Com a ajuda
da internet e sem a fiscalização do governo, cresce no país
o criminoso comércio de rins
Marcelo
Bortoloti
Luiz
Morais
Tiago:
ele pede 40 000 reais para fazer a doação
Existem
32 000 pessoas esperando por um transplante de rim hoje no Brasil. É uma
longa fila, que demora entre três e dez anos para ser vencida. Quem encara
essa espera são doentes renais que não têm nenhum parente
ou amigo com órgão compatível e disposto a doá-lo.
Essa dificuldade vem estimulando o comércio de órgãos, que
encontrou, na internet, um caminho aberto para as negociações. Os
rins são oferecidos, em média, por 80 000 reais. Mas há quem
arrisque pedir até 500 000 reais. O comércio, embora proibido por
lei, é uma solução tentadora para os doentes em situação
de desespero, cujo tempo de vida está se esgotando. Com um doador particular,
ele não precisa esperar na fila e pode receber o órgão imediatamente,
se os testes indicarem que existe compatibilidade. O passo seguinte é buscar
a autorização judicial, obrigatória no caso de transplantes
entre não parentes. Para concretizar a operação, basta que
doador e receptor se declarem amigos perante o juiz. Como a fiscalização
é falha, dificilmente se consegue desvendar a mentira. O indício
do avanço desse comércio está nos dados da Associação
Brasileira de Transplantes de Órgãos. Nos últimos quatro
anos, a doação entre parentes se manteve estável, na faixa
de 1.500 por ano. A doação entre cônjuges caiu de 148, em
2002, para 121, em 2006. E, no mesmo período, a doação entre
amigos aumentou de setenta para 114 ao ano.
Os números podem parecer pequenos, mas o que está em jogo é
a tendência que se verifica. O crescimento foi de 62%. Há três
anos, a CPI do Tráfico de Órgãos sugeriu, em seu relatório
final, que o Ministério da Saúde acompanhasse de perto o número
de transplantes entre não aparentados. Classificou essa modalidade como
um "propiciador do comércio de órgãos". Até hoje o
acompanhamento não é feito. Existem dezenas de anúncios disponíveis
na rede, com e-mail para contato e alguns até com o telefone do vendedor.
Esse tipo de oferta aparece também em classificados de jornal. O problema
já é conhecido pelos médicos. O Hospital do Rim, de São
Paulo, se recusa, por conta própria, a fazer transplantes entre não
parentes. "Há pessoas que doam apenas para fazer o bem. Mas isso não
é a maioria. É difícil para um juiz saber se está
havendo ou não algum tipo de troca", diz o médico Osmar Medina,
diretor do programa de transplantes do hospital.
Classificados:
rins à venda até em anúncios de jornal
A
decisão de vender um rim não é fácil. Quem segue esse
caminho normalmente está tomado pelo desespero da falta de dinheiro. VEJA
conversou com uma dessas pessoas. Tiago (a seu pedido, seu sobrenome não
pode ser revelado) tem 27 anos e mora em Natal, no Rio Grande do Norte. Ele usou
a internet para oferecer seu rim. No anúncio, divulga telefone, e-mail
e pede 40 000 reais. "Uma amiga de Sergipe vendeu seu rim a um receptor em Minas.
Pouco antes do transplante, teve o dinheiro depositado na conta. Foram 80 000
reais", diz. É possível encontrar razões humanitárias
para a venda de órgãos, principalmente da parte de quem compra.
Mas a lei é clara ao proibir. Para evitar que o desespero seja um combustível
poderoso nas mãos dos traficantes de órgãos, o governo precisa
agir rápido. Não dá para esperar mais.