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Governo
Intrigas da Corte
No palácio, dois ministros travam
brigas terríveis, um espião anda à solta
e uma derrota convence Lula a mudar.
Mas não agora...

Otávio Cabral e Policarpo Junior
Montagem com ilustração
de Attilio e fotos de Joedson Alves/AE, Radiobras/divulgação,
Monica Zarattini/AE, Ana Araujo e Dida Sampaio/AE
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AS COBRAS
O presidente Lula e seus principais ministros:
o núcleo central do governo já foi apelidado de serpentário
de Brasília |
Na terça-feira passada, o ministro Aldo
Rebelo, comunista da velha guarda, dono de gestos lentos e voz suave,
irrompeu no gabinete de seu colega José Dirceu, ministro
da Casa Civil. Era de manhã. Aldo Rebelo estava irritadíssimo
desde que lera uma reportagem de VEJA, publicada na edição
passada, na qual se informava que dois jornalistas que trabalham
no 4º andar do Palácio do Planalto estavam sob suspeita
de espionar o próprio governo. O espião estaria abastecendo
dois arapongas da Agência Brasileira de Inteligência
(Abin) com informações sobre o ministro José
Dirceu e a prefeita Marta Suplicy, de São Paulo. Aldo Rebelo
entendeu que a denúncia tinha o dedo de José Dirceu,
um ministro conhecido por ser frio como um pingüim e, ao mesmo
tempo, explosivo como um calabrês. Aldo Rebelo foi então
ao gabinete de Dirceu para passar a limpo sua suspeita e tirar satisfações.
Deu-se, aí, uma das cenas mais grotescas do atual governo:
enfurecidos um com o outro, os dois ministros deram murros na mesa,
trocaram palavrões impublicáveis aos berros e nunca
mais se falaram.
De início, Rebelo perguntou a Dirceu
se ele estava por trás das denúncias. Dirceu ficou
irritado com a suspeita, disse que não tinha nenhuma relação
com o caso, que costumava trabalhar em equipe e que não tinha
nenhum interesse em desestabilizar o governo. Rebelo não
ficou satisfeito e insistiu na suspeita, dizendo que enxergava as
"digitais" de seu colega no caso. Dirceu, então, explodiu.
Aos gritos, afirmou que Rebelo, em vez de alimentar especulações
estapafúrdias, deveria estar preocupado em aprovar a proposta
do governo para o novo salário mínimo que,
dois dias depois, sofreria uma derrota acachapante no Senado. Rebelo
reagiu, também levantou a voz e declarou que, como coordenador
político do governo, sua missão de aprovar as propostas
do governo no Congresso Nacional seria muito mais fácil se
Dirceu não ficasse empenhado em conspirar contra ele. Foi
a gota d'água. Daí em diante, os dois deram murros
na mesa, trocaram xingamentos de botequim, mas não chegaram
às cenas de pugilato. O embate foi relatado a VEJA por quatro
interlocutores dos ministros dois de cada lado.
Dida Sampaio/AE
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ALIADO DO EX
Sarney, presidente do Senado: torcendo
pela volta de Dirceu ao comando político |
Nada do que aconteceu em Brasília na semana passada é
uma novidade no poder. Desde a volta da democracia, em 1985, apenas
para delimitar um tempo histórico, todos os governos brasileiros
sofreram episódios de espionagem. Até os presidentes
da República passaram pelo constrangimento de ler nos jornais
seus próprios diálogos telefônicos sorrateiramente
grampeados. Houve casos estonteantes, como a descoberta de que um
dos principais assessores do presidente Fernando Henrique fazia
lobby em favor de uma multinacional americana. E também casos
patéticos, como o de agora, cujos contornos são tão
chinfrins que a espionagem caberia melhor numa das comédias
do atrapalhado inspetor Jacques Clouseau hipótese
em que o jornalista suspeito do Palácio do Planalto ficaria
perfeito no figurino de Kato, o ajudante asiático do inspetor
endiabrado. Afinal, existe uma dupla de suspeitos há dois
meses e, em dois meses, nada se conseguiu avançar. Além
disso, o suspeito recebe 2.500 reais,
uma bagatela por esse tipo de serviço, donde se concluiu
que o tal informante não tem informação preciosa.
Apesar dos ares cabriolantes, o episódio
embute uma gravidade da qual é bom não se afastar:
alguém espionou alguém no Palácio do Planalto
e, no curso dessa investigação clandestina, chegou
a quebrar-lhe o sigilo bancário, descobrindo as dívidas
de um dos suspeitos, seus cheques sem fundo e seus débitos
telefônicos. Na semana passada, em razão desse detalhe,
o clima entre os funcionários do Palácio do Planalto
era um misto de receio e perplexidade. "Estamos com medo de usar
o telefone e até de mandar um e-mail. Sabe-se lá quem
pode estar investigando quem", diz um funcionário que trabalha
no 3º andar do palácio, o mesmo onde fica o gabinete
do presidente Lula. A investigação sorrateira, e talvez
esse seja o aspecto mais grave, estava sendo centralizada pela Casa
Civil, um ministério que não tem mandato, autoridade
nem legitimidade para bisbilhotar a vida de quem quer que seja.
Diante disso, é lícito indagar: será que a
Casa Civil tem meios de arapongar a vida de qualquer pessoa, mesmo
que não seja funcionário do Palácio do Planalto?
Na terça-feira passada, o presidente
Lula reuniu-se com o general Jorge Armando Felix, chefe do Gabinete
de Segurança Institucional e responsável pela Abin.
Na conversa, o presidente considerou que o caso era grave e pediu
uma investigação oficial. Na própria terça,
o general abriu uma sindicância para esclarecer se dois agentes
da Abin realmente estiveram envolvidos na espionagem. Os agentes
Ceílson Ludolf Ribeiro e João Carlos Sanches, de acordo
com a versão que chegou à Casa Civil há mais
de dois meses, recebiam as informações do jornalista-espião
e repassavam-nas aos adversários políticos do ministro
José Dirceu e da prefeita Marta Suplicy em viagens de fim
de semana a São Paulo. Na semana passada, os dois agentes
enviaram uma carta a VEJA em que negam qualquer participação
no episódio. Sanches acrescenta que nos últimos doze
meses esteve nove vezes em São Paulo, mas explica que as
viagens freqüentes se devem ao fato de ter familiares na capital
e no interior. Ribeiro, por sua vez, afirma que viajou para São
Paulo só duas vezes neste ano, sempre a serviço da
Abin.
Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
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DERROTA À VISTA
Os senadores se preparam para votar o
novo valor do salário mínimo: uma derrota acachapante para o
governo, que tentará se recuperar na Câmara |
Tal como a espionagem que afeta todos os governos,
a intriga palaciana também sempre vem junto com o poder
seja nos palácios da Roma Antiga, seja na Casa Branca de
George W. Bush. O que provoca espanto no Palácio do Planalto
de Lula é que tudo virou intriga, e a intriga saiu dos bastidores
para ganhar a ribalta. A denúncia de espionagem, como não
poderia deixar de ser, também entrou para o rol das intrigas
que opõem José Dirceu e Aldo Rebelo, embora o caso
não tenha nada a ver com isso. A hipótese mais sólida
para o caso da espionagem refere-se a uma disputa de poder dentro
da Abin. Uma ala de espiões mais antigos, dos tempos do SNI,
serviço de arapongagem da ditadura, estaria lutando para
se manter nos postos mais altos da agência de inteligência
no governo petista. Para tanto, os velhos espiões teriam
lançado mão da antiga tática de espionar autoridades
e, com sorte, descobrir algo que permitisse chantageá-las.
Os velhos espiões ficaram mais ouriçados depois que
o governo decidiu mudar o comando da Abin, trocando Marisa Del'Isola
pelo delegado Mauro Marcelo Lima e Silva, que foi convidado pelo
próprio presidente Lula.
A disputa entre José Dirceu e Aldo
Rebelo esbarrou no caso da arapongagem por delírio e desinformação,
mas a briga entre os dois é real, dura, sangrenta e não
será encerrada sem mortos e feridos. Na semana passada, depois
que o Senado derrotou o governo, rejeitando um salário mínimo
de 260 reais e aprovando um de 275, o presidente Lula tomou a decisão
de mexer na coordenação política, mas não
quer alterar nada antes das eleições municipais. Na
terça-feira, dia em que Rebelo e Dirceu quase se esbofetearam
no palácio, o presidente reuniu-se com eles, em conversas
separadas, e pediu-lhes "jogo de equipe" para derrotar a oposição
no Senado. Nas conversas, mais uma vez, ficou clara a animosidade
entre os dois ministros. Dirceu criticou a estratégia de
Rebelo para conquistar votos no PFL e no PSDB a favor da proposta
de 260 reais. Rebelo, por sua vez, reclamou para o presidente que
a cúpula do PT estava fazendo de tudo para derrubá-lo
do cargo de coordenador político e entregá-lo novamente
a José Dirceu. Lula percebeu que a rivalidade não
permitiria o jogo de equipe e resolveu, ele próprio, por
telefone, cabalar votos no Senado e convocar a ajuda de governadores.
Mas foi em vão.
A derrota no Senado incomodou Lula, que, num
desabafo, disse a um interlocutor que o serpentário está
tão venenoso que não ficaria surpreso se o governo
sofresse novas derrotas no Senado. Logo depois do desabafo, levando
em conta que a proposta do mínimo de 275 reais tem de voltar
para a Câmara dos Deputados, Lula procurou o deputado João
Paulo Cunha, presidente da instituição, para organizar
a votação da proposta. Lula quer que os 260 reais
voltem a vigorar na Câmara, mas com uma votação
superior à que teve no início de junho. Na ocasião,
os deputados aprovaram a proposta do governo por 266 votos a 167.
Agora, Lula quer um placar ainda mais folgado, para dar demonstração
de força do governo. Na Câmara, o governo tem uma maioria
bastante confortável. No Senado, porém, nunca foi
forte, mas o racha entre Dirceu e Rebelo enfraqueceu-o ainda mais.
O presidente do Senado, José Sarney, força respeitável
na casa, sopra o vento a favor de José Dirceu, para ajudá-lo
a retomar o controle da coordenação política.
O senador Renan Calheiros faz o que pode por Rebelo.
Dida Sampaio/AE
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Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
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A NOVA CARA DA ABIN
O general Jorge Armando Felix (à esq.)
e o delegado Mauro Marcelo, que vai substituir Marisa Del'Isola
(à dir.) na direção da Abin: arapongas sob investigação
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As intrigas palacianas costumam produzir estilhaços
afiadíssimos porque misturam dois ingredientes explosivos:
a sede pelo poder, que pode desdobrar-se nas mais vis conspirações,
traições, rasteiras e golpes, e a vaidade humana,
que pode materializar-se na forma de cobiça, inveja, despeito,
ciúme enfim, sentimentos que enfeitiçam a alma
humana. A briga do momento chama atenção porque incorpora
esses ingredientes numa altíssima voltagem. Pelo que brigam
José Dirceu e Aldo Rebelo? Eles não disputam uma nova
orientação de governo, nem divergem em relação
a um projeto de nação ou qualquer outro tema de grande
relevância. Aparentemente, os dois disputam o poder pelo poder,
apenas isso. Mais de uma vez, Rebelo já reclamou ao presidente
que a Casa Civil jamais lhe passou o mapa real dos cargos dos aliados
do governo. A lista que Dirceu liberou diz apenas que fulano ocupa
tal cargo, mas não informa qual o político que apadrinhou
o fulano informação sem a qual a lista dos
cargos é tão inútil quanto um bilhete velho
de loteria. Hoje, o responsável por esse balcão é
Fredo Ebling, cujas mãos, no entanto, estão amarradas.
A única diferença profunda entre eles é de
estilo. José Dirceu é pragmático. Quando fazia
oficialmente a coordenação política, atuava
junto aos que têm voto e decidem, como a senadora Roseana
Sarney, no PFL, e o senador Tasso Jereissati, no PSDB. Já
Aldo Rebelo é diplomático. Para ganhar votos, costuma
atuar junto ao presidente do partido ou ao líder do partido,
que nem sempre são as vozes mais influentes e decisivas de
uma sigla.
Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
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DE VOLTA
João Paulo, presidente da Câmara: Lula
quer votação consagradora a favor dos 260 reais |
É raro, raríssimo, encontrar uma equipe que assuma
o poder unida e permaneça assim por longo tempo. Desde Getúlio
Vargas, o país assiste a uma cena que se repete governo após
governo: os vencedores chegam ao palácio de mãos dadas,
sob a euforia unificadora de ter derrotado o adversário comum,
e se tratam como irmãos. O clima de fraternidade, porém,
não resiste aos primeiros seis meses de governo. Não
se tem notícia de um governo, de Getúlio Vargas aos
dias de hoje, que tenha ultrapassado esse prazo. Depois disso, a
cizânia costuma semear rivalidades que se tornam mais ferinas
do que as que havia em relação ao adversário
derrotado nas urnas. O ministro José Dirceu, por exemplo,
nunca fez uma oposição tão vituperiosa contra
os tucanos como a que move contra Aldo Rebelo, um representante
do PC do B e aliado de primeira hora das candidaturas presidenciais
de Lula. Só Frei Betto, o ingênuo amigo, assessor e
conselheiro espiritual do presidente, achou que, por ser um governo
formado por companheiros históricos, o nível de intriga
no palácio petista seria menor que nos governos anteriores.
Frei Betto escreveu isso num artigo. No ano passado, claro.
Apesar das evidências assombrosas de
que a cúpula do governo vive num mundo de intrigas, de que
há funcionário sendo espionado no palácio,
de que dois ministros travam uma briga devastadora e de que o governo
estraçalhou sua coordenação política,
Aldo Rebelo e José Dirceu, em entrevista a VEJA na semana
passada, deram as seguintes declarações:
José Dirceu Não há
conflito nenhum entre mim e o ministro Aldo. Nossa relação
é normal. Somos amigos. Saímos várias vezes
juntos, vamos a jantares, com nossas mulheres, ao cinema... Nós
estamos num mundo da carochinha. Eu trabalhei com Aldo o tempo todo
nestes últimos dias.
Veja E
o caso do espião?
José
Dirceu Não sei nada sobre isso. Se aconteceu,
a Casa Civil não tem nada a ver com isso.
Veja
E a briga com Aldo Rebelo na terça-feira?
José Dirceu Isso
nunca aconteceu. Eu e o ministro Aldo só tratamos nesta semana
da votação do mínimo. O trabalho de articulação
política do governo está excelente.
Veja Então
por que o governo perdeu no Senado?
José
Dirceu Circunstâncias do momento.
O ministro Aldo Rebelo também falou
a VEJA. Disse que seu relacionamento com José Dirceu é
"ótimo" e nega qualquer atrito entre ambos. "Trabalhamos
juntos todos os dias desta semana, um colaborando com o outro",
diz o ministro. E, quanto às pressões da cúpula
do PT para defenestrá-lo do cargo, Aldo Rebelo diz que nunca
ouviu falar do assunto. "Não acredito em pressão e
não sinto nenhuma pressão. Além disso, o presidente
já desmentiu oficialmente qualquer mudança no ministério",
afirma ele. Parece um clima de convento, não? Ouça-se
o que diz um ministro nordestino que compara a briga dos dois às
disputas comuns no sertão: "Eles amarraram as camisas, agora
nenhum pode mais correr. Cada um tem uma peixeira na mão
e só dá para deixar a briga morto".
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