Edição 1859 . 23 de junho de 2004

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Desenvolvimento
O plano blablablá

Ao pedir um novo Plano Marshall,
Lula aumenta a lista de suas
propostas inexeqüíveis


Chrystiane Silva

 
Sebastião Moreira/AE
Lula na abertura da Unctad, em São Paulo: acerto no diagnóstico, mas erro na receita

Desde os tempos de oposição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sempre privilegiou as questões sociais em seus discursos. Em cima de carros de som, em frente a portões de fábrica e em palanques montados em praças em época de eleições, as referências às injustiças eram uma constante. Depois que assumiu a Presidência, Lula não mudou. Mas já deveria ter percebido que o que fala agora tem outro peso. Idéias estapafúrdias, por mais bem-intencionadas que sejam, podem render aplausos ao candidato, mas não passam mais em branco quando quem as transmite é o chefe do governo. Em menos de dois anos, Lula já propôs a criação de uma CPMF mundial e a taxação da venda de armas – planos de execução complicada e resultados duvidosos. Na abertura da XI Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), em São Paulo, na semana passada, Lula voltou à carga. Falando sobre a pobreza no mundo, defendeu a criação de uma nova versão do Plano Marshall, o projeto de reconstrução da Europa arrasada pela II Guerra Mundial com financiamento americano equivalente a 150 bilhões de dólares em valores de hoje.

O programa de recuperação européia, apresentado em 1947 pelo secretário de Estado americano George Marshall, era muito mais simples do que requer um plano de ajuda aos países pobres hoje. Alemanha, Inglaterra e França estavam devastadas, mas já eram potências industriais. Tinham cientistas, know-how, mão-de-obra especializada e uma história baseada em instituições. A idéia de que os EUA despejaram um caminhão de dinheiro na Europa é equivocada. Alguns exemplos de como os recursos foram empregados:

16,8 milhões de dólares foram gastos com subsídios ao frete de encomendas destinadas à Europa.

Um novo cais no porto de Bornéu foi criado para escoar a exportação de borracha para a Inglaterra.

Verbas foram destinadas à indústria de aviões francesa, para a compra de hélices.

Foi, portanto, um empurrão em quem já sabia correr. Em 1948, 51% dos americanos não sabiam o que era o Plano Marshall. O governo precisou lançar uma campanha de divulgação e usar o medo do avanço comunista para vê-lo aprovado no Congresso. "A analogia com o Plano Marshall é inadequada. Já não há fatos políticos que mobilizem o Congresso e os eleitores para ajudas semelhantes", diz o americano Christopher Garman, cientista político da Tendências Consultoria.

O que fez com que os europeus se recuperassem foi o livre mercado, com a redução da inflação e o fim do controle de preços. Mais do que alavancar o progresso com os dólares dos contribuintes americanos, que não eram suficientes para a reconstrução total, o Plano Marshall serviu como uma demonstração de confiança. Além disso, poucos países hoje aceitariam a contrapartida pedida pelos americanos para financiar a reconstrução da Europa. Não havia barreiras à entrada de companhias nem de produtos americanos nos países beneficiados. Ao fim dos quatro anos de plano, setores inteiros da economia européia, como o de refinamento de petróleo, o de calçados e o automobilístico, eram dominados por companhias americanas.

A fórmula defendida por Lula já se mostrou ineficaz. Para países que estão no meio do ranking do desenvolvimento, como o Brasil, o caminho mais rápido para a prosperidade é acabar com obstáculos internos. A diminuição da burocracia e da informalidade, o combate à corrupção e a maior eficiência do gasto público dependem apenas do governo brasileiro. Entre 1997 e 2002, os países do G-7 gastaram 234 bilhões de dólares em ajuda internacional. Os resultados foram pífios. Foi-se o tempo de transferências das nações ricas para as pobres sem parcerias com empresas nem instrumentos eficazes de medição dos resultados. A Tanzânia, no sudeste da África, é um exemplo do que não fazer. Desde a década de 60, recebeu mais de 20 bilhões de dólares em ajuda humanitária, cifra duas vezes maior do que o PIB local. Mesmo assim, a renda per capita é de 207 dólares, igual à do Brasil no início do século XIX.

Se, por um lado, Lula erra na receita, por outro, acerta no diagnóstico. Ao todo, 33.000 crianças morrem por dia nos países em desenvolvimento. Não há dúvida, portanto, da urgência e da gravidade do problema. Exatamente por isso, não será resolvido com soluções aparentemente louváveis, mas ocas. O Plano Marshall de Lula é um projeto natimorto. Assim como o foram a criação da CPMF mundial e a taxação da venda de armas.

 

 

 
 
 
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