Edição 1859 . 23 de junho de 2004

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Governo
Intrigas da Corte

No palácio, dois ministros travam
brigas terríveis, um espião anda à solta
e uma derrota convence Lula a mudar.
Mas não agora...


Otávio Cabral e Policarpo Junior

 
Montagem com ilustração de Attilio e fotos de Joedson Alves/AE, Radiobras/divulgação, Monica Zarattini/AE, Ana Araujo e Dida Sampaio/AE
AS COBRAS
O presidente Lula e seus principais ministros: o núcleo central do governo já foi apelidado de serpentário de Brasília


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Na terça-feira passada, o ministro Aldo Rebelo, comunista da velha guarda, dono de gestos lentos e voz suave, irrompeu no gabinete de seu colega José Dirceu, ministro da Casa Civil. Era de manhã. Aldo Rebelo estava irritadíssimo desde que lera uma reportagem de VEJA, publicada na edição passada, na qual se informava que dois jornalistas que trabalham no 4º andar do Palácio do Planalto estavam sob suspeita de espionar o próprio governo. O espião estaria abastecendo dois arapongas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) com informações sobre o ministro José Dirceu e a prefeita Marta Suplicy, de São Paulo. Aldo Rebelo entendeu que a denúncia tinha o dedo de José Dirceu, um ministro conhecido por ser frio como um pingüim e, ao mesmo tempo, explosivo como um calabrês. Aldo Rebelo foi então ao gabinete de Dirceu para passar a limpo sua suspeita e tirar satisfações. Deu-se, aí, uma das cenas mais grotescas do atual governo: enfurecidos um com o outro, os dois ministros deram murros na mesa, trocaram palavrões impublicáveis aos berros e nunca mais se falaram.

De início, Rebelo perguntou a Dirceu se ele estava por trás das denúncias. Dirceu ficou irritado com a suspeita, disse que não tinha nenhuma relação com o caso, que costumava trabalhar em equipe e que não tinha nenhum interesse em desestabilizar o governo. Rebelo não ficou satisfeito e insistiu na suspeita, dizendo que enxergava as "digitais" de seu colega no caso. Dirceu, então, explodiu. Aos gritos, afirmou que Rebelo, em vez de alimentar especulações estapafúrdias, deveria estar preocupado em aprovar a proposta do governo para o novo salário mínimo – que, dois dias depois, sofreria uma derrota acachapante no Senado. Rebelo reagiu, também levantou a voz e declarou que, como coordenador político do governo, sua missão de aprovar as propostas do governo no Congresso Nacional seria muito mais fácil se Dirceu não ficasse empenhado em conspirar contra ele. Foi a gota d'água. Daí em diante, os dois deram murros na mesa, trocaram xingamentos de botequim, mas não chegaram às cenas de pugilato. O embate foi relatado a VEJA por quatro interlocutores dos ministros – dois de cada lado.

Dida Sampaio/AE
ALIADO DO EX
Sarney, presidente do Senado: torcendo pela volta de Dirceu ao comando político


Nada do que aconteceu em Brasília na semana passada é uma novidade no poder. Desde a volta da democracia, em 1985, apenas para delimitar um tempo histórico, todos os governos brasileiros sofreram episódios de espionagem. Até os presidentes da República passaram pelo constrangimento de ler nos jornais seus próprios diálogos telefônicos sorrateiramente grampeados. Houve casos estonteantes, como a descoberta de que um dos principais assessores do presidente Fernando Henrique fazia lobby em favor de uma multinacional americana. E também casos patéticos, como o de agora, cujos contornos são tão chinfrins que a espionagem caberia melhor numa das comédias do atrapalhado inspetor Jacques Clouseau – hipótese em que o jornalista suspeito do Palácio do Planalto ficaria perfeito no figurino de Kato, o ajudante asiático do inspetor endiabrado. Afinal, existe uma dupla de suspeitos há dois meses e, em dois meses, nada se conseguiu avançar. Além disso, o suspeito recebe 2.500 reais, uma bagatela por esse tipo de serviço, donde se concluiu que o tal informante não tem informação preciosa.

Apesar dos ares cabriolantes, o episódio embute uma gravidade da qual é bom não se afastar: alguém espionou alguém no Palácio do Planalto e, no curso dessa investigação clandestina, chegou a quebrar-lhe o sigilo bancário, descobrindo as dívidas de um dos suspeitos, seus cheques sem fundo e seus débitos telefônicos. Na semana passada, em razão desse detalhe, o clima entre os funcionários do Palácio do Planalto era um misto de receio e perplexidade. "Estamos com medo de usar o telefone e até de mandar um e-mail. Sabe-se lá quem pode estar investigando quem", diz um funcionário que trabalha no 3º andar do palácio, o mesmo onde fica o gabinete do presidente Lula. A investigação sorrateira, e talvez esse seja o aspecto mais grave, estava sendo centralizada pela Casa Civil, um ministério que não tem mandato, autoridade nem legitimidade para bisbilhotar a vida de quem quer que seja. Diante disso, é lícito indagar: será que a Casa Civil tem meios de arapongar a vida de qualquer pessoa, mesmo que não seja funcionário do Palácio do Planalto?

Na terça-feira passada, o presidente Lula reuniu-se com o general Jorge Armando Felix, chefe do Gabinete de Segurança Institucional e responsável pela Abin. Na conversa, o presidente considerou que o caso era grave e pediu uma investigação oficial. Na própria terça, o general abriu uma sindicância para esclarecer se dois agentes da Abin realmente estiveram envolvidos na espionagem. Os agentes Ceílson Ludolf Ribeiro e João Carlos Sanches, de acordo com a versão que chegou à Casa Civil há mais de dois meses, recebiam as informações do jornalista-espião e repassavam-nas aos adversários políticos do ministro José Dirceu e da prefeita Marta Suplicy em viagens de fim de semana a São Paulo. Na semana passada, os dois agentes enviaram uma carta a VEJA em que negam qualquer participação no episódio. Sanches acrescenta que nos últimos doze meses esteve nove vezes em São Paulo, mas explica que as viagens freqüentes se devem ao fato de ter familiares na capital e no interior. Ribeiro, por sua vez, afirma que viajou para São Paulo só duas vezes neste ano, sempre a serviço da Abin.

 
Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
DERROTA À VISTA
Os senadores se preparam para votar o novo valor do salário mínimo: uma derrota acachapante para o governo, que tentará se recuperar na Câmara

Tal como a espionagem que afeta todos os governos, a intriga palaciana também sempre vem junto com o poder – seja nos palácios da Roma Antiga, seja na Casa Branca de George W. Bush. O que provoca espanto no Palácio do Planalto de Lula é que tudo virou intriga, e a intriga saiu dos bastidores para ganhar a ribalta. A denúncia de espionagem, como não poderia deixar de ser, também entrou para o rol das intrigas que opõem José Dirceu e Aldo Rebelo, embora o caso não tenha nada a ver com isso. A hipótese mais sólida para o caso da espionagem refere-se a uma disputa de poder dentro da Abin. Uma ala de espiões mais antigos, dos tempos do SNI, serviço de arapongagem da ditadura, estaria lutando para se manter nos postos mais altos da agência de inteligência no governo petista. Para tanto, os velhos espiões teriam lançado mão da antiga tática de espionar autoridades e, com sorte, descobrir algo que permitisse chantageá-las. Os velhos espiões ficaram mais ouriçados depois que o governo decidiu mudar o comando da Abin, trocando Marisa Del'Isola pelo delegado Mauro Marcelo Lima e Silva, que foi convidado pelo próprio presidente Lula.

A disputa entre José Dirceu e Aldo Rebelo esbarrou no caso da arapongagem por delírio e desinformação, mas a briga entre os dois é real, dura, sangrenta e não será encerrada sem mortos e feridos. Na semana passada, depois que o Senado derrotou o governo, rejeitando um salário mínimo de 260 reais e aprovando um de 275, o presidente Lula tomou a decisão de mexer na coordenação política, mas não quer alterar nada antes das eleições municipais. Na terça-feira, dia em que Rebelo e Dirceu quase se esbofetearam no palácio, o presidente reuniu-se com eles, em conversas separadas, e pediu-lhes "jogo de equipe" para derrotar a oposição no Senado. Nas conversas, mais uma vez, ficou clara a animosidade entre os dois ministros. Dirceu criticou a estratégia de Rebelo para conquistar votos no PFL e no PSDB a favor da proposta de 260 reais. Rebelo, por sua vez, reclamou para o presidente que a cúpula do PT estava fazendo de tudo para derrubá-lo do cargo de coordenador político e entregá-lo novamente a José Dirceu. Lula percebeu que a rivalidade não permitiria o jogo de equipe e resolveu, ele próprio, por telefone, cabalar votos no Senado e convocar a ajuda de governadores. Mas foi em vão.

A derrota no Senado incomodou Lula, que, num desabafo, disse a um interlocutor que o serpentário está tão venenoso que não ficaria surpreso se o governo sofresse novas derrotas no Senado. Logo depois do desabafo, levando em conta que a proposta do mínimo de 275 reais tem de voltar para a Câmara dos Deputados, Lula procurou o deputado João Paulo Cunha, presidente da instituição, para organizar a votação da proposta. Lula quer que os 260 reais voltem a vigorar na Câmara, mas com uma votação superior à que teve no início de junho. Na ocasião, os deputados aprovaram a proposta do governo por 266 votos a 167. Agora, Lula quer um placar ainda mais folgado, para dar demonstração de força do governo. Na Câmara, o governo tem uma maioria bastante confortável. No Senado, porém, nunca foi forte, mas o racha entre Dirceu e Rebelo enfraqueceu-o ainda mais. O presidente do Senado, José Sarney, força respeitável na casa, sopra o vento a favor de José Dirceu, para ajudá-lo a retomar o controle da coordenação política. O senador Renan Calheiros faz o que pode por Rebelo.

 
Dida Sampaio/AE
Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
A NOVA CARA DA ABIN
O general Jorge Armando Felix (à esq.) e o delegado Mauro Marcelo, que vai substituir Marisa Del'Isola (à dir.) na direção da Abin: arapongas sob investigação

As intrigas palacianas costumam produzir estilhaços afiadíssimos porque misturam dois ingredientes explosivos: a sede pelo poder, que pode desdobrar-se nas mais vis conspirações, traições, rasteiras e golpes, e a vaidade humana, que pode materializar-se na forma de cobiça, inveja, despeito, ciúme – enfim, sentimentos que enfeitiçam a alma humana. A briga do momento chama atenção porque incorpora esses ingredientes numa altíssima voltagem. Pelo que brigam José Dirceu e Aldo Rebelo? Eles não disputam uma nova orientação de governo, nem divergem em relação a um projeto de nação ou qualquer outro tema de grande relevância. Aparentemente, os dois disputam o poder pelo poder, apenas isso. Mais de uma vez, Rebelo já reclamou ao presidente que a Casa Civil jamais lhe passou o mapa real dos cargos dos aliados do governo. A lista que Dirceu liberou diz apenas que fulano ocupa tal cargo, mas não informa qual o político que apadrinhou o fulano – informação sem a qual a lista dos cargos é tão inútil quanto um bilhete velho de loteria. Hoje, o responsável por esse balcão é Fredo Ebling, cujas mãos, no entanto, estão amarradas. A única diferença profunda entre eles é de estilo. José Dirceu é pragmático. Quando fazia oficialmente a coordenação política, atuava junto aos que têm voto e decidem, como a senadora Roseana Sarney, no PFL, e o senador Tasso Jereissati, no PSDB. Já Aldo Rebelo é diplomático. Para ganhar votos, costuma atuar junto ao presidente do partido ou ao líder do partido, que nem sempre são as vozes mais influentes e decisivas de uma sigla.

Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
DE VOLTA
João Paulo, presidente da Câmara: Lula quer votação consagradora a favor dos 260 reais


É raro, raríssimo, encontrar uma equipe que assuma o poder unida e permaneça assim por longo tempo. Desde Getúlio Vargas, o país assiste a uma cena que se repete governo após governo: os vencedores chegam ao palácio de mãos dadas, sob a euforia unificadora de ter derrotado o adversário comum, e se tratam como irmãos. O clima de fraternidade, porém, não resiste aos primeiros seis meses de governo. Não se tem notícia de um governo, de Getúlio Vargas aos dias de hoje, que tenha ultrapassado esse prazo. Depois disso, a cizânia costuma semear rivalidades que se tornam mais ferinas do que as que havia em relação ao adversário derrotado nas urnas. O ministro José Dirceu, por exemplo, nunca fez uma oposição tão vituperiosa contra os tucanos como a que move contra Aldo Rebelo, um representante do PC do B e aliado de primeira hora das candidaturas presidenciais de Lula. Só Frei Betto, o ingênuo amigo, assessor e conselheiro espiritual do presidente, achou que, por ser um governo formado por companheiros históricos, o nível de intriga no palácio petista seria menor que nos governos anteriores. Frei Betto escreveu isso num artigo. No ano passado, claro.

Apesar das evidências assombrosas de que a cúpula do governo vive num mundo de intrigas, de que há funcionário sendo espionado no palácio, de que dois ministros travam uma briga devastadora e de que o governo estraçalhou sua coordenação política, Aldo Rebelo e José Dirceu, em entrevista a VEJA na semana passada, deram as seguintes declarações:

José Dirceu – Não há conflito nenhum entre mim e o ministro Aldo. Nossa relação é normal. Somos amigos. Saímos várias vezes juntos, vamos a jantares, com nossas mulheres, ao cinema... Nós estamos num mundo da carochinha. Eu trabalhei com Aldo o tempo todo nestes últimos dias.

Veja – E o caso do espião?
José Dirceu – Não sei nada sobre isso. Se aconteceu, a Casa Civil não tem nada a ver com isso.

Veja – E a briga com Aldo Rebelo na terça-feira?
José Dirceu – Isso nunca aconteceu. Eu e o ministro Aldo só tratamos nesta semana da votação do mínimo. O trabalho de articulação política do governo está excelente.

Veja – Então por que o governo perdeu no Senado?
José Dirceu – Circunstâncias do momento.

O ministro Aldo Rebelo também falou a VEJA. Disse que seu relacionamento com José Dirceu é "ótimo" e nega qualquer atrito entre ambos. "Trabalhamos juntos todos os dias desta semana, um colaborando com o outro", diz o ministro. E, quanto às pressões da cúpula do PT para defenestrá-lo do cargo, Aldo Rebelo diz que nunca ouviu falar do assunto. "Não acredito em pressão e não sinto nenhuma pressão. Além disso, o presidente já desmentiu oficialmente qualquer mudança no ministério", afirma ele. Parece um clima de convento, não? Ouça-se o que diz um ministro nordestino que compara a briga dos dois às disputas comuns no sertão: "Eles amarraram as camisas, agora nenhum pode mais correr. Cada um tem uma peixeira na mão e só dá para deixar a briga morto".

 
 
 
 
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