Cai esquema de
assalto às verbas públicas e isso deixa Brasília
de cabelo em pé
Alexandre Oltramari e Policarpo Junior
Fotos Ed Ferreira/AE, Ailton de Freitas/Ag.
O Globo, Dida Sampaio/AE
A operação da Polícia Federal, o empreiteiro
Zuleido Veras (à dir.), acusado de liderar a quadrilha, e o senador Renan
Calheiros (no alto, à dir.): o suspeito já foi visto despachando
na casa do senador
A Operação Navalha,
que implodiu uma quadrilha que assaltava verbas públicas, pode ser mais
explosiva pelo que ainda esconde do que pelo que já mostrou. No plano visível,
a batida policial colocou 46 pessoas na cadeia, entre elas o ex-governador do
Maranhão José Reinaldo Tavares, acusado de receber um carro de mais
de 100.000 reais de propina, e Ivo Almeida Costa, assessor do ministro de Minas
e Energia, Silas Rondeau, suspeito de ter fraudado uma licitação.
A operação também revelou que a quadrilha tinha ramificações
em quatro ministérios e um órgão federal, atuava em seis
estados e várias cidades, incluindo Camaçari, na Bahia, e Sinop,
em Mato Grosso, cujos prefeitos também foram presos. Estima-se que a quadrilha,
ao fraudar licitações de obras públicas e distribuir propina
a servidores e autoridades para azeitar seus negócios ilícitos,
tenha desviado pelo menos 100.milhões de reais dos cofres públicos
num único ano, mas a quantia final deve ser muito maior do que isso. O
líder do esquema, apontado como "chefe dos chefes" no despacho do Superior
Tribunal de Justiça que autorizou as prisões, era o empreiteiro
Zuleido Soares Veras, 62 anos, dono da empresa Gautama, com sede em Salvador e
tentáculos por todo o Nordeste. Grave esse nome: Zuleido Veras.
É a presença de Zuleido
Veras na relação dos presos que pode levar a operação
policial a revelar ramificações ainda mais cabeludas o que
parece ter colocado em situação de pânico algumas autoridades
em Brasília na semana passada. O empreiteiro, há quase duas décadas,
dedica-se a aproximar-se de pessoas poderosas em Brasília. Primeiro, fazia
seu périplo pela capital como executivo da OAS, empreiteira baiana que
virou a soberana das obras públicas no governo de Fernando Collor. Desde
1995, o empreiteiro tem sua própria empresa, a Gautama, que começou
fazendo contratos com o setor público que não somavam mais que 30
milhões de reais e hoje atingem a cifra de 1,5 bilhão de reais.
Nessa trajetória, Zuleido Veras, paraibano de nascimento e baiano por adoção,
tornou-se um ás em contatos com autoridades, servidores públicos
e políticos. Suas ligações mais notórias são
com o presidente do Senado, Renan Calheiros. Eles se conhecem há trinta
anos, mas a relação se intensificou durante o governo Collor. O
empreiteiro já foi visto despachando numa sala na residência oficial
do presidente do Senado. "Já vi Zuleido mais de uma vez na casa de Renan",
disse a VEJA um ministro. O que ele fazia por lá? O senador admite que
é amigo do empreiteiro e diz que ele não freqüenta sua casa,
mas "talvez já tenha ido uma ou outra vez". Talvez.
Dida Sampaio/AE
Adauto
Cruz/CB
O senador José Sarney (à esq.),
que não quis falar da operação policial, e o detido Roberto Figueiredo, presidente
do banco de Brasília
No
fim de 2005, Renan Calheiros liderou a tropa de choque que pressionou o presidente
Lula a liberar 70 milhões de reais para as obras do sistema de abastecimento
de água em Alagoas. As obras, crivadas de irregularidades, não podiam
receber dinheiro, mas a pressão de Renan fez o governo editar uma MP liberando
os recursos. As obras estão sendo feitas pela Gautama. O senador nega que
tenha se empenhado no caso para ajudar a empreiteira e diz que o fez porque as
obras beneficiam seu estado, Alagoas. Pode ter sido uma feliz coincidência,
mas o caso de Rosevaldo Pereira Melo, também preso na semana passada, parece
ser mais do que isso. Rosevaldo Melo é lobista da Gautama e é suspeito
de pagar propinas em troca de obras para a empresa, em especial no Ministério
da Integração Nacional. Conseguiu qualificar a Gautama para participar
da licitação da transposição do Rio São Francisco,
a obra mais cara do atual governo. Antes de virar lobista da Gautama, Melo trabalhava
como secretário de Infra-Estrutura Hídrica do próprio Ministério
da Integração Nacional, onde era tratado como afilhado político
de Renan Calheiros. Quem o indicou para o cargo? "Foi o partido", responde o senador.
Mas quem do partido? "O partido."
Em suas traficâncias por Brasília, o empreiteiro Zuleido Veras conseguiu
uma penca de amizades influentes e aproximou-se da família Sarney, que
lhe abriu as portas dos governos do Maranhão, Piauí, Sergipe e Distrito
Federal pois no Distrito Federal até Roberto Figueiredo Guimarães,
presidente do BRB, o banco estatal, acabou preso na semana passada. Zuleido e
Sarney também são amigos. O ex-presidente não quis comentar
a Operação Navalha, mas seu interesse pelo assunto é grande.
Cancelou uma viagem que faria ao exterior e, quando aconteceram as primeiras prisões,
na manhã de quinta-feira, despachou um de seus assessores para ir à
Polícia Federal obter informações. O assessor, o delegado
aposentado Edmo Salvatori, no entanto, não conseguiu sequer chegar ao gabinete
do delegado responsável pelas investigações. Os aliados do
ex-presidente dizem que seu interesse pela operação se deve à
prisão de seu rival político, José Reinaldo Tavares, e à
suspeita de que outro rival, o governador do Maranhão, Jackson Lago, recebeu
propina de 240.000 reais para liberar 2,9 milhões em atrasados para a Gautama.
Mas à satisfação pela desgraça dos adversários
seguiu-se a apreensão pela prisão de Ivo Almeida Costa, o assessor
do ministro que vem a ser afilhado político de Sarney.
André Dusek/AE
Jaques Wagner, governador da Bahia: passeio de
lancha
O "chefe
dos chefes" da quadrilha é um homem suprapartidário. Fez contribuições
eleitorais para candidatos do PT, PMDB, PDT, PSDB e do antigo PL, mas seu interesse
maior é sempre pelos inquilinos atuais do poder. No dia 25 de novembro
do ano passado, emprestou sua lancha, batizada de Clara, um espetáculo
de 1,5 milhão de dólares com 52 pés e três suítes,
ao governador da Bahia, Jaques Wagner, para ele passear pelas águas da
Baía de Todos os Santos com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff
que, por coincidência, e não existe nada que vá além
da mera coincidência mesmo, é a coordenadora do PAC, o programa sobre
o qual os quadrilheiros pretendiam avançar, conforme mostra a investigação
da PF. A ministra Dilma Rousseff diz que não conhece o empreiteiro e, no
passeio pela Baía de Todos os Santos, soube apenas que a lancha fora alugada
por um assessor do governador baiano. Jaques Wagner não quis falar do assunto.
Nem da lancha, nem da prisão do prefeito de Camaçari, o petista
Luiz Caetano, seu amigo e, dizem as más-línguas, seu caixa informal
de campanha.