Edição 1859 . 23 de junho de 2004

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Riqueza
Para que servem os milionários

Nas economias avançadas, a vigilância social
é feita sobre como os muito ricos gastam sua
fortuna. A quantidade deles interessa pouco


Marcelo Carneiro



Reuters
Bill Gates e sua mulher, Melinda: eles já doaram 23 bilhões de dólares a projetos sociais

O banco de investimentos Merrill Lynch divulgou na semana passada um estudo sobre a riqueza no mundo. O levantamento traça o perfil dos indivíduos que chegaram ao topo da pirâmide financeira. São pessoas que têm pelo menos 1 milhão de dólares investidos no mercado. Pelos dados, 500.000 novos milionários entraram para esse clube no ano passado, a maior parte nos Estados Unidos e em países asiáticos. O Brasil contribuiu com um crescimento de 6% no número de milionários – mais 5.000 felizardos. Aqui, porém, o estudo foi recebido como uma prova do recrudescimento da concentração de renda e da desigualdade social. Afinal, se em 2003 o país enfrentava uma recessão e mesmo assim 5.000 pessoas se tornaram milionárias, isso é uma evidência de má distribuição da renda. Simples, não? Nem um pouco. A questão é mais complexa do que deram a entender algumas análises apressadas. Avaliar a distribuição de renda com base numa pesquisa sobre os investimentos dos ricos fornece um retrato pouco nítido da questão. Perde-se, ainda, a chance de aprender uma lição importante sobre a fortuna: afinal, para que serve o dinheiro dos milionários?

O estudo da Merrill Lynch lista a riqueza investida no sistema financeiro, como fundos ou bolsas de valores. Ficam de fora propriedades ou carros de luxo. Ao todo, há no mundo 7,7 milhões de abonados, que são donos de uma montanha de 28,8 trilhões de dólares. Desse montante, os milionários brasileiros, que somam 80.000 pessoas, possuem 1,75 trilhão de dólares. Mas o fato de esse grupo ter feito fortuna não tem relação com o agravamento do fosso que separa ricos e pobres. "Essa não é a proposta do estudo. No caso brasileiro, o levantamento mostra que o país está em condições econômicas mais favoráveis que as de outros, como México e Argentina", disse a VEJA Andres De Corral, vice-presidente da Merrill Lynch para a América Latina. Os números indicam que, de 2002 para 2003, a turma brasileira do milhão cresceu de 75.000 para 80.000 integrantes. Só que, em 2000, havia 83.000 brasileiros nesse clube. Não ocorre a ninguém afirmar que o fato de termos no ano passado menos milionários do que em 2000 signifique diminuição na concentração de renda. Mas houve quem enxergasse no crescimento registrado agora um exemplo de má distribuição.

Na verdade, o Brasil ter um número maior de pessoas investindo no mercado financeiro é um sinal de dinamismo e de aumento de liquidez na economia. Antigamente, comprar imóveis era o único caminho seguro para o aumento de patrimônio. Hoje, cerca de 35% do dinheiro desses milionários migrou para investimentos em ações de empresas – e o mercado acionário é uma das peças mais poderosas que giram as engrenagens da economia. Ao longo dos séculos, o processo de acumulação de capital modernizou-se na mesma medida em que os gastos dos milionários também se tornaram diversificados. Em países de economia avançada, como os Estados Unidos, a pressão maior é exercida não no controle do número de milionários mas na maneira como eles gastam sua fortuna. Boa parte dos endinheirados americanos doa montanhas de dinheiro. Neste ano, um ranking elaborado pela revista Business Week mostrou que, em 2002, as doações dos americanos alcançaram 240 bilhões de dólares. No topo dessa lista está o homem mais rico do planeta, Bill Gates. Ele e sua esposa, Melinda, já doaram quase 23 bilhões de dólares a projetos de saúde e educação, a maior parte em países do Terceiro Mundo. É esse controle social da riqueza que deve ser feito no Brasil. Primeiro, porque é justo. Depois, porque funciona.

 
 
 
 
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