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Folclore
Se
vosmecê me permite,...
...é
melhor ter Lula vestido de caipira
do que um presidente elegante com
idéias de Jeca Tatu

Mario
Sabino
Ricardo Stuckert/PR
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| Lula
e Marisa, nas bodas de trinta anos: o buquê de repolho
era bonito para chuchu |
Em
1996, o então presidente Fernando Henrique Cardoso, ao comentar
uma certa propensão nacional ao provincianismo, disse que
os brasileiros eram caipiras. Quando se observa a foto acima, fica
impossível discordar do diagnóstico de FHC. Foi num
cenário de arraial (pronuncia-se "arraiá"), complementado
por trajes caboclos, impostos também aos convidados, que
o presidente Lula e a primeira-dama Marisa festejaram os trinta
anos de casamento. Ele galantemente de noivo, com flor na lapela,
e ela charmosamente de noiva, com pintinhas pretas nas bochechas,
tranças loiras e um buquê de repolho bonito para chuchu.
Houve até uma bênção religiosa, dada
por um padre de passeata que consentiu fantasiar-se de padre de
missa. Como é de hábito no caipiríssimo Brasil,
o fato sem importância tornou-se motivo de discussão.
De um lado, alinharam-se os que torceram o nariz para o que seria
uma demonstração de pobreza cultural. Do outro, os
que viram no arraial lulista uma celebração da autenticidade
da cultura nacional.
Como
é de hábito no caipiríssimo Brasil, nenhuma
das facções estava inteiramente certa. Embora o termo
"caipira", provável corruptela de "caipora" ou "habitante
do mato", seja com freqüência associado a provincianismo,
falta de horizonte e ignorância (por exemplo, na expressão
"caipiríssimo Brasil", usada pelo autor destas linhas, e
ainda por FHC na frase de 1996), esse é um reducionismo.
O universo caipira, na verdade, é bastante rico. Trata-se
de uma cultura rústica, nascida da miscigenação
do branco com o índio, que a sociologia considera integral,
por abarcar vários aspectos de hábitos alimentares
a usanças religiosas. O seu vocabulário e concordâncias
peculiares, tidos por incultos, são um museu vivo do português
quinhentista. A cultura caipira, apropriada recentemente por festeiros
nordestinos, tem como berço o interior de São Paulo
e se espalha por um pedaço de Minas Gerais e Goiás.
É objeto de teses, como Os Parceiros do Rio Bonito,
de Antonio Candido, e ecoa na poesia de uma autora como Adélia
Prado.
Há
riqueza na caipirice, mas não originalidade absoluta. Pegue-se
o caso da quadrilha, a dança que anima as festas juninas.
Ela está longe de ser uma invenção de algum
cariboca sestroso. Criada na Inglaterra, entre os séculos
XIII e XIV, foi aperfeiçoada por nobres franceses e, no século
XIX, introduzida no Brasil pela corte de dom João VI. O povão
adorou a moda, que ganhou os grotões nacionais. Os termos
franceses da quadrilha, cujos movimentos obedecem a comandos, foram
"caipirizados" "balancer" virou "balancê", "en avant"
transmutou-se em "anavan", e assim por diante.
Nem
tão pobres culturalmente, nem tão autênticos.
Como encarar, então, a festa caipira de Lula e Marisa? Talvez
como um sintoma do que o ensaísta José Paulo Paes
chamava de "síndrome pastoril" uma saudade do campo
que os brasileiros, alvos de um tão violento quanto recente
processo de urbanização, gostam de extravasar vez
por outra. Deixemos, pois, Lula vestir-se de caipira. É melhor
do que ter um presidente sempre "chique no úrtimo", mas com
idéias de Jeca Tatu como declarar moratória,
controlar preços, fazer reserva de mercado ou implantar o
socialismo.
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