Edição 1859 . 23 de junho de 2004

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Auto-retrato
Guilherme Estrella


Selmy Yassuda


Em 1995, João Guilherme Estrella foi flagrado com 6 quilos de cocaína. Filho da elite da Zona Sul carioca, passou dois anos preso na Polícia Federal e em um manicômio judiciário. A experiência resultou em um livro, Meu Nome Não É Johnny, escrito pelo jornalista Guilherme Fiúza. Estrella, 43 anos, contou ao repórter Marcelo Carneiro como entrou e saiu do inferno das drogas.

HÁ DUAS SEMANAS, A JUSTIÇA DA INDONÉSIA CONDENOU À MORTE, POR TRÁFICO, O BRASILEIRO MARCO MOREIRA. O QUE VOCÊ ACHOU DESSA CONDENAÇÃO?
Pela nossa cultura, a pena de morte é um absurdo, mas lá, por motivos religiosos, eles tratam o tráfico de maneira dura. Como se sabe, nesses países há um risco, e ele devia ter evitado essa rota. Nunca enviei nada a países islâmicos. Mas acho que o governo brasileiro deve lutar para trazê-lo de volta.

VOCÊ TINHA UMA FAMÍLIA ESTRUTURADA E UM BOM PADRÃO DE VIDA. POR QUE VIROU TRAFICANTE?
Quando as coisas começaram a acontecer, era o fim da década de 80, e o uso de drogas era quase uma moda. Desde os 14 anos experimentava de tudo: maconha, LSD, cocaína, haxixe. Do consumo para o tráfico, foi uma mistura de aventura com imaturidade. Eu não usava arma nem fazia negócio com traficantes de favelas. Só fui encontrá-los na prisão.

E COMO FOI ESSA TEMPORADA?
Passei quatro meses na Polícia Federal. Em minha cela havia integrantes de uma facção criminosa e estrangeiros presos levando cocaína para a Europa. Tinha italiano, inglês, português, japonês, muitos africanos. Era uma selva, 25 homens juntos, em pleno verão, um calor insuportável. Ali, todo mundo era viciado. De vez em quando, saía uma pancadaria generalizada.

QUAIS AS REGRAS DE UMA CELA?
Há várias. No horário das visitas, se passar a mulher de algum preso, você tem de abaixar a cabeça e não pode estar sem camisa. É proibido também escovar os dentes ou ir ao banheiro quando alguém estiver comendo. Ofensa com palavrões é falta grave. São regras que, quando não cumpridas, podem resultar em assassinato.

E A EXPERIÊNCIA NO MANICÔMIO?
Quando cheguei, fiquei quinze dias trancado com os caras mais perigosos. Logo que entrei, um sujeito subiu em um buraco no teto e desceu com duas facas na mão. Na hora, achei que ia ser morto ali mesmo, mas ele me deu uma de presente, para me proteger. Depois, fui para uma cela com doentes crônicos, escura e imunda. Os presos não tomavam banho fazia séculos. Também conheci um sujeito que havia sido dono de uma boca-de-fumo. Ele tinha o hábito de serrar as pernas e os braços das pessoas, com elas ainda vivas, e fazer colar de orelhas. Cozinhava muito bem e me convidava para umas macarronadas. Com o tempo, você se adapta e dá uma relaxada, mas fica sempre atento.

QUAL A MAIOR LOUCURA QUE VOCÊ FEZ POR CAUSA DA DROGA?
Desembarcar no Galeão com 100.000 dólares na barriga, trazidos de Amsterdã. Recebi luz vermelha na alfândega e tive de abrir as malas. Uma delas estava cheia de apetrechos eróticos que eu havia comprado para dar de presente aos amigos. A agente federal abriu a mala e ficou envergonhada. Aquilo distraiu a atenção dela, que me deixou seguir adiante. Eu era muito inconseqüente.

E POR QUE VOCÊ PAROU DE SE DROGAR?
Às vezes passava dias só cheirando. Cheguei a ficar 120 horas direto sem dormir, cheirando, fumando cigarro e bebendo cerveja. Já estava ficando cansado. Naquele momento, a prisão foi como se eu tivesse batido em um muro. Precisava daquele muro. Foi duro, porque ficar sem liberdade é a pior coisa do mundo, mas nunca mais usei drogas.

 
 
 
 
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