A intrigante desenvoltura
do ex-assessor da
Infraero junto a empreiteiros, obras, editais...
Policarpo Junior
Tiago Queiroz/AE
Romero Accioly/DP
A obra na pista
de Congonhas e o ex-assessor Loyo: rastilho de pólvora
O deputado Carlos
Wilson, do PT de Pernambuco, não tem tido sossego desde
que estourou a crise aérea no país. Há
dias, trocou farpas em público com seu sucessor na
Infraero, a estatal que cuida dos aeroportos. Ele foi acusado
de ser responsável pelo inexplicável atraso
de quatro anos no início das obras de ampliação
da pista do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Carlos
Wilson presidiu a Infraero entre 2003 e 2006. As obras só
começaram na semana passada. Antes disso, Carlos Wilson
começou a ter dores de cabeça com o festival
de denúncias de irregularidades na Infraero durante
a sua gestão fraudes, superfaturamento, desvio
de dinheiro. Recentemente, indagado sobre o que contaria à
CPI do Apagão Aéreo caso viesse a ser convocado
para depor, ele disse o seguinte: "Não serei um novo
Roberto Jefferson". Quis dizer que não tinha denúncias
a fazer, mas houve quem interpretasse sua declaração
como um recado tranqüilizador aos amigos. Com a instalação
da CPI, os sobressaltos do deputado tendem a ficar mais intensos.
Sua próxima preocupação deve ser um personagem
habituado a trabalhar longe dos holofotes: o engenheiro Eurico
José Berardo Loyo, pernambucano de 66 anos, que foi
braço-direito de Wilson na Infrareo.
Andre Dusek/AE
Wilson: ele já disse que não
é o novo Roberto Jefferson
Como assessor especial, Eurico Loyo deveria trabalhar como
um consultor do presidente da Infraero, mas foi muito mais
longe: virou um diretor de engenharia informal. Curiosamente,
até licitações para contratar empreiteiras
acabaram sob sua coordenação. Loyo elaborava
editais. Loyo tocava obras, obras de milhões de reais.
Loyo ouvia o pleito de empreiteiros. Loyo recebia lobistas.
Loyo, com tanto assédio, era mais solicitado do que
o próprio presidente Carlos Wilson, mas ninguém
estava se enganando de endereço. O amigão Wilson
lhe deu poderes luminosos. Loyo fazia mais. Há suspeitas
de que chegou a se reunir com empreiteiras, dividir obras
pelo país afora e só depois lançar edital
de licitação. Certa vez, o acerto teria incomodado
uma empreiteira, que ameaçou pôr a boca no trombone,
mas, depois de pegar umas obrinhas, teria se esquecido da
indignação. O certo é que a faina de
Loyo deixou um tal rastilho de pólvora dentro da Infraero
que o atual presidente da estatal, brigadeiro José
Carlos Pereira, o chamou para uma conversa. Queria saber se
os "boatos" eram verdadeiros. Loyo disse que era tudo intriga.
"Meu trabalho era
técnico, porque não entendia nada de aeroportos",
diz ele. "Nunca criei dificuldades e nunca pedi nada a ninguém."
E por que então fazia até mudanças em
editais de licitações? Ele diz que era só
para facilitar a formação de consórcios.
Os serviços de Loyo são velhos conhecidos de
Carlos Wilson. No governo passado, Wilson, que ainda não
havia trocado o PSDB pelo PT, indicou Loyo para chefiar o
Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes, em
Pernambuco. Loyo aceitou, embora o órgão sempre
tenha sido um antro de corrupção. Antes de ingressar
no mundo estatal, Loyo foi um empreiteiro de bom porte em
Pernambuco. Sua empresa quebrou na década de 80. "Fechei
as portas quando percebi que as coisas não andavam
sem corrupção", diz ele. É uma explicação
interessante. Deixou a iniciativa privada enojado com a corrupção
e foi trabalhar num dos órgãos mais corrompidos
do serviço público federal. Uma hora ainda poderá
ser acusado de separar o Loyo do trigo.