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Comportamento
O
amor que nasce
das ruínas
Depois
do 11/9, vários bombeiros
de Nova York casaram-se com viúvas
dos colegas

Diogo
Schelp
AFP
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| Bombeiro
entre os destroços do WTC: um mês procurando corpos
de colegas |
Os
bombeiros de Nova York costumam se colocar à disposição
das viúvas dos companheiros mortos em serviço para
o que for necessário mas casar-se com elas nunca fez
parte da tradição. É exatamente isso que está
ocorrendo agora, em quantidade surpreendente. Morreram 343 bombeiros
nova-iorquinos nos atentados de 11 de setembro de 2001. Os sobreviventes
passaram a buscar na escola os filhos dos colegas mortos, a fazer
compras de supermercado para suas casas e a acompanhar as viúvas
nas homenagens póstumas. Dezenas foram além e começaram
a ter caso amoroso com as viúvas. Até agora, doze
bombeiros abandonaram a própria família para ficar
com a mulher e os filhos dos companheiros mortos. Esses casamentos
desfeitos e refeitos não despertariam atenção
não fosse o impacto dos atentados sobre os americanos. A
pergunta que surge nas conversas e na imprensa é por que
isso está ocorrendo exatamente entre os bombeiros, considerados
os heróis daquele dia fatídico. As esposas desprezadas
acusam o Corpo de Bombeiros de não ter dado o apoio psicológico
necessário a seus maridos, depois do trauma dos atentados
e ameaçam exigir indenizações milionárias
da prefeitura.
Há
fartura de explicações para o comportamento dos bombeiros
infiéis. A mais prosaica delas é também a de
maior credibilidade: trata-se simplesmente de amor. Dois adultos
que se aproximam em circunstâncias em que as emoções
estão à flor da pele e acabam se envolvendo afetivamente.
Uma teoria psicológica mais complexa diz que talvez os bombeiros
estejam se sentindo culpados por ter sobrevivido e tentam reparar
esse fato assumindo o papel dos que morreram nos trabalhos de resgate.
Outra hipótese em voga especula se eles estariam sofrendo
de síndrome de stress pós-traumático
uma reação a um acontecimento inesperado sobre o qual
não se tem nenhum controle. As pessoas que padecem desse
mal podem desenvolver um sentimento de desesperança em relação
à vida que levavam antes do trauma. "De todos os sintomas
do distúrbio de stress pós-traumático, nenhum
inclui casar-se com as viúvas da tragédia", diz o
psiquiatra Rubens Pitliuk, do Hospital Albert Einstein, em São
Paulo. "Talvez o diagnóstico mais adequado para esses bombeiros
seja de 'malandragem psicologicamente explicada'."
Faz
sentido pensar assim, considerando que o governo americano pagou
7 bilhões de dólares de compensação
a 5.000 famílias de vítimas
dos atentados. E que, além de abocanharem uma parte desse
dinheiro, as viúvas dos bombeiros também se beneficiaram
de doações da população e indenizações
especiais. Estima-se que cada viúva de bombeiro morto em
11 de setembro tenha recebido entre 800.000
e 1,5 milhão de dólares em indenizações.
Jovens, disponíveis, ricas e vulneráveis, as viúvas
dos ex-companheiros tornaram-se um partidão para os bombeiros
sobreviventes. "A vida é muito curta", disse ao jornal New
York Times o bombeiro John Zazulka, que deixou a mulher e os
quatro filhos para viver com Deborah Amato, viúva de um colega,
também com quatro filhos. Zazulka afirma que não era
feliz no casamento. Conheceu Deborah em uma das muitas homenagens
aos companheiros mortos nos atentados e passou a consolar sua família.
Ele se aposentou por invalidez do Corpo de Bombeiros (machucou-se
em serviço) e, com a bolada de quase 1 milhão de dólares
que a viúva recebeu de indenização, o novo
casal está construindo uma bela casa no subúrbio de
Nova York e já comprou um Mercedes conversível. Susan
Zazulka, a esposa abandonada, não se conforma. "John não
leva a vida a sério. Só se interessa por diversão
e por dinheiro", comenta, com rancor de ex-mulher. Ela diz estar
cheia de dívidas e reclama que não recebe ajuda financeira
alguma do ex-marido.
O
ressentimento de Mary Koenig, outra das esposas abandonadas, tem
um componente especial: o marido, Gerry, não apenas a deixou
pela viúva de um colega morto nos atentados como escolheu
justamente sua melhor amiga. Os dois casais com marido bombeiro
Mary e Gerry Koenig e Madeline e John Bergin passavam
juntos os fins de semana. Eram tão amigos que até
fizeram um acordo: se acontecesse algo com um deles em serviço,
o outro cuidaria da família. Foi o que ocorreu quando John
morreu nos atentados de 11 de setembro. Gerry fez mais do que ajudar:
ocupou o lugar do amigo em todos os sentidos e deixou para trás
a própria família. Com o dinheiro da indenização,
leva uma vida de luxo, com carros novos e roupa de grife. Para a
imprensa americana, Mary apresenta-se como uma espécie diferente
de viúva dos atentados: uma que perdeu o marido, mas não
recebeu indenização. Como é de esperar, os
bombeiros infiéis negam ter sido atraídos pelo dinheiro
das viúvas. Também rejeitam todas as explicações
sobre estarem psicologicamente abalados pelos atentados. Eles se
dizem sinceramente apaixonados pelas novas mulheres, e fim de conversa.
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