Edição 1859 . 23 de junho de 2004

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Tecnologia
Negócios no espaço

A iniciativa privada constrói suas naves
e antecipa o fim do monopólio estatal


Gustavo Poloni


Fotos divulgação
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Protótipo da empresa Kelly Space: içado até ganhar altura Projeto da Vanguard Spacecraft: fibra de carbono para garantir resistência e leveza


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Em Profundidade: Jornadas Espaciais

Se as condições meteorológicas permitirem, nesta segunda-feira o mundo das viagens espaciais dará um importante passo rumo ao futuro. No início da manhã, a nave SpaceShipOne, com um tripulante a bordo, será lançada do Deserto de Mojave, nos Estados Unidos, percorrerá 100 quilômetros até sair da atmosfera terrestre e iniciará sua viagem de volta ao ponto de partida. A operação toda levará menos de duas horas e parece ser menos emocionante – ou relevante do ponto de vista científico – do que as aventuras habituais dos astronautas. A grande diferença é que este será o primeiro vôo ao espaço de uma nave americana patrocinada e construída pela iniciativa privada, e não pela agência espacial Nasa. Essa estatal, movida por um orçamento anual de 15 bilhões de dólares, detém o monopólio virtual das viagens espaciais nos Estados Unidos. Agora, muitos investidores, de olho principalmente no potencial que elas apresentam na área do turismo, começam a desafiar a supremacia da Nasa injetando dinheiro na construção de protótipos que, num futuro próximo, poderão levar excursionistas em férias para passear e apreciar a Terra vista do espaço.


Fotos divulgação
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Nave da PanAero: queda livre antes da volta à Terra proporciona três minutos de diversão sem a força da gravidade A canadense Da Vinci Project: os vôos como parte de pacotes em resorts

Por trás da pioneira SpaceShipOne está o engenheiro aeronáutico Burt Rutan e sua empresa, a Scaled Composites, responsável pela construção da nave. A verba para realizar o projeto saiu do bolso do empresário Paul Allen, fundador da Microsoft juntamente com Bill Gates. O vôo desta semana, na verdade, é o primeiro teste da SpaceShipOne para a disputa do Ansari X Prize, um concurso lançado em 1996 para incentivar os construtores independentes de naves espaciais. Instituído a partir de doações privadas, o concurso premiará com 10 milhões de dólares os criadores da primeira nave capaz de levar três tripulantes para fora dos limites da atmosfera e repetir a proeza num espaço de duas semanas – simulando uma rotina das futuras viagens turísticas ao espaço. Ao todo, há 26 naves de sete países na disputa, mas a SpaceShipOne, segundo os próprios concorrentes, é a que tem mais chances de ganhar. A segunda mais cotada é a Wild Fire, do time canadense Da Vinci Project. "Minha idéia é montar uma rede de resorts nos quais os turistas, enquanto se divertem, recebem treinamento para, no fim das férias, embarcar num vôo espacial de duas horas", disse a VEJA o engenheiro Brian Feeney, que comanda o Da Vinci Project. Projeções indicam que o preço de um bilhete para o espaço será inicialmente de cerca de 100.000 dólares, mas em pouco mais de vinte anos pode chegar a 7.000 dólares, 4.000 menos do que custa hoje uma passagem de ida e volta entre São Paulo e Tóquio na primeira classe.

O prêmio de 10 milhões de dólares não paga nem a metade do investimento feito por Paul Allen na construção da SpaceShipOne. Mas os milionários atualmente envolvidos na construção de naves espaciais privadas não buscam o lucro imediato. Seu objetivo é preparar o terreno para um grande negócio no futuro. Nesse processo, será fundamental alterar a estrutura e o funcionamento da Nasa. O órgão é hoje considerado um colosso da burocracia que consome verbas astronômicas com resultados modestos. Além disso, suas parcerias na área de construção de naves se restringem às gigantescas Boeing e Lockheed Martin. A cada vez que um ônibus espacial vai ao espaço, a Nasa gasta pelo menos 200 milhões de dólares. Os construtores independentes acenam com provas de que se poderia fazer o mesmo por muito menos. O governo americano, aparentemente, também está convencido disso. Há duas semanas, um relatório aprovado pelo presidente George W. Bush recomenda uma drástica reavaliação dos procedimentos adotados pela agência espacial, incluindo a possibilidade de estabelecer parcerias com os pequenos construtores de naves.

 
 
 
 
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