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23 de maio de 2007
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Cinema
Viva a diferença

Leste e Oeste se chocam em Nome de Família,
da indiana Mira Nair – e assim se cria o novo


Isabela Boscov

 

Divulgação
Ashoke, com sua família: um pé cá, outro acolá

A diretora Mira Nair nasceu na Índia, mudou-se aos 18 anos para o estado americano de Massachusetts e hoje divide seu tempo entre Nova York, Uganda e seu país natal. Qualifica-se plenamente, assim, para tratar do tema que dá mote a todos os seus filmes: o choque entre Ásia e Ocidente, e a tensão experimentada por aqueles que são fruto de uma cultura ancestral e conservadora ao adentrar um mundo liberal e com vocação para se reinventar. O tema não é novo, mas o enfoque de Mira tem um quê de refrescante. Em sua visão, esse atrito produz centelhas; mais renova e alimenta do que destrói ou isola. O exemplo mais bem-acabado dessa sua perspectiva é Nome de Família (The Namesake, Índia/Estados Unidos, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país. O estudante Ashoke Ganguli (Irrfan Khan, um ator extraordinário) sobrevive a um acidente de trem na Índia e atribui o milagre à cópia de O Capote, de Nikolai Gogol, que tinha em mãos no momento do descarrilamento. Além de redobrar seu afeto pelo escritor, o episódio o inspira a conhecer outras terras. Ashoke arruma uma noiva, Ashima (Tabu, uma estrela na Índia), e se estabelece como pesquisador em Massachusetts. Quando seu primogênito nasce, o casal dá a ele o nome Gogol. A intenção é que esse seja apenas o nome pelo qual será tratado em família. O "nome bom", o oficial, deverá ser escolhido pela avó. A carta com a sugestão não chega nunca, e Gogol permanece Gogol. Mas se tornará intensamente americano antes de se descobrir também indiano.

Adaptado do romance O Xará, da anglo-indiana Jhumpa Lahiri, Nome de Família cresce pela empatia com que a diretora enfoca a trajetória de seus protagonistas – de um lado, o amor e o companheirismo que inesperadamente surgem no casamento arranjado de Ashoke e Ashima; de outro, o aprendizado de Gogol (Kal Penn) em selecionar elementos de cada um de seus mundos e combiná-los no homem que ele afinal quer se tornar. Inevitavelmente, há grandes perdas nessa história. Mas há muitos ganhos também. Num momento em que o encontro entre Oriente e Ocidente é visto como fonte tão-somente de discórdia, Mira defende, com experiência adquirida em primeira mão, que a oposição não é algo negativo: é a condição primordial para que se crie o novo.

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