismo.

 

Podia ter sido ainda pior

Laden queria atingir a Casa Branca

Atta no dia do ataque: ele escolheu o Capitólio

Os atentados que colocaram abaixo as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e parte do prédio do Pentágono, em Washington, foram os mais espetaculares da história do terrorismo. O surpreendente é que – de acordo com a conclusão de um comitê do Congresso americano – o que aconteceu em 11 de setembro de 2001 foi apenas a versão simplificada e repleta de improvisos de um projeto inicial muito maior. O comitê, que divulgou um laudo parcial de seu relatório na semana passada, diz que a Al Qaeda, a organização de Osama bin Laden, começou a planejar os atentados em 1999. A idéia original, proposta pelo kuwaitiano Khalid Shaikh Mohamed, braço direito de Laden, era seqüestrar dez aviões e atingir simultaneamente o Congresso americano, usinas nucleares, arranha-céus e as sedes da CIA e do FBI. Mohamed se propunha a pousar em algum lugar com o décimo avião e, depois de matar todos os homens a bordo, divulgar um manifesto antiamericano. Laden vetou a leitura do manifesto.

As principais fontes do comitê são os depoimentos de dois terroristas presos nos Estados Unidos, um deles o próprio Khalid Shaikh Mohamed. Primeiro, Laden pretendeu efetuar os atentados em 2000, para coincidir com uma visita do primeiro-ministro israelense Ariel Sharon a Washington. Depois, insistiu que ocorressem em maio ou junho de 2001 e exigia que a Casa Branca fosse um dos alvos. O egípcio Mohamed Atta, o líder da operação, avisou que o grupo não estava pronto para atacar tão cedo. E argumentou que a residência do presidente americano era pequena demais para servir de alvo. Só na antevéspera dos atentados, Atta decidiu que um dos aviões seqüestrados – aquele que caiu no descampado na Pensilvânia – seria jogado contra o prédio do Congresso dos Estados Unidos. Ele tinha adiado o ataque para setembro exatamente para esperar o fim do recesso parlamentar americano. Só a ação heróica dos passageiros, que enfrentaram os terroristas, impediu que levassem o plano até o fim. Isso porque os caças F-16 não foram autorizados a abater a aeronave, numa falha grotesca do serviço de proteção aérea. O relatório final da investigação será divulgado no fim de julho. Pelo que se viu no resumo, conterá material capaz de constranger o presidente George W. Bush. O comitê não encontrou evidências de ligações da Al Qaeda com o ditador Saddam Hussein, uma das justificativas do presidente para invadir o Iraque.

 

 
 
 
 
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