Edição 1859 . 23 de junho de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Comportamento
O amor que nasce
das ruínas

Depois do 11/9, vários bombeiros
de Nova York casaram-se com viúvas
dos colegas


Diogo Schelp


AFP
Bombeiro entre os destroços do WTC: um mês procurando corpos de colegas

Os bombeiros de Nova York costumam se colocar à disposição das viúvas dos companheiros mortos em serviço para o que for necessário – mas casar-se com elas nunca fez parte da tradição. É exatamente isso que está ocorrendo agora, em quantidade surpreendente. Morreram 343 bombeiros nova-iorquinos nos atentados de 11 de setembro de 2001. Os sobreviventes passaram a buscar na escola os filhos dos colegas mortos, a fazer compras de supermercado para suas casas e a acompanhar as viúvas nas homenagens póstumas. Dezenas foram além e começaram a ter caso amoroso com as viúvas. Até agora, doze bombeiros abandonaram a própria família para ficar com a mulher e os filhos dos companheiros mortos. Esses casamentos desfeitos e refeitos não despertariam atenção não fosse o impacto dos atentados sobre os americanos. A pergunta que surge nas conversas e na imprensa é por que isso está ocorrendo exatamente entre os bombeiros, considerados os heróis daquele dia fatídico. As esposas desprezadas acusam o Corpo de Bombeiros de não ter dado o apoio psicológico necessário a seus maridos, depois do trauma dos atentados – e ameaçam exigir indenizações milionárias da prefeitura.

Há fartura de explicações para o comportamento dos bombeiros infiéis. A mais prosaica delas é também a de maior credibilidade: trata-se simplesmente de amor. Dois adultos que se aproximam em circunstâncias em que as emoções estão à flor da pele e acabam se envolvendo afetivamente. Uma teoria psicológica mais complexa diz que talvez os bombeiros estejam se sentindo culpados por ter sobrevivido e tentam reparar esse fato assumindo o papel dos que morreram nos trabalhos de resgate. Outra hipótese em voga especula se eles estariam sofrendo de síndrome de stress pós-traumático – uma reação a um acontecimento inesperado sobre o qual não se tem nenhum controle. As pessoas que padecem desse mal podem desenvolver um sentimento de desesperança em relação à vida que levavam antes do trauma. "De todos os sintomas do distúrbio de stress pós-traumático, nenhum inclui casar-se com as viúvas da tragédia", diz o psiquiatra Rubens Pitliuk, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. "Talvez o diagnóstico mais adequado para esses bombeiros seja de 'malandragem psicologicamente explicada'."

Faz sentido pensar assim, considerando que o governo americano pagou 7 bilhões de dólares de compensação a 5.000 famílias de vítimas dos atentados. E que, além de abocanharem uma parte desse dinheiro, as viúvas dos bombeiros também se beneficiaram de doações da população e indenizações especiais. Estima-se que cada viúva de bombeiro morto em 11 de setembro tenha recebido entre 800.000 e 1,5 milhão de dólares em indenizações. Jovens, disponíveis, ricas e vulneráveis, as viúvas dos ex-companheiros tornaram-se um partidão para os bombeiros sobreviventes. "A vida é muito curta", disse ao jornal New York Times o bombeiro John Zazulka, que deixou a mulher e os quatro filhos para viver com Deborah Amato, viúva de um colega, também com quatro filhos. Zazulka afirma que não era feliz no casamento. Conheceu Deborah em uma das muitas homenagens aos companheiros mortos nos atentados e passou a consolar sua família. Ele se aposentou por invalidez do Corpo de Bombeiros (machucou-se em serviço) e, com a bolada de quase 1 milhão de dólares que a viúva recebeu de indenização, o novo casal está construindo uma bela casa no subúrbio de Nova York e já comprou um Mercedes conversível. Susan Zazulka, a esposa abandonada, não se conforma. "John não leva a vida a sério. Só se interessa por diversão e por dinheiro", comenta, com rancor de ex-mulher. Ela diz estar cheia de dívidas e reclama que não recebe ajuda financeira alguma do ex-marido.

O ressentimento de Mary Koenig, outra das esposas abandonadas, tem um componente especial: o marido, Gerry, não apenas a deixou pela viúva de um colega morto nos atentados como escolheu justamente sua melhor amiga. Os dois casais com marido bombeiro – Mary e Gerry Koenig e Madeline e John Bergin – passavam juntos os fins de semana. Eram tão amigos que até fizeram um acordo: se acontecesse algo com um deles em serviço, o outro cuidaria da família. Foi o que ocorreu quando John morreu nos atentados de 11 de setembro. Gerry fez mais do que ajudar: ocupou o lugar do amigo em todos os sentidos e deixou para trás a própria família. Com o dinheiro da indenização, leva uma vida de luxo, com carros novos e roupa de grife. Para a imprensa americana, Mary apresenta-se como uma espécie diferente de viúva dos atentados: uma que perdeu o marido, mas não recebeu indenização. Como é de esperar, os bombeiros infiéis negam ter sido atraídos pelo dinheiro das viúvas. Também rejeitam todas as explicações sobre estarem psicologicamente abalados pelos atentados. Eles se dizem sinceramente apaixonados pelas novas mulheres, e fim de conversa.

 
 
 
 
topo voltar