Exibidos respectivamente pela RedeTV!
e pela Gazeta, os programas Insomnia e Intrusos representam
uma nova forma de caça-níquel na televisão.
Diante de um cenário colorido, apresentadores com ares
juvenis lançam charadas ao espectador. Por exemplo: quantas
vezes a palavra "ovelha" aparece dentro de um círculo.
Enquanto os rapazes em cena fazem micagens e suas colegas dão
gritinhos estridentes (até recentemente, a ex-apresentadora
infantil Jackeline Petkovic fazia parte do primeiro programa),
o público é incentivado a ligar para um número
de telefone e tomar parte num certo "concurso cultural". Quem
acumula mais pontos na gincana ganha o direito de entrar no
ar para responder à tal charada – e concorrer a um prêmio
que vai de 1.500 a 4.000 reais em barras de ouro. Seria apenas
uma bobagem, não fosse um detalhe: toda vez que disca
o número do programa, o espectador paga a tarifa salgada
de uma ligação interurbana para celular (no caso,
para Curitiba). E nem é preciso dizer que se faz de tudo
para esticar as chamadas ao máximo. Depois de gastar
uns dois minutos respondendo a um cadastro, a pessoa se submete
a um sem-número de perguntas boçais. Coisas do
tipo: "Qual é a cor da grama: rosa, verde ou roxa?".
Como se fosse gozação, uma voz feminina de vez
em quando entra na linha para comunicar: "Parabéns, você
está indo bem. Continue assim".
Insomnia (transmitido
nas madrugadas de segunda a sábado e nas tardes de
domingo) e Intrusos (que passa nas noites do fim de
semana) são tão parecidos porque vêm da
mesma fonte, a Cellcast, representante no Brasil de uma produtora
inglesa especializada em atrações interativas
de TV. A Cellcast compra horários nas emissoras para
exibir esses programas – calcula-se que desembolse cerca de
300 000 reais por mês só pelo espaço na
RedeTV!. Apesar de a audiência média não
chegar a 1 ponto no ibope, é um negócio lucrativo.
Primeiro deles a estrear por aqui, há sete meses, o
Insomnia chega a proporcionar a cada mês 1 milhão
de minutos em ligações e receita superior a
1 milhão de reais. Boa parte desse dinheiro vai para
a operadora de telefonia que, segundo a Cellcast, patrocina
o programa, a Brasil Telecom. Além de faturar com as
ligações, ela tem ali uma vitrine para divulgar
seu prefixo em estados que estão fora de sua cobertura.
A Cellcast, claro, também embolsa um belo quinhão.
Ao se auto-intitular
"concursos culturais", esses programas conseguiram contornar
inicialmente a fiscalização por que passam outras
atrações que distribuem prêmios. Mas eles
já entraram na mira dos órgãos de defesa
do consumidor. Suspeita-se que, apesar de não cobrarem
taxas adicionais nas chamadas, esses serviços não
diferem em essência do velho 0900 – os telessexos e
afins que proliferavam anos atrás e sumiram ao ser
enquadrados numa legislação que só permite
que se disque para eles com autorização prévia
do titular da linha de telefone. "Temos indícios de
que esses serviços são abusivos", diz Selma
do Amaral, do Procon de São Paulo, que vem investigando
esses programas devido às reclamações
de consumidores que se surpreenderam com a facada em suas
contas no fim do mês.