Edição 1859 . 23 de junho de 2004

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Perfil
O surfista 360 graus

Quatro anos depois de ficar preso
no fundo do mar, Neco Padaratz
supera o trauma e os adversários


Roberta Salomone

Fotos Suzete Sandin
Neco: boa fase do esportista que gosta de noitadas, mulheres, tatuagens e brigas
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Um surfista que tem medo de onda parece coisa saída de um episódio dos Simpsons. Mais incongruente ainda é um campeão de surfe, com toda a aura de machismo cool que cerca a categoria, admitir publicamente que não tem coragem de enfrentar a barra. Pois o catarinense Neco Padaratz teve medo, admitiu-o e, durante quatro anos, viveu um dilema que só terminou no mês passado. Durante a etapa do campeonato mundial em Teahupoo, no Taiti, em 2000, Neco enfrentou o pesadelo de todo surfista: ficou preso no fundo do mar, com a cordinha da prancha enganchada em uma pedra. Os minutos que passou debaixo d'água foram pavorosos. Só acabaram quando a corda se soltou, por acaso, e ele foi empurrado pela maré contra os recifes próximos. Com o corpo machucado, foi localizado e salvo graças ao capacete verde fluorescente que usava. "Foi um wipe out (tradução: tombo) sinistro. Fiquei com pânico daquele mar", conta. A partir daí, começou a batalha contra o maior de todos os perigos, o medo. Neco teve depressão, fez terapia, quase aposentou as pranchas. Durante dois anos, nem sequer cogitou voltar ao local do acidente. Em 2003, inscreveu-se na competição, mas desistiu uma hora antes de embarcar. No mês passado, finalmente, como um Ulisses de prancha, enfrentou o inimigo. Lançou-se ao mar proceloso do Taiti e livrou-se do pesadelo. "Não fui bem classificado na etapa, mas, mesmo assim, considerei uma grande vitória. Achava que não tinha condições físicas nem psicológicas para encarar mais a vida", conta o surfista de 27 anos. Desde então, Neco vem conquistando ótimos resultados no World Qualifying Series, para os íntimos WQS, uma espécie de divisão de acesso ao topo do surfe. Atualmente, é líder do campeonato, à frente de 99 outros surfistas de todo o mundo.

Conhecido pela fama de bad boy, Neco (batizado com o nome de Percy) vem de um clã famoso no mundo do surfe. O irmão Teco (Flávio) teve carreira de sucesso e fez parte do circuito mundial durante quinze anos. Aos 33 anos, casado, duas filhas, desistiu recentemente das competições para virar empresário. A paixão dos Padaratz pelo esporte parece coisa de novela, mais especificamente Da Cor do Pecado, em que a Edilásia de Rosi Campos emula a determinação da matriarca da família, Madrison. No início dos anos 80, quando o Brasil não tinha tradição nem atletas de prestígio no surfe, ela punha os três filhos (Charles, o mais velho, acabou desistindo na adolescência) em sua Brasília verde e percorria as praias de Santa Catarina atrás de ondas. Enquanto Teco, o irmão calmo, ordeiro e disciplinado, brilhava – cinco meses depois de começar a competir, foi campeão catarinense –, Neco, uma espécie de oposto total, explosivo e refratário a treinos e horários, partia para uma carreira cheia de altos e muitos baixos. Sua justificativa, em "surfês", o monossilábico idioma do esporte (veja quadro abaixo): "A vida é assim, 360 graus", referência a uma manobra radical do surfe em que o atleta executa uma volta em torno de si mesmo.

Neco cai na balada com gosto e gosta de dormir até tarde. Com o indefectível figurino bermuda-camiseta-chinelo, ostenta três piercings (mamilo, sobrancelha e orelha) e 28 tatuagens, sendo cinco delas – as palavras lua, sol, força, perdão e alma, em latim – na perna direita. Faz, obviamente, sucesso com as mulheres e a recíproca é intensamente verdadeira. Está separado há três anos da mãe de seu filho, Niccolas, 6 anos, que só vê muito raramente. Não terminou o ensino médio, mas acha que a cultura adquirida nas trips (passa dez meses por ano viajando por cerca de vinte países diferentes) compensa a falta de estudos formal. Na mala que levou para as Ilhas Maldivas, há duas semanas, colocou a biografia de Ayrton Senna e um livro de Amyr Klink. Admite, porém, que dificilmente enfrentará a penosa tarefa de lê-los. "Não tenho esse hábito, mas posso precisar daquelas palavras em algum momento", explica.

Teco, o irmão disciplinado, com a mulher e as filhas: campeão aposentado

Para administrar sua notória instabilidade, Charles, o primogênito, foi convocado e exerce rígido controle sobre o orçamento do irmão. Neco não faz o gênero surfista eternamente duro: segundo a Associação de Surfe Profissional, só no ano passado ele faturou mais de 90.000 dólares com prêmios. Ao longo da carreira, estima-se que tenha amealhado a respeitável quantia de 430.000 dólares. Mas é gastador contumaz e até o ano passado estava enrolado em pelo menos uma dezena de dívidas, que a administração Charles ajudou a sanar. Mora numa casa alugada de dois quartos em um condomínio de classe média alta na Praia Mole, uma das preferidas dos surfistas, e tem um apartamento pequeno em Camboriú. Os irmãos dizem que Neco sempre foi o xodó da mãe. Madrison, 54 anos, que até hoje vai à casa do caçula arrumar a bagunça que ele faz, nega. "É ciúme", garante. Dentro e fora do mundo do surfe, Neco coleciona histórias de brigas. Já discutiu por resultados de campeonatos, bateu e apanhou por causa de mulher, arrumou muitas inimizades. Explica tudo com o mesmo mantra: "Sou assim, 360 graus".

 

 

 
 
 
 
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