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Desenvolvimento
O plano blablablá
Ao pedir um novo Plano Marshall,
Lula aumenta a lista de suas
propostas inexeqüíveis

Chrystiane Silva
Sebastião Moreira/AE
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| Lula na abertura da Unctad, em São Paulo:
acerto no diagnóstico, mas erro na receita |
Desde os tempos de oposição,
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sempre privilegiou
as questões sociais em seus discursos. Em cima de carros
de som, em frente a portões de fábrica e em palanques
montados em praças em época de eleições,
as referências às injustiças eram uma constante.
Depois que assumiu a Presidência, Lula não mudou. Mas
já deveria ter percebido que o que fala agora tem outro peso.
Idéias estapafúrdias, por mais bem-intencionadas que
sejam, podem render aplausos ao candidato, mas não passam
mais em branco quando quem as transmite é o chefe do governo.
Em menos de dois anos, Lula já propôs a criação
de uma CPMF mundial e a taxação da venda de armas
planos de execução complicada e resultados
duvidosos. Na abertura da XI Conferência das Nações
Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), em São
Paulo, na semana passada, Lula voltou à carga. Falando sobre
a pobreza no mundo, defendeu a criação de uma nova
versão do Plano Marshall, o projeto de reconstrução
da Europa arrasada pela II Guerra Mundial com financiamento americano
equivalente a 150 bilhões de dólares em valores de
hoje.
O programa de recuperação européia,
apresentado em 1947 pelo secretário de Estado americano George
Marshall, era muito mais simples do que requer um plano de ajuda
aos países pobres hoje. Alemanha, Inglaterra e França
estavam devastadas, mas já eram potências industriais.
Tinham cientistas, know-how, mão-de-obra especializada e
uma história baseada em instituições. A idéia
de que os EUA despejaram um caminhão de dinheiro na Europa
é equivocada. Alguns exemplos de como os recursos foram empregados:
16,8 milhões de dólares foram gastos com subsídios
ao frete de encomendas destinadas à Europa.
Um novo cais no porto de Bornéu foi criado para escoar
a exportação de borracha para a Inglaterra.
Verbas foram destinadas à indústria de aviões
francesa, para a compra de hélices.
Foi, portanto, um empurrão em quem
já sabia correr. Em 1948, 51% dos americanos não sabiam
o que era o Plano Marshall. O governo precisou lançar uma
campanha de divulgação e usar o medo do avanço
comunista para vê-lo aprovado no Congresso. "A analogia com
o Plano Marshall é inadequada. Já não há
fatos políticos que mobilizem o Congresso e os eleitores
para ajudas semelhantes", diz o americano Christopher Garman, cientista
político da Tendências Consultoria.
O que fez com que os europeus se recuperassem
foi o livre mercado, com a redução da inflação
e o fim do controle de preços. Mais do que alavancar o progresso
com os dólares dos contribuintes americanos, que não
eram suficientes para a reconstrução total, o Plano
Marshall serviu como uma demonstração de confiança.
Além disso, poucos países hoje aceitariam a contrapartida
pedida pelos americanos para financiar a reconstrução
da Europa. Não havia barreiras à entrada de companhias
nem de produtos americanos nos países beneficiados. Ao fim
dos quatro anos de plano, setores inteiros da economia européia,
como o de refinamento de petróleo, o de calçados e
o automobilístico, eram dominados por companhias americanas.
A fórmula defendida por Lula já
se mostrou ineficaz. Para países que estão no meio
do ranking do desenvolvimento, como o Brasil, o caminho mais rápido
para a prosperidade é acabar com obstáculos internos.
A diminuição da burocracia e da informalidade, o combate
à corrupção e a maior eficiência do gasto
público dependem apenas do governo brasileiro. Entre 1997
e 2002, os países do G-7 gastaram 234 bilhões de dólares
em ajuda internacional. Os resultados foram pífios. Foi-se
o tempo de transferências das nações ricas para
as pobres sem parcerias com empresas nem instrumentos eficazes de
medição dos resultados. A Tanzânia, no sudeste
da África, é um exemplo do que não fazer. Desde
a década de 60, recebeu mais de 20 bilhões de dólares
em ajuda humanitária, cifra duas vezes maior do que o PIB
local. Mesmo assim, a renda per capita é de 207 dólares,
igual à do Brasil no início do século XIX.
Se, por um lado, Lula erra na receita, por
outro, acerta no diagnóstico. Ao todo, 33.000 crianças
morrem por dia nos países em desenvolvimento. Não
há dúvida, portanto, da urgência e da gravidade
do problema. Exatamente por isso, não será resolvido
com soluções aparentemente louváveis, mas ocas.
O Plano Marshall de Lula é um projeto natimorto. Assim como
o foram a criação da CPMF mundial e a taxação
da venda de armas.
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