|
|
Tecnologia
Negócios
no espaço
A
iniciativa privada constrói suas naves
e antecipa o fim do monopólio estatal

Gustavo Poloni
Fotos divulgação
 |
ação
 |
| Protótipo
da empresa Kelly Space: içado até ganhar altura
|
Projeto
da Vanguard Spacecraft: fibra de carbono para garantir resistência
e leveza |
Se
as condições meteorológicas permitirem, nesta
segunda-feira o mundo das viagens espaciais dará um importante
passo rumo ao futuro. No início da manhã, a nave SpaceShipOne,
com um tripulante a bordo, será lançada do Deserto
de Mojave, nos Estados Unidos, percorrerá 100 quilômetros
até sair da atmosfera terrestre e iniciará sua viagem
de volta ao ponto de partida. A operação toda levará
menos de duas horas e parece ser menos emocionante ou relevante
do ponto de vista científico do que as aventuras habituais
dos astronautas. A grande diferença é que este será
o primeiro vôo ao espaço de uma nave americana patrocinada
e construída pela iniciativa privada, e não pela agência
espacial Nasa. Essa estatal, movida por um orçamento anual
de 15 bilhões de dólares, detém o monopólio
virtual das viagens espaciais nos Estados Unidos. Agora, muitos
investidores, de olho principalmente no potencial que elas apresentam
na área do turismo, começam a desafiar a supremacia
da Nasa injetando dinheiro na construção de protótipos
que, num futuro próximo, poderão levar excursionistas
em férias para passear e apreciar a Terra vista do espaço.
Fotos divulgação
 |
ação
 |
| Nave
da PanAero: queda livre antes da volta à Terra proporciona
três minutos de diversão sem a força da
gravidade |
A
canadense Da Vinci Project: os vôos como parte de pacotes
em resorts |
Por
trás da pioneira SpaceShipOne está o engenheiro aeronáutico
Burt Rutan e sua empresa, a Scaled Composites, responsável
pela construção da nave. A verba para realizar o projeto
saiu do bolso do empresário Paul Allen, fundador da Microsoft
juntamente com Bill Gates. O vôo desta semana, na verdade,
é o primeiro teste da SpaceShipOne para a disputa do Ansari
X Prize, um concurso lançado em 1996 para incentivar os construtores
independentes de naves espaciais. Instituído a partir de
doações privadas, o concurso premiará com 10
milhões de dólares os criadores da primeira nave capaz
de levar três tripulantes para fora dos limites da atmosfera
e repetir a proeza num espaço de duas semanas simulando
uma rotina das futuras viagens turísticas ao espaço.
Ao todo, há 26 naves de sete países na disputa, mas
a SpaceShipOne, segundo os próprios concorrentes, é
a que tem mais chances de ganhar. A segunda mais cotada é
a Wild Fire, do time canadense Da Vinci Project. "Minha idéia
é montar uma rede de resorts nos quais os turistas, enquanto
se divertem, recebem treinamento para, no fim das férias,
embarcar num vôo espacial de duas horas", disse a VEJA o engenheiro
Brian Feeney, que comanda o Da Vinci Project. Projeções
indicam que o preço de um bilhete para o espaço será
inicialmente de cerca de 100.000 dólares,
mas em pouco mais de vinte anos pode chegar a 7.000
dólares, 4.000 menos do que custa
hoje uma passagem de ida e volta entre São Paulo e Tóquio
na primeira classe.
O
prêmio de 10 milhões de dólares não paga
nem a metade do investimento feito por Paul Allen na construção
da SpaceShipOne. Mas os milionários atualmente envolvidos
na construção de naves espaciais privadas não
buscam o lucro imediato. Seu objetivo é preparar o terreno
para um grande negócio no futuro. Nesse processo, será
fundamental alterar a estrutura e o funcionamento da Nasa. O órgão
é hoje considerado um colosso da burocracia que consome verbas
astronômicas com resultados modestos. Além disso, suas
parcerias na área de construção de naves se
restringem às gigantescas Boeing e Lockheed Martin. A cada
vez que um ônibus espacial vai ao espaço, a Nasa gasta
pelo menos 200 milhões de dólares. Os construtores
independentes acenam com provas de que se poderia fazer o mesmo
por muito menos. O governo americano, aparentemente, também
está convencido disso. Há duas semanas, um relatório
aprovado pelo presidente George W. Bush recomenda uma drástica
reavaliação dos procedimentos adotados pela agência
espacial, incluindo a possibilidade de estabelecer parcerias com
os pequenos construtores de naves.
|