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Perfil
O surfista 360 graus
Quatro anos depois de ficar preso
no fundo do mar, Neco Padaratz
supera o trauma e os adversários

Roberta Salomone
Fotos Suzete Sandin
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| Neco: boa fase do esportista que gosta de
noitadas, mulheres, tatuagens e brigas |
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Um surfista que tem medo de onda parece coisa saída de um
episódio dos Simpsons. Mais incongruente ainda é
um campeão de surfe, com toda a aura de machismo cool que
cerca a categoria, admitir publicamente que não tem coragem
de enfrentar a barra. Pois o catarinense Neco Padaratz teve medo,
admitiu-o e, durante quatro anos, viveu um dilema que só
terminou no mês passado. Durante a etapa do campeonato mundial
em Teahupoo, no Taiti, em 2000, Neco enfrentou o pesadelo de todo
surfista: ficou preso no fundo do mar, com a cordinha da prancha
enganchada em uma pedra. Os minutos que passou debaixo d'água
foram pavorosos. Só acabaram quando a corda se soltou, por
acaso, e ele foi empurrado pela maré contra os recifes próximos.
Com o corpo machucado, foi localizado e salvo graças ao capacete
verde fluorescente que usava. "Foi um wipe out (tradução:
tombo) sinistro. Fiquei com pânico daquele mar", conta.
A partir daí, começou a batalha contra o maior de
todos os perigos, o medo. Neco teve depressão, fez terapia,
quase aposentou as pranchas. Durante dois anos, nem sequer cogitou
voltar ao local do acidente. Em 2003, inscreveu-se na competição,
mas desistiu uma hora antes de embarcar. No mês passado, finalmente,
como um Ulisses de prancha, enfrentou o inimigo. Lançou-se
ao mar proceloso do Taiti e livrou-se do pesadelo. "Não fui
bem classificado na etapa, mas, mesmo assim, considerei uma grande
vitória. Achava que não tinha condições
físicas nem psicológicas para encarar mais a vida",
conta o surfista de 27 anos. Desde então, Neco vem conquistando
ótimos resultados no World Qualifying Series, para os íntimos
WQS, uma espécie de divisão de acesso ao topo do surfe.
Atualmente, é líder do campeonato, à frente
de 99 outros surfistas de todo o mundo.
Conhecido pela fama de bad boy, Neco
(batizado com o nome de Percy) vem de um clã famoso no mundo
do surfe. O irmão Teco (Flávio) teve carreira de sucesso
e fez parte do circuito mundial durante quinze anos. Aos 33 anos,
casado, duas filhas, desistiu recentemente das competições
para virar empresário. A paixão dos Padaratz pelo
esporte parece coisa de novela, mais especificamente Da Cor do
Pecado, em que a Edilásia de Rosi Campos emula a determinação
da matriarca da família, Madrison. No início dos anos
80, quando o Brasil não tinha tradição nem
atletas de prestígio no surfe, ela punha os três filhos
(Charles, o mais velho, acabou desistindo na adolescência)
em sua Brasília verde e percorria as praias de Santa Catarina
atrás de ondas. Enquanto Teco, o irmão calmo, ordeiro
e disciplinado, brilhava cinco meses depois de começar
a competir, foi campeão catarinense , Neco, uma espécie
de oposto total, explosivo e refratário a treinos e horários,
partia para uma carreira cheia de altos e muitos baixos. Sua justificativa,
em "surfês", o monossilábico idioma do esporte (veja
quadro abaixo): "A vida é assim, 360 graus",
referência a uma manobra radical do surfe em que o atleta
executa uma volta em torno de si mesmo.
Neco cai na balada com gosto e gosta de dormir
até tarde. Com o indefectível figurino bermuda-camiseta-chinelo,
ostenta três piercings (mamilo, sobrancelha e orelha) e 28
tatuagens, sendo cinco delas as palavras lua, sol, força,
perdão e alma, em latim na perna direita. Faz, obviamente,
sucesso com as mulheres e a recíproca é intensamente
verdadeira. Está separado há três anos da mãe
de seu filho, Niccolas, 6 anos, que só vê muito raramente.
Não terminou o ensino médio, mas acha que a cultura
adquirida nas trips (passa dez meses por ano viajando por
cerca de vinte países diferentes) compensa a falta de estudos
formal. Na mala que levou para as Ilhas Maldivas, há duas
semanas, colocou a biografia de Ayrton Senna e um livro de Amyr
Klink. Admite, porém, que dificilmente enfrentará
a penosa tarefa de lê-los. "Não tenho esse hábito,
mas posso precisar daquelas palavras em algum momento", explica.
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| Teco, o irmão disciplinado, com a mulher e
as filhas: campeão aposentado |
Para administrar sua notória instabilidade,
Charles, o primogênito, foi convocado e exerce rígido
controle sobre o orçamento do irmão. Neco não
faz o gênero surfista eternamente duro: segundo a Associação
de Surfe Profissional, só no ano passado ele faturou mais
de 90.000 dólares com prêmios.
Ao longo da carreira, estima-se que tenha amealhado a respeitável
quantia de 430.000 dólares. Mas
é gastador contumaz e até o ano passado estava enrolado
em pelo menos uma dezena de dívidas, que a administração
Charles ajudou a sanar. Mora numa casa alugada de dois quartos em
um condomínio de classe média alta na Praia Mole,
uma das preferidas dos surfistas, e tem um apartamento pequeno em
Camboriú. Os irmãos dizem que Neco sempre foi o xodó
da mãe. Madrison, 54 anos, que até hoje vai à
casa do caçula arrumar a bagunça que ele faz, nega.
"É ciúme", garante. Dentro e fora do mundo do surfe,
Neco coleciona histórias de brigas. Já discutiu por
resultados de campeonatos, bateu e apanhou por causa de mulher,
arrumou muitas inimizades. Explica tudo com o mesmo mantra: "Sou
assim, 360 graus".
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