A avalanche de dólares coloca o país na rota da normalidade
e dos juros baixos. Dessa vez tudo conspira para dar certo
Julia Duailibi e Cíntia Borsato
Fabiano Accorsi
ELE
VOA PARA ONDE NINGUÉM QUER VOAR Nos
anos 80, 400 cidades brasileiras eram atendidas por vôos regulares. Hoje,
são apenas 160. Municípios de porte médio ficaram sem conexão
aérea depois da crise que derrubou a TransBrasil e a Vasp e levou a Varig
à beira da falência. O empresário José Mário
Caprioli, de Campinas, passou a investir no nicho abandonado. Seguiu um caminho
semelhante ao de Constantino Júnior, o dono da Gol, e criou a Trip Linhas
Aéreas. Como ele, Caprioli é herdeiro de empresas de ônibus.
Sua família explora o transporte rodoviário no interior paulista
há setenta anos. Em 1998, Caprioli, que tinha apenas 26 anos, comprou dois
aviões turboélices Brasília de trinta lugares. Inicialmente
passou a explorar linhas no estado de São Paulo e o trecho Fernando de
NoronhaNatal. Depois mirou na rebarba da rebarba e começou a explorar
as regiões Norte e Centro-Oeste, interligando rotas como Ji-ParanáVilhena,
em Rondônia, e EirunepéCoari, no Amazonas. Nessas cidades,
encontrou uma clientela carente e fiel, disposta, em troca da comodidade de ser
atendida pelo ar, a lhe pagar bem mais do que o cobrado por viagens aéreas
nas rotas entre capitais. Uma parceria com a TAM lhe deu passageiros para 30%
de suas rotas, e escala para crescer. No ano passado, vendeu metade da empresa
à Águia Branca, uma transportadora rodoviária do Espírito
Santo. Com o dinheiro, acertou a aquisição de mais doze aviões
fabricados pela Airbus, com capacidade para 72 passageiros cada um. Atualmente,
a Trip opera com nove aviões, nos quais transporta 300 000 passageiros
por ano. Deve fechar 2007 com um faturamento de 140 milhões de reais e
uma taxa de crescimento na faixa de impressionantes 40%. Diz Caprioli: "Não
sou nenhum Constantino, mas, com esse cenário de aumento de renda, nossas
perspectivas são muito positivas".
Décadas
seguidas de desarranjo financeiro, alta inflação e crescimento pífio
no Brasil apagaram qualquer centelha inovadora e empreendedora, combustível
vital para o aumento da produtividade e o desenvolvimento econômico. Simplesmente
não valia a pena fazer negócios no Brasil. Com a taxa de juro nas
nuvens, era mais seguro e rentável emprestar dinheiro ao governo. Raríssimas
empresas conseguiram se manter lucrativas nesse ambiente hostil. A cada dia, no
entanto, o país emite sinais indiscutíveis de que a racionalidade
finalmente venceu no Brasil. VEJA conta aqui histórias de empresas promissoras,
novas e antigas, que decidiram apostar no crescimento do país e têm
sido sobejamente recompensadas.
O atual estado da economia brasileira foi descrito com perfeição
pelo economista Ilan Goldfajn, professor da PUC-RJ e ex-diretor do Banco Central,
em artigo publicado na semana passada: "Há hoje mais otimismo quanto às
perspectivas futuras. Não apenas um ânimo com um bom momento passageiro
da economia, como tantos outros no passado, mas com uma mudança mais duradoura.
Um ânimo que se reflete em mais investimento, em prazos mais longos de análise,
mais contratações, aumentos salariais, crédito bancário
farto e oferta de ações na bolsa de valores, nas quais empresários
estão captando recursos para investir nas suas áreas de atuação".
Para o diretor de pesquisas macroeconômicas do Bradesco, Octavio de Barros,
o Brasil vive uma revolução, algo sem precedentes em sua história.
Diz o economista: "É uma revolução paradigmática,
não existe outra palavra para descrever esse fenômeno. Viramos a
página da alta inflação e da dívida externa, os dois
elementos que historicamente pontuaram a ciclotimia da economia". Segundo Márcio
Holland, professor da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas,
o atual momento não tem paralelo: "O Brasil começa a se tornar um
país normal e caminha para ter padrões internacionais de inflação
e taxa de juro, ao mesmo tempo que mantém as contas externas no lugar.
É como uma profecia que se auto-realiza. Durante o milagre econômico
da década de 70, ao contrário, houve um crescimento inflacionário,
calcado no endividamento público. Temo apenas que as reformas sejam abandonadas".
Obviamente, o Brasil não
se transformou de repente em uma Suíça tropical. Os pontos fracos
estão aí e terão de ser enfrentados com chuva de dólares
ou não, como lembra Márcio Holland. A burocracia paralisante e o
gigantismo estatal não vão embora apenas porque a política
monetária é um sucesso. Outro ponto crucial é o custo do
dinheiro, os juros reais praticados na economia. O Brasil continua na quarta divisão
de nações com as taxas reais (descontada a inflação)
mais altas do mundo só perde para a Turquia entre as economias relevantes.
A boa notícia é que o círculo virtuoso do dólar barato
vai redundar em queda mais acelerada dos juros. Essa inevitabilidade é
mascarada pela dificuldade de entender o fenômeno das relações
cambiais. O debate sobre o valor da moeda costuma ser travado em águas
rasas. Por isso, não raro, os argumentos encalham. Timothy Taylor, professor
da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, ilustra com clareza a complexidade
das discussões envolvendo o mercado global de moedas. Para começo
de conversa, Taylor lembra a seus interlocutores que esse mercado (dólar
comprando euros ou ienes sendo trocados por libras...) chega a 2 trilhões
de dólares por dia. Isso é muito? Bem, todo o mercado mundial de
mercadorias, de soja a carros, de computadores a aviões, passa um pouco
dos 10 trilhões de dólares por ano. Ou seja, em cinco dias mais
riqueza financeira muda de mãos no mercado de moedas do que em um ano em
todo o comércio mundial entre as duas centenas de países do planeta.
É uma força descomunal.
Taylor cita uma pesquisa feita com uma centena dos mais renomados economistas
americanos, a quem foi feita a seguinte pergunta: "Quais são as três
questões de mais difícil resposta?". Em primeiro lugar ficou a mais
antiga perplexidade humana: "Qual é o significado da vida?". Em segundo,
"como a mecânica quântica se relaciona com a teoria geral da relatividade?".
E em terceiro lugar: "Qual a taxa de câmbio ideal?". As perguntas acima
não comportam respostas irrefutáveis as melhores cabeças
não chegaram a um consenso sobre elas. Dificilmente se chegará.
No que diz respeito ao câmbio, a melhor resposta é dada pelos mercados.
"Deixe o câmbio flutuar, atue apenas para evitar subidas bruscas e quedas
desastrosas e, no longo prazo, em condições ideais, a moeda vai
tender para um valor que reflita o sucesso de suas políticas macroeconômicas",
sugere o professor Taylor. Por condições ideais ele entende a ausência
de uma recessão profunda e prolongada nos Estados Unidos ou de algum outro
grande cataclismo na economia global. Como isso independe da vontade dos países,
o que se depreende do conselho de Taylor para os governos é o mais básico
senso comum: gaste menos do que arrecada e não deixe a inflação
disparar. No longo prazo as coisas se ajeitam.
Apesar de alguns setores saírem perdendo, a desvalorização
do dólar tem sido extremamente positiva para o conjunto da economia. Segundo
Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC e atualmente economista-chefe do banco
ABN Amro para a América Latina, o real mais forte derruba a inflação
e eleva os salários. É o que mostram as estatísticas. O total
de salários pagos, que havia crescido menos de 2% em 2004, acelerou para
4,6% em 2005, 6,4% em 2006 e 7,2% nos doze meses terminados em março deste
ano. Como conseqüência, o consumo engordou, estimulando o comércio
as vendas do varejo subiram 12% em março, em relação
ao mesmo mês de 2006. Para Schwartsman, isso tem beneficiado a indústria
local, a despeito do câmbio desfavorável. Alguns analistas chegaram
a dizer que o país estaria "exportando empregos" ao não interferir
no câmbio. Brigaram com os fatos. As estatísticas do Ministério
do Trabalho mostraram que a indústria nacional criou 318.000 vagas formais
entre maio de 2006 e abril de 2007. Para Caio Megale, sócio da Mauá
Investimentos, a experiência internacional comprova o acerto do governo
brasileiro: "Baixa inflação traz crescimento. Essa é uma
verdade consolidada na moderna literatura econômica. O presidente Lula teve
o mérito de compreender isso".
Como em todos os campos da investigação humana racional, a economia
avança por consensos. Para a felicidade da maioria dos brasileiros, essa
máxima está se provando funcional também em algumas regiões
tropicais. O consenso atual em relação ao Brasil é que as
coisas se ajeitaram. Esse consenso puxa outro ainda mais extraordinário:
o custo do dinheiro, definido pela Selic (a taxa de juro básica fixada
pelo BC), tende a cair nos próximos meses e anos. O que isso significa?
Significa que, depois de eras de sofrimento sob as mais estapafúrdias políticas
econômicas, o Brasil está em condições de colher os
frutos oferecidos pela prosperidade mundial graças a uma década
de acerto atrás de acerto na política econômica. Significa
que as empresas de todo porte, principalmente as pequenas, que sempre foram mais
penalizadas, vão poder tomar dinheiro nos bancos pagando juros compatíveis
com suas margens de lucro. Significa que mais empresas serão abertas e
as que já existem vão poder apostar no próprio crescimento
e abrir filiais ou novos ramos de negócios. Significa que haverá
mais e melhores empregos para quem se forma ou foi expulso do mercado de trabalho
pelo crescimento medíocre do passado. Finalmente, depois de décadas
de sufoco e de sovina dominação estatal sobre o crédito disponível,
os empreendedores vão poder dizer com orgulho do Brasil o mesmo que o presidente
americano Calvin Coolidge (1923-1929), para quem a economia era apenas uma forma
material de idealismo, disse dos Estados Unidos: "O negócio deste país
são os negócios".
Lailson Santos
O
NEGÓCIO DA ROUPA SUJA O
cardiologista Luiz Francisco de Ávila passou os anos de 1990 e 1991 estudando
na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. De volta a São Paulo, em 1997,
teve a idéia de criar uma grande lavanderia que prestaria serviços
para hospitais, hotéis e indústrias farmacêuticas, igual às
que tinha visto nos Estados Unidos. Com o dinheiro de amigos, criou a Atmosfera,
cujo controle foi comprado em 2002 pelo fundo de investimento Advent International.
Capitalizada, a empresa já adquiriu nove concorrentes. A última
foi a Mr. Clean, um dos seus maiores competidores. A Atmosfera também aproveitou
o dólar barato para abrir mais duas fábricas e importar equipamentos,
como cinco túneis de lavagem europeus de 1 milhão de dólares
cada um. Com o parque industrial ampliado e modernizado, a capacidade diária
de lavagem de roupa da Atmosfera passará de 240 para 360 toneladas. Hoje,
a empresa exibe um faturamento anual de 200 milhões de reais, emprega 3
100 pessoas, tem catorze fábricas e projeta um crescimento de 37% para
este ano. Munida desses números, a empresa levou adiante o sonho de abrir
o seu capital. No início do ano, a Atmosfera estava pronta para vender
suas ações. Tudo ia bem até que os potenciais investidores
estranharam que os donos da empresa também pretendiam vender seus próprios
papéis, esfriando o apetite pelas ações da empresa. Diz Paulo
Suplicy Barreto (acima), diretor-geral da Atmosfera: "Vamos esperar mais
um pouco, mas o projeto de abrir o capital ainda está de pé".
Tarcisio Mattos/Tempo Editorial
ESTE BARQUINHO AGORA VAI Há
quinze anos, o projetista naval catarinense Mário Schaefer, 44, fundou
uma empresa de barcos de luxo. A Schaefer Yatchs, como é chamada, andou
de lado até 2000, e chegou a flertar com a falência. Naquele ano,
Schaefer desenhou e fabricou o Phantom, o primeiro barco de uma série
cujo diferencial é ser veloz e luxuoso. Rapidamente caiu no gosto de empresários
e personalidades. Vendeu 600 deles, inclusive para gente sem intimidade com o
mar, como o corredor Nelson Piquet e o cantor Zeca Pagodinho. A Receita Federal
já adquiriu duas unidades, de 3,8 milhões de reais cada uma, para
fazer suas patrulhas. Deverá comprar ainda outra. Agora, Schaefer aproveitou
a valorização do real para importar uma máquina de 1,3 milhão
de dólares que aumentará a precisão dos moldes de suas embarcações.
Com o resultado, pretende expandir suas exportações, que, hoje,
chegam a cinqüenta navios por ano. Schaefer vende barcos até a países
com indústria naval forte, como Suécia, Noruega e Espanha.
Fabiano Accorsi
A REDE DE TV DAS
GRANDES REDES DE VAREJO Nos três
primeiros meses de 2007, o comércio varejista cresceu à taxa "chinesa"
de 9,7%. Pequenas lojas e grandes redes de varejo moldam produtos e direcionam
promoções à população de baixa renda, a principal
beneficiária de generosos programas sociais do governo e da inflação
baixa. Sob o ponto de vista empresarial, lucra-se de várias formas nesse
ambiente econômico. Vender diretamente ao consumidor é apenas a mais
óbvia delas. O administrador de empresas Arnold Eugênio Correia,
35, preferiu algo diferente. Ex-produtor musical, ele faz programas de TV corporativa
e os transmite em tempo real, via satélite, para as lojas de seus clientes.
São canais próprios destinados a treinar funcionários, divulgar
informações internas e apresentar promoções, por monitores
de TV, a consumidores que percorrem as lojas. Deu certo. A empresa de Correia,
a SubWay, ganhou clientes relevantes: a Wal-Mart brasileira, o Magazine Luiza
e a loja de brinquedos Ri Happy. A TV Luiza, do Magazine Luiza, é transmitida
via satélite aos funcionários toda quinta-feira antes da abertura
das lojas. A Wal-Mart tem três canais, ligados todos os dias da semana.
Graças ao crédito acessível, Correia investiu 7 milhões
de reais na empresa. No ano passado, faturou 14 milhões de reais.
Lailson Santos
O NOVO LOOK DO LUCRO Ao longo de dezenove anos, a maioria
dos produtos da Taiff, marca brasileira de secadores e chapas para alisar o cabelo,
custava entre 120 e 350 reais. Com a explosão do consumo nas classes C
e D, a empresa criou, em 2006, uma nova linha para o público de baixa renda,
com secadores a 80 reais e chapas a 70 reais. "As vendas cresceram 25% em 2006",
diz Débora Bergamasco, gerente de marketing.
Lailson Santos
ARRANJO CAMBIAL No Dia das Mães de 1999, o segundo
ano de operação da Flores Online, a empresa vendeu oitenta arranjos
de flores pela internet, parte deles entregue por donos da empresa: Fátima
e Marcelo Casarini, mãe e filho. Oito anos depois, no último Dia
das Mães, a empresa entregou cerca de 10 000 encomendas. Grande parte desse
crescimento é recente. A empresa beneficia-se do bom momento da economia,
do dólar baixo, do aumento da renda e do acesso cada vez maior de brasileiros
à internet. No primeiro trimestre, o faturamento cresceu 35% em relação
ao mesmo período de 2006. O câmbio ajudou: com o dólar baixo,
a Flores OnLine adquiriu um novo sistema de software e barateou os produtos: arranjos
com rosas colombianas ficaram 30% mais baratos.