Edição 1859 . 23 de junho de 2004

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Folclore
Se vosmecê me permite,...

...é melhor ter Lula vestido de caipira
do que um presidente elegante com
idéias de Jeca Tatu


Mario Sabino


Ricardo Stuckert/PR
Lula e Marisa, nas bodas de trinta anos: o buquê de repolho era bonito para chuchu

Em 1996, o então presidente Fernando Henrique Cardoso, ao comentar uma certa propensão nacional ao provincianismo, disse que os brasileiros eram caipiras. Quando se observa a foto acima, fica impossível discordar do diagnóstico de FHC. Foi num cenário de arraial (pronuncia-se "arraiá"), complementado por trajes caboclos, impostos também aos convidados, que o presidente Lula e a primeira-dama Marisa festejaram os trinta anos de casamento. Ele galantemente de noivo, com flor na lapela, e ela charmosamente de noiva, com pintinhas pretas nas bochechas, tranças loiras e um buquê de repolho bonito para chuchu. Houve até uma bênção religiosa, dada por um padre de passeata que consentiu fantasiar-se de padre de missa. Como é de hábito no caipiríssimo Brasil, o fato sem importância tornou-se motivo de discussão. De um lado, alinharam-se os que torceram o nariz para o que seria uma demonstração de pobreza cultural. Do outro, os que viram no arraial lulista uma celebração da autenticidade da cultura nacional.

Como é de hábito no caipiríssimo Brasil, nenhuma das facções estava inteiramente certa. Embora o termo "caipira", provável corruptela de "caipora" ou "habitante do mato", seja com freqüência associado a provincianismo, falta de horizonte e ignorância (por exemplo, na expressão "caipiríssimo Brasil", usada pelo autor destas linhas, e ainda por FHC na frase de 1996), esse é um reducionismo. O universo caipira, na verdade, é bastante rico. Trata-se de uma cultura rústica, nascida da miscigenação do branco com o índio, que a sociologia considera integral, por abarcar vários aspectos – de hábitos alimentares a usanças religiosas. O seu vocabulário e concordâncias peculiares, tidos por incultos, são um museu vivo do português quinhentista. A cultura caipira, apropriada recentemente por festeiros nordestinos, tem como berço o interior de São Paulo e se espalha por um pedaço de Minas Gerais e Goiás. É objeto de teses, como Os Parceiros do Rio Bonito, de Antonio Candido, e ecoa na poesia de uma autora como Adélia Prado.

Há riqueza na caipirice, mas não originalidade absoluta. Pegue-se o caso da quadrilha, a dança que anima as festas juninas. Ela está longe de ser uma invenção de algum cariboca sestroso. Criada na Inglaterra, entre os séculos XIII e XIV, foi aperfeiçoada por nobres franceses e, no século XIX, introduzida no Brasil pela corte de dom João VI. O povão adorou a moda, que ganhou os grotões nacionais. Os termos franceses da quadrilha, cujos movimentos obedecem a comandos, foram "caipirizados" – "balancer" virou "balancê", "en avant" transmutou-se em "anavan", e assim por diante.

Nem tão pobres culturalmente, nem tão autênticos. Como encarar, então, a festa caipira de Lula e Marisa? Talvez como um sintoma do que o ensaísta José Paulo Paes chamava de "síndrome pastoril" – uma saudade do campo que os brasileiros, alvos de um tão violento quanto recente processo de urbanização, gostam de extravasar vez por outra. Deixemos, pois, Lula vestir-se de caipira. É melhor do que ter um presidente sempre "chique no úrtimo", mas com idéias de Jeca Tatu – como declarar moratória, controlar preços, fazer reserva de mercado ou implantar o socialismo.

 
 
 
 
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