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Riqueza
Para
que servem os milionários
Nas
economias avançadas, a vigilância social
é feita sobre como os muito ricos gastam sua
fortuna. A quantidade deles interessa pouco

Marcelo Carneiro
Reuters
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| Bill
Gates e sua mulher, Melinda: eles já doaram 23 bilhões
de dólares a projetos sociais |
O banco
de investimentos Merrill Lynch divulgou na semana passada um estudo
sobre a riqueza no mundo. O levantamento traça o perfil dos
indivíduos que chegaram ao topo da pirâmide financeira.
São pessoas que têm pelo menos 1 milhão de dólares
investidos no mercado. Pelos dados, 500.000
novos milionários entraram para esse clube no ano passado,
a maior parte nos Estados Unidos e em países asiáticos.
O Brasil contribuiu com um crescimento de 6% no número de
milionários mais 5.000
felizardos. Aqui, porém, o estudo foi recebido como uma prova
do recrudescimento da concentração de renda e da desigualdade
social. Afinal, se em 2003 o país enfrentava uma recessão
e mesmo assim 5.000 pessoas se tornaram
milionárias, isso é uma evidência de má
distribuição da renda. Simples, não? Nem um
pouco. A questão é mais complexa do que deram a entender
algumas análises apressadas. Avaliar a distribuição
de renda com base numa pesquisa sobre os investimentos dos ricos
fornece um retrato pouco nítido da questão. Perde-se,
ainda, a chance de aprender uma lição importante sobre
a fortuna: afinal, para que serve o dinheiro dos milionários?
O
estudo da Merrill Lynch lista a riqueza investida no sistema financeiro,
como fundos ou bolsas de valores. Ficam de fora propriedades ou
carros de luxo. Ao todo, há no mundo 7,7 milhões de
abonados, que são donos de uma montanha de 28,8 trilhões
de dólares. Desse montante, os milionários brasileiros,
que somam 80.000 pessoas, possuem 1,75
trilhão de dólares. Mas o fato de esse grupo ter feito
fortuna não tem relação com o agravamento do
fosso que separa ricos e pobres. "Essa não é a proposta
do estudo. No caso brasileiro, o levantamento mostra que o país
está em condições econômicas mais favoráveis
que as de outros, como México e Argentina", disse a VEJA
Andres De Corral, vice-presidente da Merrill Lynch para a América
Latina. Os números indicam que, de 2002 para 2003, a turma
brasileira do milhão cresceu de 75.000
para 80.000 integrantes. Só que,
em 2000, havia 83.000 brasileiros nesse
clube. Não ocorre a ninguém afirmar que o fato de
termos no ano passado menos milionários do que em 2000 signifique
diminuição na concentração de renda.
Mas houve quem enxergasse no crescimento registrado agora um exemplo
de má distribuição.
Na
verdade, o Brasil ter um número maior de pessoas investindo
no mercado financeiro é um sinal de dinamismo e de aumento
de liquidez na economia. Antigamente, comprar imóveis era
o único caminho seguro para o aumento de patrimônio.
Hoje, cerca de 35% do dinheiro desses milionários migrou
para investimentos em ações de empresas e o
mercado acionário é uma das peças mais poderosas
que giram as engrenagens da economia. Ao longo dos séculos,
o processo de acumulação de capital modernizou-se
na mesma medida em que os gastos dos milionários também
se tornaram diversificados. Em países de economia avançada,
como os Estados Unidos, a pressão maior é exercida
não no controle do número de milionários mas
na maneira como eles gastam sua fortuna. Boa parte dos endinheirados
americanos doa montanhas de dinheiro. Neste ano, um ranking elaborado
pela revista Business Week mostrou que, em 2002, as doações
dos americanos alcançaram 240 bilhões de dólares.
No topo dessa lista está o homem mais rico do planeta, Bill
Gates. Ele e sua esposa, Melinda, já doaram quase 23 bilhões
de dólares a projetos de saúde e educação,
a maior parte em países do Terceiro Mundo. É esse
controle social da riqueza que deve ser feito no Brasil. Primeiro,
porque é justo. Depois, porque funciona.
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