McCartney: tudo mudou, menos seu
talento para compor
Memory Almost Full,
Paul McCartney (Universal) – Os dois últimos anos foram
de grandes mudanças para o ex-beatle. McCartney se
separou da mulher, a ex-modelo Heather Mills (os detalhes
sórdidos do processo fizeram a alegria dos tablóides
ingleses), e se desligou da EMI, companhia pela qual gravou
durante quarenta anos. Seu novo disco, Memory Almost Full,
é o primeiro pelo Hear Music, selo da rede de cafeterias
Starbucks. Quem apreciou as experimentações
sonoras de Chaos and Creation in the Backyard, seu
penúltimo álbum, vai estranhar a sonoridade
mais, digamos, careta desse trabalho. A habilidade de McCartney
para criar belas canções, porém, permanece
intacta, como mostram Dance Tonight, faixa de abertura,
e House of Wax, ambas ótimas baladas.
Dani Gurgel/Divulgação
Mônica Salmaso: Chico Buarque
na medida certa
Noites de Gala,
Samba na Rua, Mônica Salmaso (Biscoito Fino)
– A cantora paulistana nunca escondeu sua admiração
pela obra de Chico Buarque, da qual diz ter bebido ainda "na
mamadeira". Nada mais natural, portanto, do que ela gravar
um disco dedicado ao trabalho de Chico. Uma das qualidades
de Noites de Gala está na escolha do repertório,
composto de canções celebradas como Construção
e Beatriz. Mônica respeita os arranjos originais,
mas sem exagerar na reverência. Em Ciranda da Bailarina,
por exemplo, o clima lúdico foi reforçado pelo
uso da kalimba, instrumento de percussão africano.
Outro trunfo é o amadurecimento da cantora. Ela sempre
teve voz acima da média, mas por vezes carregava na
dramaticidade. Agora encontrou a medida certa.
Begin
to Hope, Regina Spektor – À primeira audição,
essa cantora e pianista russa radicada nos Estados Unidos
soa como uma versão modernizada de Joni Mitchell e
Carole King. Mas há diferenças. Primeiro, ao
contrário das duas compositoras, que foram fortemente
influenciadas pela música folk, Regina flerta com o
novo rock americano. Ela compôs para bandas alternativas
e em 2003 abriu as apresentações do grupo Strokes
– ocasião em que atraiu a atenção da
mídia. Ela une, assim, a sonoridade do folk a adereços
modernos, como guitarras cheias de efeitos e teclados eletrônicos.
Regina também destoa do estilo confessional de Joni
e Carole, e tem até uma veia humorística. On
the Radio, primeiro single do disco, fala de um casal
que tem de aturar uma balada chatérrima do grupo Guns
N'Roses porque o DJ da rádio pegou no sono.
LIVROS
Philippe Desmazes/AFP
Pérez-Reverte: cultor do velho
capa-e-espada
Limpeza de Sangue,
de Arturo Pérez-Reverte (tradução de
Paulina Wacht e Ari Roitman; Companhia das Letras; 232 páginas;
41 reais) – O jornalista e escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte
reavivou um gênero antiquado: o romance de capa-e-espada,
ao estilo de Alexandre Dumas. Limpeza de Sangue é
o segundo livro protagonizado pelo capitão Alatriste,
um aventureiro espanhol do século XVII. Pérez-Reverte
inclui até alguns personagens reais no meio da história,
como Francisco de Quevedo, um dos maiores poetas do chamado
"Século de Ouro" da literatura espanhola. Quevedo e
Alatriste são parceiros na tentativa de resgatar uma
noviça de um convento onde estava sendo seviciada por
um frei. Os dois heróis acabam se batendo contra a
Inquisição. Leia
trecho.
A
Construção do Samba, de Jorge Caldeira
(Mameluco; 224 páginas; 27 reais) – Há uma visão
romântica consagrada segundo a qual o samba é
um gênero musical "autêntico", que nasceu no meio
do povo, sem contaminações comerciais. O historiador
Jorge Caldeira demonstra que não é nada disso:
o samba se consolidou, entre 1917 e 1939, graças ao
rádio e à incipiente indústria do disco.
Os compositores pioneiros, como Donga e Pixinguinha, tinham
um apurado senso de mercado, nos termos mais diretos: gostavam
de ganhar dinheiro. Complementado com um rico material fotográfico,
A Construção do Samba inclui, além
do ensaio que lhe dá título, a biografia breve
Noel Rosa, de Costas para o Mar, dedicada ao autor
de Conversa de Botequim e outros sambas antológicos.
Leia trecho.
DVD
Meus Quinze Anos
(Quinceañera, Estados Unidos, 2006. Sony) –
Echo Park é uma área de Los Angeles que está
em transformação: em meio a uma comunidade latina
formada por operários ou gente de classe média
baixa, vem-se abrindo espaço para moradores mais ricos
e "alternativos" – como os diretores Richard Glatzer e Wash
Westmoreland, um casal gay que se encantou tanto com sua nova
vizinhança que decidiu fazer um filme sobre ela. Às
vésperas de seu baile de debutante, Magdalena (Emily
Rios) descobre que está grávida, sem nem saber
como (há explicação para o fato, porém,
e ela não é religiosa). Rejeitada pelo pai,
vai morar com um tio idoso, que já dá abrigo
também a um primo gay da menina. O resultado é
gracioso e feito com curiosidade genuína. Veja
cenas.
OS
MAIS VENDIDOS - CRÍTICA
Quando
começou a publicar seus contos em revistas, o
americano Joseph Hillstrom King assinava apenas como
Joe Hill. Não queria ser reconhecido como o filho
de um escritor de sucesso – Stephen King, um dos mais
ricos autores de ficção barata do mundo.
Embora já não exista mais segredo sobre
a filiação do autor, é ainda Joe
Hill que assina A Estrada da Noite (tradução
de Mário Molina; Sextante; 320 páginas;
29,90 reais), em oitavo lugar na lista de ficção
de VEJA. A comparação é inevitável:
Hill, afinal, segue a imaginação gótica
do pai. Mas é seguro dizer que os fãs
de King vão se divertir também com o primeiro
romance de seu rebento. A história é sobre
o cinqüentão Jude, ex-líder de uma
banda de rock que, para manter a pose heavy metal, coleciona
itens macabros. Seu calvário sobrenatural começa
quando, em um leilão na internet, ele compra
um fantasma que acompanha um velho terno, entregue em
uma caixa no formato de um coração. Entre
uma assombração e outra, o livro faz várias
referências ao rock – o título original,
Heart-Shaped Box, vem de uma música do Nirvana.