|
|
Entrevista: Kathleen
Turner
A volta por cima
A atriz americana fala como conseguiu
superar o sofrimento causado por uma
doença grave a artrite reumatóide

Anna Paula Buchalla, de Nova York
Ser adolescente nos anos
80 era, também, sonhar com a Kathleen Turner do filme Corpos
Ardentes as moças queriam ser como ela; os rapazes
desejavam uma namorada como ela (mas não tão fatal,
é verdade). Se dependesse apenas de Kathleen, a expressão
"loira burra" não existiria. Talentosa, dona de um humor
afiado e de uma voz rouca marcante (emprestada a Jessica Rabbit,
de Uma Cilada para Roger Rabbit), a atriz americana atuou
em filmes de grande sucesso, como Peggy Sue Seu Passado
a Espera, de Francis Ford Coppola, A Honra do Poderoso Prizzi,
de John Huston, e O Turista Acidental, de Lawrence Kasdan,
entre outros. Para não falar de suas magníficas atuações
no teatro, no qual está para estrear Quem Tem Medo de
Virginia Woolf?. Ela interpretará Martha, o mesmo papel
de Elizabeth Taylor na versão para o cinema. Em 1993, Kathleen
viu seu mundo quase desabar, ao ser diagnosticada com uma doença
degenerativa grave, a artrite reumatóide, que ataca as juntas
e as articulações. Os médicos chegaram a dizer
que ela não conseguiria mais andar normalmente. A atriz ganhou
peso, entrou em depressão, afundou-se no álcool, mas
conseguiu dar a volta por cima. Hoje, aos 50 anos, ela está
mais ativa do que jamais esteve nos últimos anos. Kathleen
deu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja
Como a senhora descobriu que sofria de artrite
reumatóide?
Kathleen Isso foi há
onze anos. Eu estava filmando Mamãe É de Morte,
quando meus pés começaram a doer muito. Eles incharam
tanto que meus sapatos simplesmente não serviam mais. Cheguei
a ponto de só conseguir usar um único par de tênis
e, ainda assim, desamarrado. Não tinha idéia
do que estava ocorrendo comigo. O primeiro médico que procurei,
um ortopedista, fez radiografias das minhas pernas e, basicamente,
me disse para comprar sapatos novos. Pouco tempo depois, eu não
conseguia mais abrir totalmente os braços e, gradativamente,
fui perdendo a capacidade de virar a cabeça. Procurei, então,
um médico especializado em tratamento de atletas. Como as
imagens dos exames não mostravam nada, ele me sugeriu uma
cirurgia do tipo exploratória. Eu, obviamente, recusei seguir
esse caminho. Continuei a me sentir mal durante a maior parte do
tempo. Tinha constantemente febre baixa e minha energia se esvaiu.
Para resumir, só depois de um ano do aparecimento dos primeiros
sintomas é que obtive o diagnóstico correto, por meio
de um exame de sangue.
Veja
E
qual foi sua reação ao receber a notícia?
Kathleen
Senti medo, mas também alívio: finalmente minha doença
tinha um nome. Lembro que, no dia em que recebi o diagnóstico,
fui a uma reunião de pais na escola de minha filha. Sentei
numa dessas cadeiras pequenas que as crianças usam e, ao
final do encontro, não conseguia mais me levantar. Eu sentia
muita dor. Àquela altura, eu praticamente não andava
ou segurava objetos. Na época, os médicos chegaram
a dizer que eu talvez não voltasse a andar normalmente. Foi
horrível.
Veja
A senhora nunca se deixou abater?
Kathleen
Quando me disseram que eu poderia deixar de andar
como qualquer pessoa saudável, fiz uma verdadeira romaria
pelos consultórios dos melhores reumatologistas de Nova York.
Foram anos de coquetéis de drogas pesadas, com efeitos colaterais
terríveis. Como a artrite reumatóide é uma
doença auto-imune, os remédios que existiam até
então eram supressores do sistema imunológico
o que, obviamente, debilita muito. Testei todas as combinações
e dosagens possíveis. Ganhei peso e entrei em depressão.
De uns cinco anos para cá, surgiram outros remédios
e informações mais acuradas sobre a doença.
Hoje sei, por exemplo, que a doença também tem uma
origem genética. Alguns momentos foram demasiadamente sofridos,
mas nunca perdi o otimismo. Há alguns anos, quando as manifestações
da doença ainda eram muito presentes, eu estava na piscina,
andando de um lado para o outro, quando consegui abrir os braços.
Comecei a rir sozinha, plantada no meio d'água. O coitado
do salva-vidas ficou até assustado.
Veja
Sua vida mudou muito depois da doença?
Kathleen
Costumo dizer que essa é uma doença
que não acaba com a sua vida, mas com o seu estilo de vida.
Na época do diagnóstico, tínhamos uma linda
casa, mas eu não conseguia subir as escadas. Fomos obrigados,
então, a mudar para um apartamento. Isso sem falar no trabalho,
nas relações com meu marido e no dia-a-dia com minha
filha. Imagine o que é ter uma filha pequena a minha
tinha 6 anos na ocasião em que tudo começou
dizendo "Vamos, mamãe", e você sendo obrigada a responder
"Desculpe, não consigo". Não foi fácil vê-la
me ajudando. Esse é, afinal, o papel da mãe. E lá
estava uma criança cuidando de mim. Tudo é afetado
pela dor e pela incapacidade de realizar as atividades mais corriqueiras.
No trabalho, passei a escolher os papéis de acordo com o
que eles exigiam de mim fisicamente.
Veja
Como é o seu tratamento hoje?
Kathleen Tomo remédios
de última geração e faço muita ginástica.
Tive muita sorte de poder participar de programas experimentais.
Cheguei ao meu médico atual por acaso. Eu estava me arrastando
na escada da escola da minha filha, para subir apenas alguns lances,
quando a mãe de uma coleguinha dela quis saber o que estava
acontecendo. Ela, então, me disse que uma de suas filhas
tinha artrite juvenil, uma forma bastante severa da doença,
e se tratava com um especialista em Boston. Estou com esse médico
até hoje. Ele me ensinou que a artrite reumatóide
é uma doença que deve ser combatida diariamente. Comecei
a fazer exercícios quase todos os dias, apesar da dor. Nado
bastante. Trabalho principalmente ombros, joelhos e cotovelos.
Veja
Há esperança de cura?
Kathleen
O diagnóstico precoce é capaz de evitar
lesões nas articulações. Não há,
portanto, mais razão para que as vítimas da doença
passem pelo mesmo martírio que eu. Tenho confiança
de que a cura aparecerá antes que eu morra.
Veja
A senhora teve medo de, por causa da doença,
não ser mais chamada para trabalhar?
Kathleen Sim, muito. Tanto
que, por um longo tempo, tentei esconder a doença. De certa
forma, era melhor que as pessoas achassem que eu tinha problemas
com bebida ou algo do gênero. Afinal de contas, os diretores
e produtores estão acostumados a lidar com atores dependentes
de álcool e drogas. A grande dificuldade é trabalhar
com alguém que tem uma doença misteriosa, sobre a
qual pouca gente tem informação.
Veja
A senhora extraiu algo de bom da doença?
Kathleen Até ficar
doente, eu não percebia quanto condicionava a minha auto-estima
à minha imagem. Ao me ver combalida, enfrentei uma crise
de identidade. Me perguntava o tempo todo: "Quem sou eu? O que será
feito do meu trabalho e da minha vida?" Tive de enfrentar isso e
priorizar outros aspectos da existência. Agora determino o
que posso fazer, o que podem fazer por mim e o que simplesmente
não me importa. Meu marido, com quem estou há vinte
anos, me ajudou e continua me ajudando muito nesse processo. Hoje
sei que posso fazer bem o meu trabalho mesmo que não esteja
no auge de minha forma física.
Veja
A senhora está bem mais magra do que alguns
meses atrás. Há rumores de que o emagrecimento é
fruto de uma cirurgia de redução de estômago.
É verdade?
Kathleen Não, não
é verdade.
Veja
A senhora não filma nos Estados Unidos desde
o ano 2000. A senhora está desiludida com o cinema ou o problema
é que, como dizem muitas atrizes, faltam bons papéis
para as mulheres mais velhas?
Kathleen Estive envolvida
no projeto de um filme francês, Without Love, mas por
questões financeiras as filmagens não foram adiante.
Na verdade, tenho me dedicado basicamente ao teatro. Fiz algumas
peças na Broadway, como A Primeira Noite de um Homem
e Tallulah. Em dezembro, estrearei Quem Tem Medo de Virginia
Woolf?, no papel de Martha. Será a primeira montagem
da peça na Broadway desde 1976. Amo fazer teatro e, honestamente,
para as mulheres da minha idade os melhores papéis estão
no palco. No cinema, aos 50 anos, ou você interpreta a ex-mulher
de alguém ou a mãe eternamente amargurada. Já
cheguei a receber roteiros em que eu faria o papel de avó.
Pelo menos, no teatro, eu tenho a chance de fazer papéis
que nunca fiz e que eu sempre quis fazer, como o de mulheres mais
meigas e delicadas.
Veja
Então, para uma atriz, é mesmo uma
dificuldade ter 50 anos...
Kathleen Sim, pelo menos
nos Estados Unidos. Este é um país que prioriza a
cultura e o consumo dos jovens. Os mais velhos são pouco
ou quase nada respeitados por aqui. É muito triste. Você
pode imaginar alguém na França dizendo que Catherine
Deneuve é velha demais? Ou, na Itália, que Sophia
Loren é velha?
Veja
A senhora nunca se importou em representar vilãs,
ao contrário da maioria das grandes estrelas. Elas preferem
não aceitar papéis negativos com medo de que isso
possa interferir em sua imagem. O que acha disso?
Kathleen Não vou
julgar ninguém, mas interpretar uma mulher má é
muitíssimo mais divertido do que fazer a boa moça
que é sempre previsível e não impõe
maiores desafios a uma atriz. Além disso, jamais gostei de
me repetir.
Veja
Em 1999, a senhora se internou numa clínica
de desintoxicação. Qual foi o efeito do abuso do álcool
na sua carreira?
Kathleen Na minha carreira,
o álcool não teve nenhuma influência. Jamais
bebi enquanto filmava. Usei o álcool para amenizar a dor
física e psicológica causada pela doença. Isso
quase me matou. Quando eu estava realmente mal, resolvi que precisava
fazer alguma coisa e, durante duas semanas, permaneci numa clínica.
Foi uma experiência ótima mas não que
eu queira repetir, é lógico!
Veja
A senhora disse uma vez que era mais reconhecida pela sua voz
do que pela sua imagem. Em 1988, a senhora fez a voz de Jessica
Rabbit no filme Roger Rabbit. Por que a senhora não
fez mais esse tipo de trabalho?
Kathleen
Foi muito divertido fazer Jessica Rabbit. Mas, nos
últimos anos, resolvi usar minha voz de forma diferente:
no rádio. Tenho um programa semanal de uma hora, com entrevistas
e informações sobre política. Entrevistei,
recentemente, um tenente recém-chegado do Iraque. Acho que
os americanos deveriam se envolver mais nessas questões.
Me assusta o fato de se dar tão pouca importância nos
Estados Unidos ao problema da fome no mundo, das relações
internacionais, das guerras. Acho os americanos preguiçosos
em relação a esse tipo de assunto. Por acreditar que
tinha de fazer algo sobre essas questões, passei a trabalhar
no rádio.
Veja
O que a senhora acha da administração
Bush?
Kathleen Acho Bush terrível.
É errado o modo como ele governa sua visão
é muito impregnada ideologicamente, o que é perigoso.
Concordo que existe atualmente, nos Estados Unidos, uma atitude
de não criticar nem questionar as políticas governamentais
que cerceiam a liberdade. Os poucos que fazem isso acabam desacreditados
ou ridicularizados. Por outro lado, não acho, sinceramente,
que os americanos irão renunciar a seus direitos. Ou, pelo
menos, espero que não.
Veja
A senhora é constantemente comparada à
atriz Lauren Bacall o mesmo olhar, a mesma voz. É
verdade que, certa vez, a senhora disse a ela: "Olá, eu sou
você mais jovem"?
Kathleen Nós nos
divertimos muito com essa comparação. Já virou
até um jogo. Quando nos encontramos na rua, empostamos a
voz e nos cumprimentamos num tom bem grave: "Boa-noite, senhora
Turner", "Boa-noite, senhora Bacall". Na verdade, foi ela que me
disse ter ouvido de alguém que eu era ela mais jovem.
Veja
Como é viver em Nova York?
Kathleen
Como meu pai era diplomata, cresci em grandes centros,
como Londres e Washington. Morei também na Venezuela. Hoje,
posso dizer que Nova York é a única cidade em que
eu gostaria de viver. Não saberia morar em outro lugar. Saio
nas ruas e vejo todo tipo de pessoa da mais pobre à
mais rica. O bom de Nova York é que existem áreas
extremamente diferentes e isso não faz nenhuma delas ser
mais importante do que outra. Já em Los Angeles, há
apenas uma área considerada relevante. Aqui em Nova York,
você é sempre parte do povo, e eu adoro isso.
|